Confinar o pensamento?

Fui a favor do confinamento. Hoje tenho dúvidas, mas na dúvida penso que ele deve ser mantido. A minha dúvida é tão séria quanto isto: estamos a confinar o país e isso é imprescindível nesta fase (até aqui acreditei que sim), ou estamos a permitir, por negligência ou por termos poucos dados, um lockout nacional de dimensões catastróficas para pequenas empresas e trabalhadores? É possível com testes de imunidade responder seriamente a isto, sem especulações, por isso porque não se começam já estes testes, baratos e fáceis?

Sou a favor do confinamento, como disse, mas tenho dúvidas, e penso que um país que não as tem não vai longe. O pensamento único é contra a ciência, e a autocensura é coisa de ditaduras, mais ou menos sofisicadas – em nome da grande Alemanha, do Partido, da unidade nacional, toda e qualquer política de confinamento do pensamento é contrária à liberdade e à ciência. Tenho-me correspondido com um biólogo e epidemologista que está contra o confinamento, com argumentos que vejo repercutidos em imprensa de referência na Alemanha ou na França, no Der Sipegel por exemplo, no Le Soir belga. Não saquem por favor do argumento Bolsonaro, o “palhaço de serviço” que tem servido de escudo a quase todos os Governos do mundo, incluindo o nosso, que depois de terem falhado em tudo, incluindo na existência de robustos serviços de saúde pública e saúde de emergência, nos presentearem como única solução contra um vírus uma medida medieval, atrasada e extrema como a quarentena e o confinamento. Vejamos, falharam em anos de desprezar investigação contra vírus (e bactérias), falharam em construir cidades saudáveis que impedissem o salto de doenças de animais para pessoas e falharam em ter serviços de saúde e planificação económica elementar. Nem todos. A Suécia mantém uma boa estrutura pública, não fez confinamento; vários países na Ásia têm uma equipa de até 5 membros, 5!, que seguem os doentes, amplamente testados, e as escolas não fecharam. Como tudo isto falhou aqui, e na maioria dos países, tivemos que nos render, e, no nosso caso, forçar o Governo a aceitar o confinamento para lutar contra uma pandemia. Bolsonaro é hoje o salvador destas pátrias porque podem sempre dizer que pior do que eles há um louco à solta, e, isso, claro é indesmentível. É um monstro. O que não faz dos nossos Governos anjos competentes, sequer generais lúcidos.

Os nossos Governos falharam ainda no mais básico, nunca o planeta produziu tanto e agora fala-se na guerra. Como? Pensei que não era preciso ser historiador para não repetir tal enormidade. No fim da guerra estava tudo destruído, agora está tudo erguido, como é comprável? Não estamos a viver uma crise económica de “falta de” mas de “excesso de”, excesso de lucro, produz-se a mais e não a menos neste planeta, em que hoje os governantes distribuem Tickets de alimentação como se vivêssemos uma praga e só tivéssemos à mão uma enxada para produzir. Não, não é uma guerra e a nossa capacidade produtiva nunca foi tão grande. Ela não é usada porque não compensa do ponto de vista do lucro dado que grande parte das empresas estão, e estavam, totalmente endividadas à banca. Depois de terem oferecido como única solução mandar para casa os trabalhadores ainda lhes explicam que eles estão desempregados porque foram para casa e ao irem para casa deram cabo da economia – eis o resumo do despudor Governativo. António Costa já o repete também, fazendo coro com o FMI, Eurogrupo etc, a culpa é de quem? De quem deixou de trabalhar?!

Não. A culpa é de quem Governa. Se folhearmos qualquer jornal no mundo nos últimos 2 anos, estava assumido por todos os que hoje culpam o vírus pela crise económica que viria aí uma gigante crise económica, com ou sem vírus, o virus espoletou, não criou. O que criou foi a gigantesca massa de capitais públicos colocados na banca sem qualquer retorno em investimento real. No meio disto tudo ainda há países como o nosso em que se despedem os trabalhadores e ao mesmo tempo se aprovam leis em que se lhes retira o direito de greve, de resistência e de participação na legislação laboral.

Bom, dito isto, os argumentos que me chegam fazem-me pensar. São eles os seguintes. O confinamento só faz sentido no início da epidemia, que terá começado muito antes de Março (diz a sequenciação do genoma); agora com ou sem ele a taxa de progressão, na verdade, de regressão, é idêntica; o pico já foi atingido; a taxa real de infectados em Portugal pode ser já de 1 milhão (estudos da Uni de Gottingen na Alemanha apontam para dados idênticos); Portugal não tem cidades grandes, por isso os serviços de saúde enfrentam melhor os casos graves. São argumentos que me fazem pensar. Como disse, na dúvida, prefiro que mantenhamos o cuidado, ainda que por excesso. Mas adoraria uma pausa no pensamento único e escutar um debate entre cientistas sérios com visões distintas sobre o tema do confinamento. Isso seria jornalismo de excelência, e por isso, democracia e educação.

