Marta Temido e o tempo da comunicação política

Compreendo o fascínio de uma boa comunicação. Mas não é de palavras que as pessoas vivem. A Ministra da Saúde, em plena pandemia, recusou atribuir um subsídio de risco ao pessoal de saúde, rever carreiras médicas ou subir salários escandalosamente baixos, obrigando assim o pessoal de saúde a fazer dupla jornada no sector privado. Deixou a sua força de trabalho ir para a pandemia sem protecção, porque não há Stocks extra do básico. Nunca requisitou os hospitais privados vazios. Mas anunciou esta semana que vai entregar uma quota de cuidados de saúde do SNS, pagos por todos nós, ao sector privado – sector que é assim resgatado da falência técnica em que se encontra com o previsível aumento do desemprego e quebra de seguros de saúde privados, associados a empresas. É uma requisição do sector privado ao público, é isto que está em marcha. A seguir vem a queda do salário do pessoal de saúde no sector privado porque o mercado disponível de médicos para este sector, retirados serviços ao público, aumenta.

A Ministra passou a indicar o uso de máscaras quando estas chegaram ao mercado, tornando obrigatórias as mesmas, ainda que custem, as descartáveis, 1 euros e 20. Um bem obrigatório de saúde pública não é gratuito e ainda tem um preço incomportável. A Ministra Marta Temido não fez nenhuma reflexão sobre como o SNS, que descapitalizado não podia dar resposta a uma pandemia, que teve que ser combativa com um inédito confinamento social de pessoas saudáveis, muitas das quais hoje a braços com depressões graves, desemprego, pânico, violência doméstica. Pergunto: se toda a saúde em Portugal fosse pública teria sido necessário o confinamento com uma doença em que 4/5 são assintomáticos e dos sintomáticos 85% tem sintomas ligeiros? Está por abrir a caixa de pandora do burnout nos profissionais de saúde pós COVIOD-19, enviados como heróis individuais para uma batalha. Dos salários miseráveis de auxiliares, administrativos e técnicos, que não dão para uma casa e alimentarem-se correctamente. Boris Johnson fez um agradecimento aos imigrantes enfermeiros, na verdade foi um recrutamento aberto e despudorado, sincero acredito, pois estes doente com gravidade. Aqui, o Governo juntou-se a Johnson e aplaudiu a fuga de quadros, em vez de assumir o desastre das políticas migratórias para erodir o nosso SNS. Com este cenário, só uma excelente capacidade de resposta mediática, e uma ausência de oposição real e construtiva, pode manter a Sra. Ministra no cargo. É curioso que, para muitos, seja exactamente essa a bitola de avaliação para a Ministra se manter no cargo – a sua excelente comunicação. Diz muito sobre o que tantos pensam da política pública – um acto em que o acto mais importante é o de falar bem. Podemos e devemos ter opiniões distintas, democracias vivem e devem viver com contraditório, mas não devemos ser um pouco mais exigentes nas nossas escolhas?

Tenho observado que cada vez mais o critério da política é a capacidade de comunicação dos políticos. Confesso que conheço gente genial, séria, tecnicamente excelente, que jamais aguentaria 2 meses de conferências de imprensa. Ainda bem. A política não se faz com conferências de imprensa e entrevistas beligerantes para ver “se ele ou ela aguentam o embate”. Para a opinião de alguns, no entanto, faz sentido este jogo mediático. Raramente para a população em geral – o “povo”, entidade mítica que todos citamos, na sua larga maioria não vê entrevistas de políticos, as mais vistas não chegam a 10% ou 20% da população, num hiato claro entre representantes e representados, sobretudo nas gerações mais novas, que ganham 550 euros e mantêm uma relação com os governos de quase ou total descaso. É que são estas gerações mais novas, as mais desprezados. Veja-se o caso dos internos, especialistas, que foram para a linha da frente do combate à pandemia com 1200 euros de salário e, hoje, não têm qualquer garantia de carreiras médicas no SNS e terão que ir oferecer ao sector privado a sua força de trabalho, depois de aplausos. A essa pergunta, das carreiras, aliás a Ministra respondeu com um sorriso, agradável.

Guardo na minha secretária um bordado, pelas mãos de bordadeiras da Madeira que o Padre Martins me ofereceu por ocasião do seu aniversário – diz assim “Não tenho palavras, quero oferecer-vos ação”. Trocaria eu de bom agrado uma excelente comunicadora, de gestão da saúde, por uma excelente governante ao serviço do bem público, mesmo que não conseguisse enfrentar câmaras, microfones, e jornalistas. Na realidade quanto mais o país entra em decadência histórica, como nação, e falha com quem nele trabalha, mais a especialidade política é a comunicação. Nunca, em 45 anos de democracia, tivemos tantos políticos tão bem assessorados no campo da comunicação. A esta altura da vida do país o pessoal de saúde e nós, que somos o SNS, não precisamos de palavras. Mas de acções em prol do bem comum – são essas que falham. Lamento dizer que a realidade é que falham cada vez mais. E tudo indica que, sem uma reação organizada do pessoal de saúde, para lá das palavras de indignação que com razão proferem, sairemos disto com menos SNS, com mais degradação da condições de trabalho e vida dos que, há 2 meses, se mostraram dispostos a tudo, corajosos, dedicados, em nome da saúde pública.

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3 thoughts on “Marta Temido e o tempo da comunicação política

  1. Na minha opinião uma ministra (DGS) e o próprio governo do PS de Costa que ao longo do seu mandato ( e nesta epidemia em particular ) tem defendido os interesses dos privados, e, nunca na defesa e interesses dos operários, reformados pobres e de mais trabalhadores.

  2. Verdade!! Tudo verdade se bem que com algo tendencialmente de esquerda. Cada vez aprecio mais a Raquel Varela.

  3. Gosto muito da escrita da senhora como historiadora. O mesmo não poso dizer quando se mete por áreas que não conhece. Fica-lhe muito mal as contradições e dislates da sua narrativa. Apenas alguns exemplos;
    1. Diz que a ministra nunca requisitou os Hospitais privados vazios mas diz que a ministra vai entregar uma quota de cuidados de saúde do SNS, pagos por todos nós, ao sector privado – sector que é assim resgatado da falência técnica em que se encontra com o previsível aumento do desemprego e quebra de seguros de saúde privados, associados a empresas. Em que ficamos ? a ministra, como gestora de um serviço, tem que ser o mais eficaz possível e o acto que vai praticar é depura gestão.
    2. Então a senhora acha que é em plena crise de quadros para uma pandemia ,que se vai jogar a cenoura dos acréscimos salariais? Vê- se que de gestão , nomeadamente a comportamental, não é grande coisa.
    Há um tempo para tudo e aproveite para ler umas coisas de gestão
    Não leve a mal.

    .

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