COVID-19: perguntas sem resposta

Ontem coloquei aqui uma nota sobre um artigo (do BMJ – British Medical Journal, em baixo o link) que cita um estudo chinês em que se afirma que 80% dos COVID são assintomáticos (dos 20% restantes 80% tem ligeiros sintomas). Isso muda tudo. Muda mesmo, e o Jornal cita claro um epidemologista de Oxford afirmando que se os números são verdadeiros, se, diz ele, então o cofinamento foi e é um absurdo. Isto claro também depende e muito da resposta de cada sistema de saúde à pandemia – a questão sempre foi que resposta podem dar sistemas de saúde erodidos em 30 anos de capitalismo em declínio, vulgo neoliberalismo.

Ora eu fui a favor do confinamento, defendi-o publicamente, para impedir o SNS de colapsar mas hoje tenho dúvidas sobre tudo. Por exemplo, temos camas nas UCIs vazias, doentes de ataque cardíaco a morrer, vacinas normais por dar, e os idosos não morreram na sua maioria na UCI – mas nos lares, ou nos hospitais antes de chegar às UCIs. Algo falhou nesta estratégia de concentrar todos os meios na UCI. E – atenção – eu defendi essa estratégia, com responsabilidades cientificas e públicas, não como comentadora apenas. Não o fiz como leiga, mas como autora de um estudo sobre o SNS em que, conhecendo a força de trabalho disponível nas UCI e os ratios de meios do SNS pareceu-me que todos os meios deviam ir para aí. Defendi com colegas, no Público, esta posição, no início da pandemia, com base nos dados italianos que nos chegavam. Estes dados, sabemos hoje, são inexactos e incoerentes não porque a doença o exige na sua novidade, mas porque nunca se investiu massivamente em testes às cadeiras de contágio, e isso podia ter sido feito desde o início na China e na Europa ou EUA (reconvertendo fábricas e requisitando laboratórios). O que este artigo faz agora é isso: testar a cadeira de contágio chegando a este valor, que muda tudo, 80% são ligeiros, mas são 80% de 20%. Há outros 80% que não são ligeiros, são totalmente assintomáticos.

Hoje tenho dúvidas sobre estes dados. Muitas dúvidas: a UCI tem uma taxa de morte muito elevada, porque os ventiladores parecem fazer pouco nestes casos, ninguém porém nos dá os dados da UCI, só temos algo que começou a gerar a minha desconfiança (de cada vez que sai de lá um paciente vivo há filmes a bater palmas do pessoas de saúde, isto não é um bom indicador); a doença aguda não COVID foi desprezada, e já há quem queira deixar o SNS só para agudos e alocar aos privados, falidos, os restantes sectores. Só por ingenuidade se pode pensar que o SNS vai sair reforçado desta situação porque isso não depende da nossa consciência da sua importância, mas da acção de sindicatos e ordens profissionais, contra o Governo, a defender, em acções, o SNS. Se lerem o Expresso da semana passada, de cabo a rabo, o que vêem é o contrário – defesa de cortes nos serviços públicos e nos salários dos funcionários públicos. Portanto, ou o pessoal de saúde se organiza e luta ou podemos sair daqui com algo mais brasileiro do que alemão – um SNS para situações agudas e desprezo pela doença crónica, redução do salário dos profissionais de saúde, porque o SNS é que tabela este valor.

O argumento de que a quarentena provoca o caos económico é o que menos me convence, embora esteja muito preocupada com milhões de desempregados. Mas já estava confesso. Porque este não se deve ao vírus mas ao modo de funcionamento do capitalismo (esta crise catastrófica vinha aí, com ou sem vírus, se têm dúvidas e não querem ler Marx, o barbudo, leiam os boletins do próprio FMI de 2019, o dinheiro de 2008 estava à espera de volatilizar-se na esquina da produção real). Nunca existiu o valor emprestado ou dado aos bancos e fundos pensões. Se o confinamento foi ou fosse necessário a economia mundial podia muito bem aguentar dois meses parada, se não vivêssemos na mais abjecta concentração de riqueza nas mãos de poucos.