Espero que os cientistas que estão contra o confinamento estejam errados, se estiverem certos o que o Governo está a fazer é um lockout nacional empresarial com proibição da greve, financiando pela Segurança Social empresas robustas, enquanto as outras, pequenas e médias, sem poupanças, serão engolidas. Ou seja, deixar que por causa da pandemia se opere uma gigante reconversão da economia, que estava já numa longa crise sistémica. Dada a gravidade desta hipótese não há sabermos sem dados fiáveis. Por isso é incompreensível que o Governo não comece já os testes de imunidade a toda a população, que são fáceis, baratos, e podem dizer-nos em que mar navegamos.

Sobre as saídas à rua: para mostrar que fazem alguma coisa os Governos e os Municípios tomam medidas musculadas, escolhem um prevaricador entre 10 mil para justificar o Estado de emergência para todos; e fecham os poucos espaços públicos que são autênticos espaços de saúde pública, refiro-me a jardins e orlas. Nisto quando os idosos permanecem apinhados em lares, e os hotéis vazios. Ontem um epidemologista australiano disse que não há qualquer razão para as pessoas não saírem, desde que mantenham 2 metros de distância; Michelle Barry, responsável de saúde nos EUA, defensora do confinamento, disse que não sobrevivem partículas no ar a não ser em procedimentos médicos complexos como entubar um doente, e disse que é uma medida de saúde pública essencial apanhar ar e sol (hoje Isaltino Morais fechou o passeio marítimo em Oeiras!, em nome de quê? de quem? que cientista o sugeriu e sustentou com argumentos esta decisão?); o responsável máximo dos epidemologistas suecos foi claro, devem sair, não há como o vírus se propagar no ar – devem manter a distância social de 2 metros.

8 thoughts on “Confinar o pensamento?

  1. Quer-me parecer que o Isaltino e o Carreiras fecharam o passeio marginal mais para mostrar serviço, para fazer crer que estão muito empenhados na “guerra”. E como deixou de ser possível o contraditório, o pensamento único ocupou todo o espaço disponível. Todos os dias os media nos bombardeiam com os números do costume, como se não houvesse mais nada. Entretanto, nos EUA, imensas toneladas de alimentos apodrecem e são destruídos e lançados no lixo, enquanto nas zonas mais pobres as pessoas recebem como único alimento umas barras de cereais e uma sandes de fiambre. É o admirável mundo novo, ainda que o pior esteja para vir.

  2. A questão persegue-me desde o início, e já lá vão quatro semanas de confinamento. Destituíram-me da capacidade de saber se estou ou não doente (neste caso específico, de poder ter a certeza de estar ou não infetado) e de agir em conformidade. Ao declarem-me ignorante (e o problema não é sê-lo ou reconhecê-lo, mas ser declarado por alguém) abrem-se as portas para ser tratado como um menor, tornando-me mais uma cabeça de gado que assim se junta à manada a ser “cuidada” pelos boiadeiros governamentais (replicados por um coro de cidadãos amedrontados, amplificados moralista e paternalisticamente pela matraca da comunicação social e obrigados à confinação espacial pelo aparelho repressivo do Estado, suas encenações e atuações de vigilância e punição).
    A coisa tem força porque é uma expropriação coletiva permitida pelo medo e pela ignorância, pelo acenar do espectro da morte (essa certeza constantemente recalcada) e por um movimento de arrasto de grande poder. E tem também força porque, na senda do individualismo instalado, ela permite atomizar e encerrar cada um na sua própria célula. Porque é que ninguém pensou em fazer circunscrições comunitárias? Em vez de encerrar cada um nas suas casas, poder-se-ia alargar a unidade ao bairro, ao quarteirão, à vizinhança de proximidade. Fazer uma resistência comunitária, prudente, atenta mas corajosa. Tal como o fazem em grupo, por exemplo o grupo de pessoas que trabalham nos hospitais e que têm de confiar uns nos outros e que são intitulados, e bem, como «indispensáveis». Mas, não seremos todos indispensáveis? Fomentar relações de confiança em vez de desconfiança. Apelar ao discernimento, à responsabilidade e entreajuda comunitária de proximidade em vez de fomentar a ideia de reclusão individual. Descentralizar e deixar vir à tona a capacidade de auto-organização das comunidades unidas por objetivos comuns e sem prescindirem de ser comunidade. Esta é a única saída para não vermos a vida bloqueada e, simultaneamente, para evitarmos ficar expostos à paralisia social generalizada. De facto, ela não é tão generalizada assim, apenas o é para a grande maioria dos que são considerados dispensáveis ou apenas indispensáveis para serem orientados e cumprirem. Estamos nos antípodas do «ousa pensar» kantiano. Para muitos, hoje, o slogan implícito é «não ouses pensar» pois para pensar «estão lá eles».
    Parece-me claro que tudo isto aponta para a insustentabilidade da expropriação do poder autárquico das pequenas comunidades e para a manutenção de um estado de subserviência em que nos temos de ver como governados e obedientes aos especialistas. E isso é um perigo maior do que qualquer vírus que ande por aí. Bem sei que quando o foco se estreita em excesso, num movimento metonímico que toma a parte pelo todo e acaba por lavar à perda da capacidade de por em perspetiva, toda a voz dissonante do coro de ventríloquos é votada ao ostracismo. E, no entanto, reitero: o que assinalei é um perigo maior do que qualquer vírus que ande por aí.

