Os Tambores de Guerra já se escutam no horizonte

Hoje o Governo anunciou uma “reserva militar excepcional” para os jovens dos 18-35 anos que nas próximas décadas sejam necessários para uma “eventual necessidade de dar resposta rápida a situações novas que requeiram meios adicionais (…) destinando-se a permitir o aumento dos efetivos das Forças Armadas até aos quantitativos tidos por adequados”. Quem debateu, aprovou ou votou esta mudança estrutural e legal no país, que é apresentada como uma vulgar notícia de gestão corrente?

Há um mês ligou-me uma familiar, o que achas de tudo isto?, ainda não havia notícias de crise. Respondi-lhe: “crise de 29, revolução e guerra, vão preparar o regresso do serviço militar em breve”. Achas? Tenho a certeza. Mas tem calma, disse-lhe, a resistência vai ser massiva e mundial, o internacionalismo é o outro lado da moeda da globalização. E, na falta de consciência política, Freud vai salvar-nos, as mães dos filhos únicos ou poucos filhos não são camponesas com 10 filhos, não deixarão os filhos morrer como carne para canhão, mães de poucos filhos são bombas nucleares indestrutíveis, é a força mais perigosa da natureza. Ela riu-se, rimos juntas, muito. Hoje ligou-me, muito séria, “viste as notícias?…”

O desemprego em massa seguido de um conflito bélico em que a China e os EUA e a Alemanha e a Rússia serão os impérios principais em choque é o cenário no horizonte. Vou ser clara e pedagógica numa frase: para sair da crise de 29 o capitalismo levou-nos à II Guerra Mundial, quando as taxas de lucro voltaram ao “normal” com a economia de guerra, não foi um New Deal que acabou com a crise de 29, isso é um mito histórico, apenas reduziu o desemprego de 13 milhões para 9 milhões, foi a transformação de desempregados em soldados que permitiu o retorno às taxas de lucro pré 29. Para sair da crise de 1970 os capitalistas dos países centrais deslocalizaram para a China produção que se tornou de facto uma ameaça aos lucros americanos e alemães quando cresceu e ganhou autonomia tecnológica – tudo colapsou agora, como sabemos, o vírus é a ponta do icebergue de um sistema cuja base intrínseca é a competição, e não a cooperação. A UE, leia-se Alemanha, já veio pedir para protegerem os activos falidos de serem adquiridos pela China, que tem superavits. Não existe um capitalismo bom, suave e humanitário, regulado por oposição ao que seria um capitalismo neoliberal. O neoliberalismo não é um desconsolo do capitalismo, é uma fase histórica do capitalismo, em que a expansão de mercados com a queda da URSS e a abertura chinesa permitiu uma diminuição das guerras mortíferas, que são sempre guerras por impedir a competição inimiga. Não há uns holandeses malandros e uns portugueses heróicos, uns chineses estranhos e uns russos malévolos. Capitalismo não é uma história para crianças, não é uma questão de bons ou maus homens, mas de competição – uma potência não pode sobreviver sem destruir a outra, por isso a guerra é a política por outros meios. A “reserva especial de jovens” para as Forças Armadas, no país mais seguro do mundo, sem crime. Em que programa eleitoral do PS estava isto? Quem aprovou? Qual o papel de Marcelo Rebelo de Sousa nisto? Foi aprovado em pleno Estado de Emergência e votado por quem? Qual a legitimidade legal e Constitucional disto? Em que momento isto foi alguma vez debatido pelo povo português? Esta “reserva especial” apresenta-se como “humanitária”, para fazer face a “imprevistos”, em pleno terror da pandemia. Mas não é isso que se escuta a vir lá ao longe.

Foram 80 milhões de mortos contados em 1945. Um conflito bélico pode significar hoje, por causa das armas nucleares, extinção. Os loucos encontram-se com a história. Mas existe uma racionalidade no delírio – é a ideia de que tudo pode ser posto em causa, mesmo a vida de milhões, para salvar accionistas e seus Estados, e grande parte disto será feito em nome de salvar-nos, certamente.