Mas preocupa-me algo que a melhor economia não podia impedir – o impacto supremo na saúde mental do confinamento. Aqui tudo pode acontecer de terrível porque as pessoas entraram em pânico e estiveram sós, uma combinação explosiva para doenças mentais. Preocupa-me de sobremaneira a saúde dos profissionais de saúde, depois disto. Em Nova Iorque o suicídio de uma médica responsável pelas emergências ao COVID levantou um véu que aqui ninguém quer ver, falar, pensar, “o suicido no trabalho” – mas é urgente cuidarmos de quem cuida, numa situação em que os poderes políticos não o fizeram, nem o fazem, nem o vão fazer. Linhas de apoio telefónicas não resolvem, é preciso mudar a organização do trabalho que adoece quem trabalha.

Finalmente. Tenho acompanhado críticos do confinamento que explicam que este só faz sentido antes do pico, que teria sido em Março, e acompanhado colegas meus, amigos pessoais, da área, que dizem que não, é preciso mais confinamento porque o pico ainda não foi atingido (sobre isto limito-me a ouvir, não percebo nada, mas também não os vou ofender, escuto a agradeço o tempo que nos dão a ensinar). Fico perplexa com a quantidade de insultos que um investigador André Dias recebe, sendo que ele não insulta ninguém, limita-se a duvidar de tudo. Pode estar totalmente errado? Pode. Parcialmente. Também. E de que serve, para a nossa compreensão do problema, ir aos artigos dele, que não ofendem ninguém, vomitar ódio?

Hoje acordei, sou madrugadora, antes das 7 levanto-me com entusiasmo, li as notícias, tomei um pequeno almoço nórdico, olho para o Facebook e tenho vários comentários sobre uma nota de ontem, a maioria interessantes, mas alguns a insultar-me. A minha doce mãe não me deixa, ainda hoje, dizer uma asneira à frente dela, se me escapa, porque bati com o dedo mindinho na esquina de uma porta, ela, perante a minha dor aguda, faz um discurso sobre “auto controlo da linguagem” ou “tento na língua”. Não suporto insultos, a mim ou aos outros. E vejam, o meu Facebook não é a minha casa, mas considerem que é o meu jardim. É um mural público. É um lugar onde nos encontramos para conversar. Por alguma razão as pessoas ousam escrever coisas aqui que jamais, a não ser em peixeiradas públicas, teriam coragem de dizer a alguém no jardim ou no café. Tive que tirar 2 minutos para bloquear os (e as) rudes que por aqui apareceram. Há 80 mil pessoas a seguir as minhas duas páginas, bloquear algumas dezenas que insultam dá-me algum trabalho mas tenho que o fazer, porque acima de tudo quero que este seja um lugar aprazível, de confronto de ideias – somos dezenas de milhar a querer estar aqui no jardim. A discordar, conversar, debater e queremos fazê-lo num ambiente que nos sabe bem, agradável.

O artigo.
https://www.bmj.com/content/369/bmj.m1375
Ontem li numa gorda do DN um investigador da Fundação Campalimaud a dizer algo idêntico mas não consegui abrir todo o artigo, não sei se a gorda correspondia ao conteúdo por isso não partilho.

8 thoughts on “COVID-19: perguntas sem resposta

  1. Sempre plena, realista e abrangente, parabéns, não obstante, o dito “povo”, não sabe expressar-se mas sente as coisas. De fato, tem toda a razão, a classe politica mais uma vez, não se distancia do pérfido das “máfias”, então querem lá, que o povo acredite que tem sido contado o real e a verdade; jamais, aproveitou-se um deslize, ou oportunismo chinoca, para travar o sufoco que a ganancia selvagem acerca hoje sobre o mundo; o chinoca é tão capitalista como o américa, ou tanto pior que joga ditador, então se ninguém entra nos hospitais, só há assunto sobre o COVID, como os hospitais tem encargos, se nada ou pouco mais se cuida, de fato a natureza já provou ao homem que isto assim não pode continuar.
    A uma Guerra Biológica, chamam pandemia, tem graça. Não há erro nenhum pela não procura das cadeias de contaminação; até o Japão, já tinha tido o périplo politico da eutanásia, para os custos dos Idosos,