  3. Pôr em causa aquilo que temos como certo e seguro é antes de qualquer outra coisa um acto de coragem, saúdo-a por isso. A vida em sociedade não é nem deve ser imenso calculo matemático, nem há apenas uma resposta para todas as coisas, o que há são diversos interesses e objectivos com diferentes resultados. A pandemia expôs – como se ainda fosse preciso – a fragilidade do sistema económico e social em que vivemos. Não teremos sociedades evoluídas enquanto não houver planificação, o capitalismo é uma forma de darwinismo social amplamente aceite por cidadãos moralmente corrompidos. A força do sistema vigente está na produção, na verdade as pessoas trabalham para perpetuar o poder dos mais fortes, esta noção de justiça é muitas vezes a noção de justiça do proletariado e é por isso que o trabalho por si só não eleva ninguém. Estes tempos em que vivemos são alturas de reconversão, e esta reconversão irá ser sem qualquer duvida o novo normal. A vida das pessoas não está em “pause” ao contrário do que muitos pensam, está num acelerado movimento de desagregação. Oiçam com atenção o que já hoje se está a dizer ás pessoas, está a ser contada uma fábula que tem como objectivo a resignação. Não é sério nem decente exigir o que se tinha antes, porque o antes é o pouco que nos tem sido permitido ter. Não há alterações profundas sem mudanças radicais.

    • A pressão para que a produção seja retomada será crescente mas não por uma questão de viabilidade, o que está em causa é a manutenção das estruturas de poder do capitalismo.

  4. Tenho a assinalar que o Governo decidiu encerrar a Unidade de Transplantes e Cirurgia Hepato Bilio Pancreatica do Curry Cabral, para poder alocar a Unidade de Cuidados Intensivos ao Covid19. NÃO FAÇO comentarios, deixo-os para a Raquel que penso ter acesso aos medicos dessa Unidade que a esclarecerão melhor do que eu , a barbaridade que isto é

  5. Aqui no Brasil a situação atinge seu paroxismo: como ninguém da esquerda quer correr o risco de ser associado a Bolsonaro, o debate está totalmente interditado. Está proibido pensar por si próprio ou desconfiar de algo que nos dizem na TV…Obrigado pela reflexão e por nos ajudar a manter a lucidez e o pensamento crítico ativos. Fiz um artigo sobre isto, caso tenhas interesse, inspirado em algumas de vossas colocações. http://www.jubileusul.org.br/noticias/pensamento-critico-a-ultima-vitima-do-coronavirus-por-miguel-borba-sa/

  6. Penso que o “palhaço de serviço” serve de bode expiatório, não apenas a qq um destes governos ‘marionete’ mas também aqueles que, apesar de sérios, a cobardia não lhes permite libertar dos últimos constrangimentos do politicamente correcto.
    “Seria bom ouvir vozes dissonantes ao discurso único” mas quando essas vozes aparecem demarca-mo-nos de forma a garantir, acima de tudo, o consenso social-democrata.
    O que Bolsonaro diz, em fraca oratória e pouca, ou nenhuma, sensibilidade política, é EXATAMENTE o mesmo que a Raquel diz: o confinamento não nos garante, em absoluto, tratar-se da melhor estratégia; gostaríamos de assistir a um debate científico entre as várias hipóteses (e não apenas discurso único); não podemos permitir que um país, com a dimensão do Brasil por exemplo, seja completamente paralisado… com o que isso significa, num país como o Brasil por exemplo, em termos de desemprego e eventual aumento de criminalidade….

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