O trabalho não é um privilégio

Não me revejo num Primeiro de Maio selecto, com representantes, o dia do trabalhador devia ser de todos os que lá quisessem ir, mantendo a distância física – confio e sempre confiei mais no bom senso de pessoas bem informadas do que em decisões governamentais de proibições. Não acredito numa sociedade policiada e vigiada, mas educada. Um Primeiro de Maio ao qual não podem ir a maioria dos trabalhadores não faz, por isso, sentido para mim. Mas o que tantos advogam contra a concentração de ontem não faz – coerentemente – qualquer sentido. O argumento da hipótese de contágio de Rui Rio é absurdo. Como António Costa lembrou mais de 80% das empresas estiveram abertas, os transportes públicos a funcionar e mais de 2 milhões mantiveram-se a laborar em aglomerações com mais de 10, 20, 30 e 100 pessoas!. Nunca ninguém se indignou muito com isto, mesmo quando não se parou a produção essencial, numa altura em que não se sabia a real letalidade do vírus e que havia a hipótese de esta gente estar, como esteve, sem protecção, em risco. Felizmente o vírus relevou-se menos letal. A “classe média” veio para casa gritando “fiquem em casa” a 2 milhões de pessoas que não podiam ficar em casa, eram obrigadas a trabalhar, em lugares inúteis, mas também muito úteis, como hospitais, a limpar, por exemplo, a ganhar 550 euros, a ir de autocarro para o trabalho e, quando regressavam casa, eram obrigados a confinamento… e quem sabe a um bufo de janela a dizer que estaria ali alguém a não cumprir o confinamento.

Não foi Rui Rio nem António Costa que mandaram para casa 6000 operários da Auto-Europa, foram estes que conseguiram ir para casa depois de uma ameaça de greve, em que um Sindicato, STASA, teve um papel essencial – sorte que o fizeram antes da proibição do direito à greve, proibição que também não incomodou Rui Rio. Que hoje possam estar na Auto-Europa, a laborar, muitos nas sub contratadas tenham sido despedidos, que estas empresas estejam a usar a Segurança Social para suportarem os lucros (sempre fui contra o layoff, o Estado só deve salvar o que é público e todo o dinheiro deve ser colocado em criação de emprego público), que se sucedam testemunhos de layoffs falsos, nada disto incomodou Rui Rio (nem António Costa, nem o rapaz do Chega, que não se indignou quando os trabalhadores, inclusive polícias, foram obrigados a ir trabalhar desprotegidos). Nisto tudo o que é irresponsável é ir à Alameda, com distância e cuidado?!

Ou começamos a achar que quem trabalha é responsável, capaz e confiamos que podem e sabem ser cuidadosos, ou não faz muito sentido dizer que se “está ali em nome de”. E sim, podemos e devemos ir à praia, aos jardins, às orlas, sair dos lugares de moradia, tudo com saber e educação, cívica. Manifestações, piquetes, concentrações também. O que não se pode é ter dois pesos e duas medidas – isso ninguém compreende. Eu também não.

Dito isto eu não iria a 1 de Maio onde existissem restrições. Devem existir distâncias de segurança, jamais restrições de quem pode ou não entrar. Se me dessem o privilégio de ir a um lugar onde outros podem, com bom senso ir, mas isso é-lhes vedado, eu não aceitaria ir na vez deles, ou por eles. Uma celebração colectiva de direitos onde se seleciona quem pode passar, não consigo ver qual a mensagem útil que a CGTP conseguiu passar, no meio destas crise que é também uma crise de erosão de velhas práticas sindicais, numa altura em que, como se viu aliás, grande parte dos sindicatos não consegue atrair e representar a larga maioria da população trabalhadora. Ou todos ou nenhum – é o que penso. Não o penso por razões sanitárias – não sejamos hipócritas, todos se contaminaram em Portugal em cadeiras no trabalho. Penso-o por razões políticas. Mais do que nunca é necessário explicar que o trabalho é um direito e um dever, não é um privilégio. Todos, se não são crianças, idosos e doentes, devem trabalhar e qualquer Governo deve ter por primeiro missão garantir o direito ao trabalho de toda a população. Ninguém pode ficar para trás.

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