  2. Em relação ao número ser muito maior do que o que suspeitamos…que é provavelmente verdade, isso em nada altera as limitações do nosso SNS e no elevado número de doentes que poderiam aparecer. Esse erro de cálculo terá sido semelhante em Itália e Espanha onde os colapsos foram reais. A percentagem é mais baixa, mas temos mais casos! 1% de 100 ou 0,1% de 1000 é igual (poderá ser diferente no sentido de estarmos mais próximos de uma imunidade de grupo, mas nunca numa fase inicial).
    – Em relação a vacinação a regra foi sempre vacinar. Nunca houve indicações para adiar vacinas.
    – Em relação ao possível aumento de mortos sem ser por Covid temos duas hipóteses (provavelmente as duas certas): doentes por Covid não diagnosticados (que pelos vistos podem ser muitos) e que descompassaram as suas patologias e os doentes agudos (enfartes, AVC’s…) que deixaram de ir as urgências (que se mantiveram abertas) por receio. 1 ou 2 meses não serão suficientes para notar um aumento das outras mortes (cancros não diagnosticados e afins, pois como sabemos são raríssimos os doentes que conseguem ir de uma suspeita a diagnóstico e tratamento/cirurgia em 1 mês ou 2). As urgências já estavam vazias antes do lockdown… não foram as medidas a instalar o medo. O medo veio dos exemplos de Itália e principalmente Espanha (que já era mais próximo).
    – a doença crónica não foi esquecida ou abandonada… sendo crónica (assim como é crónica a dificuldade de acesso ao SNS) os efeitos em escala significativa vão depender de como conseguirmos (ou não) compensar este mês e meio de interregno. Não é impossível recuperar, mas também não é fácil (e como tudo terá custos)
    – a “população frequentadora” dos hospitais é uma população de risco para o Covid (pela idade e pela mortalidade) com uma mortalidade de 13% (ou mais) acima dos 70 anos, que é o caso de muitos doentes foi preciso tempo para reorganizar e optimizar espaços de forma a reduzir ao mínimo o risco de contágio. Manter tudo a funcionar com salas de espera cheias para manter a vigilância apertada de doentes crónicos não seria inócua.
    – o André Dias apresenta um contraditório interessante, no entanto dizer que o ofendem e que ele não ofende ninguém… poderá ser exagerado para quem vem lendo os dois lados (atenção sou totalmente contra as ofensas! Assim como fui contra a expulsão dele de um grupo de discussão científica… acho que é importante o contraditório). Um dos problemas é ele falar com uma “certeza absoluta”… e isso é perigoso para quem acredita tomando o incerto como certo (além de algumas falhas que já foram dissecadas em vários blogs e posts).
    – uma das discussões sobre o lockdown e o seu efeito é o timing e o tipo de lockdown. O próprio André Dias afirma que um confinamento parcial já provou ser eficaz e é usado há décadas em situação de epidemia… já um confinamento geral não é usado e foi baseado apenas no exemplo chinês. Aqui o meu ponto de discórdia com o André é ele achar que o nosso lockdown é geral e eu achar que é parcial. Temos toda a indústria a funcionar, temos supermercados abertos, temos oficinas abertas, temos explorações agrícolas a funcionar, temos pessoal a fazer jogging… de geral tem muito pouco (então no Norte industrializado, muito pouco mesmo). Em relação ao timing também não será coincidência os países que tomaram a medida mais cedo aparentarem na generalidade melhores resultados do que os que tomaram a medida mais tarde.
    – também defendi e acredito que tenha funcionado o lockdown (não acredito que tenha sido a “sorte” da distribuição geográfica da doença a evitar o colapso do sistema de saúde. Temos de ter em conta (como bem sabe e defendeu) que partimos de uma posição bem mais delicada no que diz respeito a capacidade de resposta do SNS em comparação com outros sistemas de saúde, temos das populações mais envelhecidas da Europa… se tivéssemos ficado à espera para tomar medidas (como fizeram Itália, Espanha, e até os Estados Unidos) a probabilidade de correr mal seria tremenda.
    – em relação à parte econômica da questão… o lockdown tem custos altos. Não há dúvida. Mas temos fábricas (que não foram afectadas pelo lockdown) que entraram em lay-off por falta/cancelamento de encomendas. Os cafés e restaurantes já estavam vazios antes do lockdown. O turismo (ou parte significativa dele) não depende directamente de nós nem das nossas medidas… nesse aspecto o facto de termos sido “vendido” la fora como um bom exemplo pode ser uma ajuda na retoma mais rápida do turismo.
    – A Suécia, não tendo optado pelo lockdown encerrou universidades e escolas secundárias e recomendou distanciamento social… curiosamente já se vieram “queixar” dos emigrantes dos subúrbios de Estocolmo que lhes estavam a “estragar a média” por não cumprirem como os nórdicos essas recomendações… existe uma questão cultural importante (e até demográfica com agregados familiares de 3 gerações relativamente frequentes por cá e que raramente se veem por aqueles lados) que não permitem medidas iguais.
    – o SNS conseguiu dar conta do recado nesta primeira fase… os hospitais estão outra vez com alguma margem de segurança pelo que sou de acordo que se deve retomar a actividade e começar a diminuir as restrições (mantendo e/ou reforçando cuidados, nomeadamente o usa da máscara que incompreensivelmente não se recomenda de forma generalizada).
    Infelizmente não existe uma solução mágica… e todas as alternativas tem custos (sócias e económicos)… não há soluções fáceis. Acredito no entanto que optamos pela menos má… e que se houver vontade conseguiremos minorar muitos dos problemas que podem estar associados as próprias medidas.

