Ensinar sem distância

Ensino à distância: fomos colocados numa situação extrema nestes dias, e tivemos que nos adaptar. Não creio porém que devemos fazer da fraqueza força. Nada substitui as aulas presenciais. O problema não é o iPad, é o acto relacional de ensinar. Ensino à distância pode ser útil e necessário em determinados casos, e mais ou menos eficiente em determinadas idades e situações. Por exemplo aulas que damos a alunos da Universidade em Portugal e Brasil simultaneamente, aulas e seminários de um projecto global, como o que temos, desde o Brasil à Coreia do Sul, enfim, não podemos reunir-nos. Ensino à distância é como ver um filme de pessoas a passear no parque em vez de passear no parque, ou ver uma extraordinária cena de amor em vez de fazer amor. Quando não há outra solução, pode ser um recurso, mas nunca um fim em si. O debate em torno de haver ou não Ipad é só mais um debate sobre a pobreza filosófica do nosso tempo em matéria de decisões políticas, que repercutem depois no debate mediático. Pensar que podemos ter bom ensino à distãncia melhorando o suporte fisico e a velocidade da internet é desconhecer totalmente o funcionamento cognitivo e como se opera nos seres humanos o desenvolvimento das funções psíquicas superiores. A ler os velhinhos russos, pais da neuropsicologia: Vigotsky, Leontiev, Luria, ou, para uma versão para o grande público, um descendente britânico dos revolucionários russos, Oliver Sachs. Quem tenha dúvidas e seja muito apaixonado por tecnologia, faça uma ressonância magnética a uma criança a construir um cubo com Ipad e outra com mãos na madeira, real. Verá como o cérebro da segunda todo brilha a construir um cubo com as mãos, volumetria, tacto, tamanho, desconstrução, reorganização, e a do Ipad só tem uma Luzinho pequena acesa – a zona de cérebro que mobiliza o acto de carregar com o indicador no ipad. Estes tempos deitaram por água abaixo a ideologia da máquina, e fizeram-nos pensar, quer na saúde, quer na educação, que é imprescindível ter uma coisa fundamental chamada força de trabalho qualificada, bem cuidada. Enquanto desprezarmos a teoria vamos continuar a não saber como se resolvem os problemas. É preciso ler Vigotsky, desconhecido das nossas ciências da educação em Portugal, adormecidas das teorias pós-modernas do “aprender a aprender”, ao ponto de acabarem a discutir a velocidade da internet.

Advertisement

6 thoughts on “Ensinar sem distância

  1. É verdade que nada substitui a dimensão relacional e humanamente interactiva do ensino presencial, mas creio o problema é mais fundo e mais abrangente. Essa verdade só o é de facto, do ponto de vista das pessoas e sociedades positivas e progressistas, mas não o é certamente do ponto de vista dos grandes interesses corporativos. E é nesta órbita que se insere a ânsia pelos gadgets e pela velocidade na net. Aqui sim, a velocidade parece ser o alfa e o ómega que nos querem vender, sobretudo no contexto da IA, 5G, automação, etc. Por exemplo, dentro de meia dúzia de anos, no máximo, deixará de haver motoristas profissionais nos EUA e na Europa, com a expansão dos carros e camiões autónomos. Uma enorme fatia dos empregos em manufactura e serviços têm os dias contados. Logo, não interessa ao sistema uma força de trabalho generalizada com altas formações. Bastam alguns núcleos restritos altamente especializados. É ver como nos EUA, o desinvestimento na educação pública básica, média e superior tem sido brutal.O caminho que nos apontam é mesmo esse, o dos poucos que singram e o da larga maioria que é deixada para trás, enquanto nós deixarmos que assim seja.

  2. Eespero que a comunidade cientifica e académica se debreou-se mais sobre este assunto , que me parece de grande importância para uma sociedade futura e, como diz e bem;”(..) Nada substitui as aulas presenciais”! E, mais “(…)Ensino à distância pode ser útil e necessário em determinados casos, e mais ou menos eficiente em determinadas idades e situações”!

  3. Já agora e depois de ouvir o 1º ministro falar sobre o possível retomar das aulas presenciais em maio (ou perto disso) para as 22 disciplinas sujeitas a exame, eu diria o seguinte: sou professora numa escola secundária em Lisboa (António Damásio) e só nesta escola em que a maioria das turmas é do ensino secundário temos perto de 1700 alunos nas disciplinas sujeitas a exame nacional de 11º e 12º ano, distribuídos pelas disciplinas de Biologia e Geologia, Física e Química A, Geometria Descritiva A, Economia A, História B, Geografia A, MACS e Filosofia (para o 11º ano) Português, Matemática A, História A e Desenho (para o 12º ano). Com turmas numa média de 30 alunos/turma, manter a distância de segurança é impossível. E estamos a falar de adolescentes. Distância de segurança também nos intervalos? Como? Acrescentemos ainda as aulas práticas a Biologia/Geologia e a Física e Química A. O 1º ministro, face a uma pergunta que uma jornalista colocou sobre o distanciamento de segurança em sala de aula, respondeu que caberia aos agrupamentos (de escolas) providenciar nesse sentido, talvez até mesmo colocando os professores em outras escolas que pudessem estar vazias (..), provavelmente desdobrando as turmas ao longo do dia (isto, digo eu) . E, sendo assim, os professores que dão no 11º ano e no 12º ano disciplinas de exame e que, para além destas turmas, têm outros níveis de ensino, (com aulas em casa “virtuais”) como é que faziam? E em que altura do dia? Não vejo como, uma vez que “desdobrando” aulas presenciais com turmas atualmente de cerca de 30 alunos, só uma turma poderia ocupar quase um dia. Mas enfim. Isto é o desabafo de uma professora de Física e Química A (com 1 turma do 11º ano com exame nacional) e ainda mais duas turmas de profissionais. Isto e mais uma vida pessoal. Escrevi porque sou fã da Raquel Varela (costumo ver “o último que apague a luz”) e acho que é uma pessoa com um cuidado sentido de justiça, para além de possuir um excelente poder de exposição de ideias e princípios. Obrigada pelo seu tempo.

    • Há uma coisa que eu disse mal nos números de ontem e que faz alguma diferença (mas só mesmo em termos de números). São de facto nesta escola cerca de 1700 exames mas cerca de 600 alunos. Eu fiz mal a contagem e contei duas vezes o mesmo aluno. Um aluno que faça Física e química A também fará a Biologia / Geologia, por exemplo. De qualquer modo é preocupante, penso eu, as turmas têm uma média de 30 alunos, há as aulas práticas, os intervalos..
      De qualquer modo queria fazer esta correção. Obrigada.

  4. Não costumo comentar, mas hoje não resisti!
    Sou professor, um velho do Restelo, pois li (e de vez em quando volto lá) Vigotsky, Leontiev…
    Este post devia figurar na porta de entrada da sala de professores de todas as escolas (agora não vale a pena que talvez só andem por lá os homens das redes digitais). Muitos perceberiam porque sofrem tanto com as maquinetas que os consomem e que não sabem explicar.
    “Enquanto desprezarmos a teoria vamos continuar a não saber como se resolvem os problemas”.
    Obrigado, Raquel!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s