Uma boa Pergunta é tudo

Uma boa pergunta é tudo. Andei anos com uma curiosidade cientifica nossa, porque há tanto suicídio no Alentejo? Como sabem esta questão já fez correr rios de tinta. Esta semana compreendi-a, finalmente. Já lá irei. Hoje a DGS anunciou que os números que apresentam estão errados desde o 25 de Abril. Faço parte dos que deixaram de olhar com muita atenção gráficos. A partir do momento em que há entre 2 a 4 mil mortes por explicar, o que triplicará o número real apresentado por Portugal, pelo menos duplicará (se não forem todos de COVID19). Daqui a 1 ano saberemos exactamente onde se morreu mais, se no Portugal confinado, se na Suécia com medidas de algum distanciamento físico. Comparações agora são todas um acto mais ou menos consciente de “comunicação política”. Porque dados reais não há para que os cientistas possam tirar quaisquer conclusões, ou formular hipóteses. Porém, a forma como são dados os números têm relevância cientifico-social, o que na comunicação política não se diz é mais interessante do que o que se diz.

Vejamos, hoje soubemos pela Ministra que “entre 25 e 30 de abril, e tendo por base uma amostra de 2.369 casos confirmados, 37% contraiu o vírus em lares, 33 na residência (coabitação), 15% em contexto laboral, 7% em contexto social e 6% em instituições ligadas à prestação de cuidados de saúde”. 15% em contexto laboral, diz a Ministra. Pelas minha contas são mais de 90% em contexto laboral. Uma de nós não sabe do que está a falar. Talvez as duas, mas ainda assim confio que conheço a sociologia do país, arrisco os meus 90%, mas acho que são mais.

Vejamos: 37% em lares são em que contexto, diversão, social? Os idosos estão confinados, proibidos de ver familiares, como apanharam o vírus? Pelos trabalhadores. Idem para os 6% das instituições de saúde. idem para a coabitação (a larga maioria continuo a trabalhar ou a viver com quem trabalha), idem para o contexto social (andar de transportes públicos para o trabalho), dado que bares não estavam abertos. Não quero aqui a semear o pânico, as notícias de testes de cadeia e imunológicos que vão saindo dão 60 a 80% de assintomáticos, para a larga maioria das pessoas esta doença não tem qualquer sintoma e o problema era, isto é cada vez mais claro, a falta de serviços de saúde robustos.

O que chamo a atenção é que trabalhar dá COVID-19. Ir ao jardim, passear, não. Ora, estivemos 1 mês a meio a ouvir megafones a pedir “fique em casa”, em vários momentos via media a aterrorizar muita gente “fique em casa”, “fique em casa”, a tirar surfistas da praia, e fechar orlas, quando toda a contaminação se deu (e dará) no trabalho.

Temos pensado muito no suicídio no trabalho, na nossa equipa do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho, há uma relação entre “burnout” e suicídio, um tabu em Portugal, mas cada vez mais público e estudado em França, por exemplo. Cada vez é mais claro que o suicídio no trabalho, por causa do trabalho, não se dá por contágio – por falarmos dele ou o noticiarmos – mas por não debatermos abertamente as condições de trabalho que levam os trabalhadores, sobretudo em profissões onde escolhas de vida existem, a este acto. A minha parte na equipa não é da psicologia, naturalmente, mas temos um método nesta equipa que tem sido para mim uma das grandes felicidades da minha vida de trabalho, trabalhamos todos juntos, em real interdisciplinaridade, debatendo cada hipótese, fonte, análise, em conjunto. Assinamos aliás tudo em conjunto, sem ordem de importância, somos um colectivo científico a pensar juntos. Por isso tenho pensado no suicídio, e sempre pensei, como cientista social da realidade portuguesa, o porquê do suicídio no Alentejo. Esta semana estava a beber um vinho branco, ouvia Nina Simone, portanto um contexto diriam os surrealistas propenso a pensar e deixar pensar (com medo ninguém pensa), passei pela sala, estava a dar a Herdade e na TV uma imagem – um enforcado num sobreiro. Olhei e tive uma epifania. É no sobreiro, que se enforcam, o sobreiro que descortiçam, a bolota que alimenta os animais, o sobreiro onde descansam, quando não há trabalho. É um “suicídio no trabalho”!, disse para a casa toda, que me olhavam estranhos, de que estaria eu a falar. Andei 20 anos a fazer a pergunta errada. A pergunta não é porque os suicídios se dão no Alentejo. É porque os suicídios se dão no campo, em contexto laboral, ou falta dele, de assalariamento, e falta de resposta colectiva organizada às más condições de trabalho. Pensei e contei ao meu marido, trabalhamos juntos, fazia sentido o que eu estava dizer? Respondeu-me “está no primeiro parágrafo do livro do Dejours sobre suicídio”, “todo o suicídio no campo, nestes campos com estas condições, são “suicídios no trabalho”. Fui a correr ler. A novidade agora é que a partir dos anos 90, no modelo just in time, os suicídios são em contexto industrial e de serviços públicos. Morria-se e morre-se no trabalho, por causa do trabalho, hoje na cidade, mais do que ontem no campo. E, claro, está lá tudo – não se morrer de suicido por falar de suicídio, mas por não falar, combater e conhecer as más praticas laborais. Quando os editores dizem que não noticiam suicídios no trabalho, não impedem mais suicídios, o que estão de facto a impedir é a notícia sobre más condições laborais estruturais de um sector.

A larga maioria não morre de COVID-19 no trabalho nem por causa do trabalho, reitero. Há fortes hipóteses de o confinamento ter sido um erro, e os assintomáticos a maioria. Talvez devêssemos ter apenas confinado e protegido lares, mais velhos, doentes e não toda a população. Certamente tínhamos que ter um SNS robusto e não, como está, descapitalizado de meios humanos. Pagámos um preço muito alto por ter feito do SNS uma sucursal do sector privado. O que não devemos, no entanto, por isso vos contei esta história, é continuar a tirar a palavra “trabalho” das nossas perguntas, porque assim ficaremos convencidos que os idosos se contaminaram por estar em lares. Quando eles se contaminaram por estar com trabalhadores de lares. Uma boa pergunta faz toda a diferença numa investigação. E sem boas perguntas seremos mais dominados pelo medo, pelos tabus, pelo invisível, não podendo assim ajudar a transformar a sociedade para o melhor, o bem comum, evitar tragédias.

5 thoughts on “Uma boa Pergunta é tudo

  1. “Jamais encontraremos as respostas correctas se não formos capazes de formular as perguntas certas.”
    — Daniel Estulin, na introdução do seu livro O Instituto Tavistock: As forças ocultas que nos controlam

  2. Tenho acompanhado de perto o seu percurso como académica e escritora , tive a oportunidade de a conhecer pessoalmente numa iniciativa organizada pela Plataforma de Cascais, onde fui um dos responsáveis pela sua presença, deve confessar foi um êxito. Se me permite gostava de elogiar publicamente o seu excelente trabalho, sem que para isso tenha tido algum beneficio económico, numa situação grave que estamos todos a passar por causa deste vírus, que nos está a matar aos poucos , e que muitos de nós não vão estar cá para contar aos netos.
    O que me espanta e a fazer alguma confusão, é, que a maioria dos académicos não escreve uma só linha sobre esta epidemia. Porque Será?!

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