  3. Raquel, talvez esteja a fazer alguma confusão com as palavras. Historicamente, “quarentena” refere-se apenas ao confinamento de doentes, NUNCA ao confinamento de pessoas saudáveis.
    O confinamento de pessoas saudáveis chama-se “sequestro protector”. É uma medida TEÓRICA, pois apenas foi aplicada em pequenas comunidades americanas durante a gripe de 1918. A sua utilidade em saúde pública não está demonstrada. Depois de 1918 ocorreram muitas epidemias que foram classificadas como “pandemias” e essa medida de “sequestro protector” nunca foi utilizada. A razão desse facto, suponho, resulta do progresso da medicina, que tem muitos outros métodos de proteger a população saudável sem a sequestrar. Em casos muito graves (Ébola na África ocidental, por exemplo) quando muito recorreu-se a cordões sanitários de povoações ou regiões.
    Em suma, o confinamento de pessoas saudáveis não tem qualquer suporte científico. A experiência histórica é diminuta e impossível de extrapolar com segurança. Em contrapartida, há sobeja experiência histórica de lidar com epidemias graves usando o conhecimento médico, que não foi utilizada na reacção à COVID-19. por outro lado, sendo a causa do problema aeventual falta de capacidade do sistema hospitalar, a lógica mais elementar diz-nos que, conhecendo a causa, devemos agir sobre ela, e não sobre outra coisa qualquer. Ou seja, se a causa é a possível limitação do sistema hospitalar, o remédio é reforçá-lo, e não sequestrar as pessoas saudáveis.

  4. Trata-se de uma reflexão muito interessante Ninguem, sobretudo o Governo não tem duvidas, que os Medicos e os Enfermeiros ,não deixam de ter um empenho enorme no tratamento dos pacientes Por isso o Governo trata-os mal , abusa disso, e eles acabam por emigrar não só para onde lhe pagam melhor , mas e sobretudo onde dispoem de melhores condições de trabalho Sucede que oa Saude não dá votos, e o Costa que não é tolo e governa para o Voto o Votinho na acepção dele, maltrata os profissionais da Saaude

  5. O encerramento da Unidade de Transplantes e de Cirurgia Hepato Bilio Pancreatica do Hospital Curry Cabral,que tem grangeado as melhores referencias em todo o mundo, emparceirando com os melhores centros do mundo, constitui um acto de barbaridade, privando doentes não só oncologicos do tratamento devido, como doentes a precisar dum transplante, a hipotese de ser transplantado, no caso de surgir um orgao compativel, o que não é nada facil de acontecer, há doentes que teem essa sorte ao fim de alguns anos de espera na lista
    Como está na berra a epidemia do Coronavirus, em que todos os dias as Televisoes transmitem os ultimos dados e noticias que lhe dizem respeito, o Costa quer ficar na fotografia como o dirigente que esteve à altura das circunstancias, e garantiu que nada faltaria para o tratamento dos doentes vitimas da pandemia do Covid 19 E para isso tem o desplante de sacrificar
    esta Unidade!

