Bom senso

No Brasil conta-se a piada de que a vacina vai ser descoberta pelas mães que estão com os filhos em casa e já não aguentam. Ontem um amigo dizia-nos “vai ser primeiro descoberta pelos professores que são pais, estão com os filhos em casa, e a fazer ensino à distância os filhos dos outros”. O esforço dos professores nestes dias tem sido notável, frente a uma barreira quase impossível de atravessar, não há só poucos computadores ou rede, é impossível colocar 1 milhão de alunos em ensino à distância em 1 mês de adaptação e 120 mil professores – tão pouco é desejável. Não estamos em guerra. E, ao contrário o que afirmou o Ministro da Educação, esta não é a pior situação que Portugal viveu desde a Guerra (que um Ministro da educação diga isto…). A 25 de Abril havia quase 30% de analfabetos, e a maioria não passava do 4º ano, havia trabalho infantil generalizado; o professor Lindley Cintra deu formação intensiva com o método Paulo Freire a 100 brigadas de estudantes que foram para onde judas perdeu as botas ensinar a ler. Guardo uma história da Filomena Oliveira, estudante de letras, hoje coordenadora da Eter-Produção Cultural, que chegou a uma aldeia em Viseu, nessas brigadas, e em um mês ensinou a Dona Rosa a ler a carta que o filho tinha mandado de França. Chorámos todos, a Dona Rosa quando a recebeu, a Filomena a contar e eu a ouvir, 40 anos depois. O problema do ensino não é uma interrupção de período para as crianças, o bem que fez aos alunos portugueses estarem 19 meses no 25 de Abril a aprender política, acção colectiva, sentido de justiça, nenhuma escola substitui. 2 meses sem aulas, qual é o drama? Há um drama porém: para as mães. O desafio para mães e pais que trabalham estar 4 meses em casa com crianças, a que se seguem 2 de férias, são 6 meses com crianças em casa, isto não é uma aldeia nem as mães viraram domésticas, é incomportável. Crianças exigem atenção permanente. Como é incompatível colocar um corpo docente preparado para aulas presenciais a reproduzir a escola. Acho a Teleescola uma resposta excelente, que mostra a importância da RTP, de uma Televisão pública. Tenho dúvidas, dúvidas não retóricas, se o ensino não devia pura e simplesmente ter sido interrompido noutros anos. Não foi. Manter o ensino via net acarreta problemas sérios – exige aos professores um esforço brutal. Para que seja recompensado este esforço dos docentes, não podem violar o seu sentido de trabalho educativo, se não vamos ter mais burnout, mais absentismo, mais desmoralziação – tem que haver uma barreira a colocá-los a dar matérias impossíveis em distância, assegurar aulas sem condições, fazer avaliações sem critérios, porque tudo isso é injusto para quem, e são a maioria, leva o seu trabalho a sério e com brio.

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