Porque nos oferecem petróleo?

Ontem quem levasse para casa um barril de petróleo pagavam-lhe para comprar – este estava à venda a um preço negativo. É como as salsichas da Ikea, digo sempre que aquilo custa 50 cêntimos mas é tão mau que em breve nos oferecem 1 euro para as comer. Muitos estão habituados a ver as crises do capitalismo como um fenómeno marcado pela inflação, mas a deflação é que é a marca da crise capitalista: deflação na produção, às vezes com inflação nos preços. Quero isto dizer que o valor real na competição da salsicha é menos 10 mas está à venda por mais 20. Tentarei explicar aqui como funciona. Peço-vos paciência. Um dos significados da palavra crise é «conjuntura ou momento perigoso, difícil ou decisivo». Por outro lado, crise aparece como «oportunidade».

O que há de perigoso, difícil ou decisivo para os que vivem do seu trabalho? Como toda a crise cíclica que ocorre no sistema capitalista desde o início do século XIX (este tipo de crise é um exclusivo do capitalismo, uma vez que as crises pré-capitalistas eram crises de escassez, de penúria, provocadas por maus anos agrícolas, guerras, etc., agora temos excesso de produção), esta manifesta-se em primeiro lugar por uma superprodução de capital. Uma expressão disso mesmo são as bolhas, mas num nível mais profundo temos, por exemplo, a quantidade física de casas produzidas muito além do necessário, com preços muito acima do razoável. Observa-se, igualmente, um aumento no custo unitário do trabalho, muito em particular nos EUA, que são o motor do sistema, e fazem que a crise seja globalizada. Olhando por outro ângulo, vemos uma deflação (queda do valor) tanto no preço da propriedade como dos bens. Ora tudo isto é, para um trabalhador, o melhor que poderia acontecer: queda dos preços.

O mesmo não é possível dizer para os bancos e a indústria (seja de bens ou de serviços) que dependem dos preços dessas propriedades para garantir os juros, dividendos ou rendas que remuneram os capitais aí investidos. Por isso, estes reagem à crise com medidas contracíclicas, que visam reverter o ciclo de queda do lucro. Os bancos centrais cortam a taxa de juro para criar liquidez, as empresas despedem ou fecham para estancar a queda do lucro (deitam laranjas fora para evitar vendê-las a um preço abaixo da taxa média de lucro, para usar a imagem de 1929, hoje já há stock de alimentos a degradar-se e ao mesmo tempo fome presente). E os governos despejam os seus helicópteros cheios de dinheiro na banca e na indústria para trocar os ativos desvalorizados por outros valorizados, ou seja, trocam as reformas, salários, empresas públicas robustas, layofs, etc, por lixo titularizado (caso da TAP, por exemplo, neste momento; ou da dívida bancária da CP). Troca-se riqueza real — salários e bens públicos, transportes e trabalhadores — por papéis desvalorizados, as dívidas bancárias destas empresas. É precisamente nesse movimento de combate à crise de valorização do capital que começa a crise de (des)valorização dos salários. É importante compreender que não se trata de uma mesma crise, não estamos todos no mesmo lugar do barco — há gente no porão, a maioria, alguns no convés e outros ao leme.

A impressão de dinheiro pelo Banco Central Europeu não quer dizer nada a não ser mais austeridade — dinheiro não faz dinheiro nem evita a queda da taxa média de lucro, deflação nos preços de produção. A impressão de dinheiro nos EUA em 2008 — quantitative easing — teve efeitos porque os EUA têm a maior produtividade do mundo, os chineses a produzir a preço de ditadura do Partido Comunista da China, e acima de tudo porque o salário médio nos EUA sofreu uma queda histórica de 25% desde 2008 e foi essa queda, o salário, o único valor real, que pagou a impressão desse dinheiro. Ou seja, a salvação do capitalismo norte-americano, e por arrasto do comércio mundial, foi feita desde o segundo semestre de 2009 com uma queda abrupta no salário, conseguida pelo aumento do desemprego.

Os ciclos económicos da produção capitalista, descritos em O Capital de Marx, que ocorriam no século XIX sensivelmente a cada dez anos e hoje a cada sete anos (estão cartografados pelo Departamento de Comércio norte-americano), têm um ciclo de vida que podemos descrever assim: período de crise, expansão, pico de acumulação, crise… A origem das crises cíclicas é a desvalorização da propriedade por aumento do capital constante (investimentos, máquinas, tecnologia, etc.) perante o capital variável (salários). No modo de produção capitalista, as crises são de superprodução de capital e não de escassez, como na Idade Média. Quando o custo do trabalho, a única origem do valor, sobe em relação ao capital constante, há uma crescente desvalorização da propriedade, cai a taxa média de lucro. É a crise. Tudo isto estava em movimento impagável antes da pandemia, a pandemia espoletou uma nova crise cíclicas, mas não a originou. Ela, a pandemia, encontrou um doente diabético, obeso, cardíaco, que é o capitalismo mundial titularizado cada vez mais em dívidas impagáveis.