  6. Aproveito para apresentar um estudo interessante:
    https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/jmv.25723
    “The temporal reconstruction of the SARS‐CoV‐2 phylogeny obtained in the present study is in line with previous estimates and suggests that the epidemic originated between October and November 2019, several weeks before the first cases were described.”
    O artigo em cima demostra, mais uma vez, que o Vírus não é tão agressivo e contagioso como fizeram crer!
    Sou contra o confinamento compulsivo… e como a mídia lidou com esta “pandemia” espalhando o medo e a paranoia por tudo que é canto. Acho que os colapsos de muitos serviços de saúde foram muito localizados, e devem ser muito bem estudados! Não se pode resumir sómente a um vírus! Pois a “matemática” não é replicada no resto do país… O porquê da Lombardia, Madrid, Nova Yorque, etc…
    Outro dado importante é como a morte é relatada nesta doença. Exemplo: a Alemanha, que sempre esteve em muito abaixo nas estatísticas, fez disparar o registo de números de mortes, quando mudou a sua forma convencional de registar/avaliar a ou as causas de morte. Simplesmente deixaram de avaliar se o Vírus foi ou não decisivo para a causa de morte, para registarem tudo como causa de morte por Covid (a decisão ficou a cabo a um “Teste” algo duvidoso).
    Terminando… só conseguimos ter um forte SNS com uma forte economia! Destruindo a economia iremos destruir o SNS… e não só! Isto, claro, porque vivemos num sistema predatório, imoral…
    Cumprimentos…

    • Rui Tiago, pense um pouco no seguinte: nos grandes aglomerados urbanos, a tendência dos governos será “optimizar” os serviços mantendo todas as valências hospitalares com uma taxa de ocupação próximo da máxima, reduzindo assim as reservas para ocorrências como esta; além de que haverá certamente uma maior poporção de cuidados de saúde prestados por privados, que não cobrem todas as valências médicas. Por outro lado, pensemos em hospitais regionais, em zonas de população mais dispersa: têm que ter igualmente todas as valências, mesmo que, demograficamente, não haja em média doentes para as manter próximo da saturação. Assim, os hospitais regionais têm maior elasticidade para acomodar um surto de doença do que os hospitais das grandes zonas urbanas. Repare que, nos “picos de gripe” anuais, os problemas de entupimento surgem apenas em Lisboa, Margem Sul, por vezes no Porto. Esta diferença de “dimensão” hospitalar pode explicar porque é que nos Estados Unidos o problema foi Nova Iorque e praticamente em todo o resto do país os hospitais deram conta do recado.

      A Itália deve ter sido um caso diferente. É interessante saber que tem, por milhão de habitantes, cerca de 3/4 das camas de hospital que temos em Portugal: ponderado pela população, o nosso SNS está mais bem equipado. Por outro lado, ouvi numa entrevista o Prof Ioannidis (Stanford Univ.), epidemiologista que acompanhou localmente o início da crise italiana, referir que os problemas e a desorganização começaram quando os médicos decidiram mandar para os hospitais os doentes em fases MENOS avançadas da doença; o que, pelo que tenho visto, será talvez a causa do êxito na Alemanha: tratar desde mais cedo, ajudar as pessoas a recuperar a partir de uma situação menos grave. Ora, os médicos italianos terão feito uma boa análise da situação: começar a tratar mais cedo reduz o sofrimento, salva mais gente e ocupa as camas de hospital durante menos tempo; só que os serviços hospitalares locais não tinham capacidade para absorver todos os doentes do início do surto, nem se estabeleceu uma forma de os distribuir pelo país, nem qualquer outra reorganização que assegurasse uma melhor resposta; disse “doentes” porque a região tem muitos idosos e muitas doenças crónicas, portanto pessoas em que, uma vez infectadas pelo vírus, a evolução para estados mais graves é rápida e muito mais frequente. Ora, o governo italiano tinha estado a dormir (como todos os governos europeus) e nem hospitais de campanha mandou instalar. Algo de semelhante poderá ter-se passado em Espanha, mas não tenho elementos fidedignos sobre o que lá se passou.

    • Acrescento à minha outra nota: chamou a atenção para um ponto muito importante: o disparate de considerar que morreram “de” COVID-19 as pessoas “com” COVID-19. sabemos que uma certidão de óbito é um documento médico que tem efeitos legais, por exemplo, para os seguros (se for pandemia não pagam). Defendo, mas parece que estou a pregar no deserto, que se restaure a autonomia científica dos médicos: em consciência, deveriam escrever na certidão o que acham que foi a causa da morte. Poderia pedir-se que indicassem também as co-morbilidades. Depois, os estados podem fazer uma lei a dizer que, quando há esta ou aquela co-morbilidade se entende que foram elas as causas de morte. Assim, salvaguardava-se a autonomia científica dos médicos e tambem as prerrogativas legislativas do estado. Mas não é asim que acontece na maioria dos países.

      Donde a conclusão: devido a estes dispositivos legais, a atribuição da causa de morte é um acto administrativo; e por isso os valores reportados pelos países muito provavelemnet estão sobre-avaliados.

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