Os tambores de guerra escutam-se no horizonte, rufam. Mas oiço mais forte o canto de milhões de pássaros que chilreiam “A minha pátria é a humanidade”.

6 thoughts on “Os Tambores de Guerra já se escutam no horizonte

  1. 🙏

    A sexta, 17/04/2020, 14:40, Raquel Varela escreveu:

    > Raquel Varela posted: “Hoje o Governo anunciou uma “reserva militar > excepcional” para os jovens dos 18-35 anos que nas próximas décadas sejam > necessários para uma “eventual necessidade de dar resposta rápida a > situações novas que requeiram meios adicionais (…) destinando-se a” >

  2. Curisoso como as notícias distorcem a realidade. Já existe a reserva de recrutamento (dos 18 aos 35 anos) e a reserva de disponibilidade (cidadãos que prestaram serviço militar até aos 35 anos) e já se encontra previsto na Lei do Serviço Militar (Lei n.º 174/99 de 21 de setembro) e no respetivo regulamento a forma como se podem convocar os cidadãos em caso de mobilização e convocação. O que se verificou com esta crise é que os tempos previstos para mobilizar ou convocar os cidadãos estão desadequados a cenários como este e importa retificar os tempos. Associado a isto imorta regulamentar a Lei n.º 20/95 de 13 de julho que regula a mobilização e a requisição no interesse da Defesa Nacional. É só isto. Os mecanismos já existiam o que se pretende é otimizar os processos para que as Forças Armadas possam melhor servir a sociedade, em caso de guerra ou de outra necessidade extrema tudo devidamente parametrizado no mais puro respeito pela Lei e pela Democracia. Alías como tem sido exemplar a atuação da Defesa Nacional no âmbito do combate à pandemia.

  3. O joão Rodrigues não percebeu o amago da sua Análise que infelizmente pode ser premonitoria
    Eu faço o seguinte cenário -O Japao que está sedento de desforra de ter perdidio a Guerra com o seu inimigo fIgadal -a China ,arranja um conflito nos mares da China, declara Guerra à China e os EUA são obrigados a ir em socorro do seu Aliado e tem! que declarar Guerra à China

  4. Quem debateu, aprovou ou votou esta mudança estrutural e legal no país, que é apresentada como uma vulgar notícia de gestão corrente? Pergunta imbecil ou pergunta a imbecil?
    Porque a Lei 2135, de 11 de Julho65, revogada pela Lei n.º 30/87de 7 de Julho e por sua vez pela Lei n.º 174/99, de 21/9….onde andaria esta senhora??

  5. Há um mês ligou-me uma familiar, o que achas de tudo isto?, ainda não havia notícias de crise. Respondi-lhe: “crise de 29, revolução e guerra, vão preparar o regresso do serviço militar em breve”. Achas? Tenho a certeza. Mas tem calma, disse-lhe, a resistência vai ser massiva e mundial, o internacionalismo é o outro lado da moeda da globalização. E, na falta de consciência política, Freud vai salvar-nos, as mães dos filhos únicos ou poucos filhos não são camponesas com 10 filhos, não deixarão os filhos morrer como carne para canhão, mães de poucos filhos são bombas nucleares indestrutíveis, é a força mais perigosa da natureza. Ela riu-se, rimos juntas, muito. Hoje ligou-me, muito séria, “viste as notícias?…”

    Incrível disser Dos Nossos Avôs que não são camponesas com 10 filhos????? não deixaram???? os filhos morrerem como carne para canhão?????? tanta ignorância e insensibilidade

  6. Foram cumprir o dever da Pátria quando foram chamados e foi aLuz e a mais valia económica do Nosso País, foram os Retornados que enalteceram a Pátria e a desenvolveram.

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