A crise não afeta os trabalhadores no seu primeiro momento. Pelo contrário, há queda de preços, como houve ontem com o petróleo. Normalmente no final do ciclo, antes de se entrar em crise (ou seja, antes de se dar uma queda na taxa de lucro, deflação de preços na produção, etc., que muitas vezes se manifesta com quedas nas bolsas), há uma alta taxa de empregabilidade da mão de obra ou do custo unitário do trabalho. Nesta crise, o desemprego atingirá níveis estruturais e inéditos, mais de 25% da força de trabalho em Portugal, números reais, em 2021, o que significa que o grau de desvalorização dos capitais — e a necessidade de acionar medidas contracíclicas mais devastadoras — será desta vez muito superior. Estamos em cima de um vulcão. Estamos, do ponto de vista da produção capitalista, numa bifurcação histórica em que ou há concentração de empresas e mega falências e desemprego de massas, ou revolução do mundo do trabalho que exproprie os bancos e empresas estratégicas para a produção e uma política de pleno emprego, ou guerras de expansão concorrencial e luta imperial bélica.

Nos EUA, ao contrário do que é erradamente referido nos manuais, as taxas de desemprego de 1929 só foram revertidas quando o país entrou na guerra, em 1941. Foi a economia de guerra, ou seja, transformar desempregados em soldados, forças produtivas em fábricas de máquinas de destruição, que reverteu a crise de acumulação.A megaimpressão de dinheiro pelo Banco Central Europeu corresponde a atirar gasolina para o fogo. Se esse dinheiro não for pago, ou seja, se não encontra correspondência na produção, o prejuízo é assumido a 80% pelas populações de cada país; se for pago, é porque os cortes nos salários vão ser ainda maiores para conseguir pagar essa impressão de dinheiro. Quando os projetos social-democratas e federalistas pedem coronabonds e festejam a impressão de dinheiro pelo Banco Central Europeu, penso numa metáfora caseira. Tenho flores nas varandas que a minha mãe — engenheira genética florestal – me diz que estão mal: sol a mais, sol a menos, água a mais, água a menos, nutrientes, o certo é que elas só estão mesmo bonitas quando vou de férias e são cuidadas… por ela. Um dia destes vinguei-me, cheguei a casa e vi o hibisco resplandecente de flores e liguei-lhe: afinal «também eu sabia cuidar das flores!» Ela respondeu-me: «Está a morrer, as plantas quando estão a morrer desatam a reproduzir-se.»

Dinheiro não é valor, trabalho é valor. O nosso desafio hoje não é salvar o capitalismo, morto. É salvar-nos da sua salvação, uma guerra entre nações, numa altura em que o Médio Oriente é um anel de fogo e a guerra civil já está na Ucrânia, Síria, ou um confronto bélico China-EUA, cada vez mais provável. O monstro aproxima-se. É imperioso construir uma alternativa que não seja, como foram as do passado, como na URSS, um pesadelo ditatorial. Era sobre isso – podemos ou não construir sociedades justas, iguais e livres, que rompam o ciclo de acumulação – que devíamos estar todos juntos a pensar, dia e noite. E não a saudar os hibiscos e o seu brilho no leito de morte.

Texto adaptado do meu livro ensaio “Para onde vai Portugal?” (Bertrand).

1 thought on “Porque nos oferecem petróleo?

  1. Esta na hora de todos os democratas deste País defenderem a , semana das 35 horas para todos os trabalhadores 2 dias de descanso semanal e 25 dias úteis de férias, com manutenção do mesmo salario e ficando salvaguardo as situações mais vantajosas, revogação do código de trabalho da Tróica , mantido integramente pelos partidos, e das recentes alterações feitas , que vieram agravar o trabalho precário, aproveitado para abolição de todas as taxas moderadoras no SNS, e escola pública efetivamente gratuita em todos os graus de ensino, abolição das propinas do ensino superior publico e acesso gratuito aos transportes públicos e assistência médica….Importante a defesa militar da zona económica e intervenção activa em defesa dos nossos interesses na comissão de limites da Plataforma Continental das Nações Unidas . neste momento existem cerca de 500 mil trabalhadores no desemprego, tudo por culpa de uma politica económica capitalista preveniente da União Europeia (e não só)… tem que se fazer muito mais nas defesa dos trabalhadores – se não for feito nada ( e tendo encanta as declarações dos País ricos da UE), vamos ter o maior desemprego, pobreza e miséria de sempre, e por outro lado não podemos confiar neste governo ( e presidente), nem tão pouco nos deputados que ao longo dos anos se tem preocupado com os seus interesses e dos seus correligionários e amigos….

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