Sim, temos que falar de economia

O M. é meu amigo, toca maravilhosamente, e adora patuscadas -, tenho saudades dele, saudades de todos os amigos. Ele é dono de uma pequena empresa. Disse a todos os seus trabalhadores, no início da quarentena, “vão para casa, protegam-se, até 3 meses eu consigo aguentar, nem que seja com as minhas poupanças”. Os despedidos em layoff da FNAC – e de mais centenas de grandes empresas – estão a ser pagos com as reformas e pensões dos portugueses através da Segurança Social, que vai ser destruída com este sistema. A FNAC teve no ano passado 158 milhões de euros de lucro. Chama-se “layoff simplificado”. Portugal foi no quadro da UE o único país que limitou direitos laborais com o Estado de Emergência, e ainda criou um sistema de auxílio “simplificado” às empresas lucrativas que agora têm os salários pagos pela Segurança Social. E muitas voltarão ao mercado para engolir as pequenas que ainda sobrevivam, e contratarão os trabalhadores, agora um exército de desempregados, por 1/3 do valor. E no fim, ou talvez já no início, alguém nos baterá à porta para nos explicar que o “défice da segurança social é insustentável e temos todos que fazer sacrifícios”. Hoje tivemos uma boa notícia, os números da doença mostram capacidade do SNS enfrentá-la, estamos de parabéns, beneficiamos da extrema periferia, rodeados de mar, e do medo, que nos mandou para casa antes do Governo o ter decidido – foi correcto o isolamento social, difícil, mas necessário. Mas há quem já esteja a fazer desta crise uma oportunidade. Lucros, património, poupanças de accionistas estão seguros, e neste momento há mais de 1 milhão de trabalhadores em casa que não têm para já futuro, para além do COVID-19 . Sim, temos que falar de economia. Nada pode ser simplificado quando se trata da vida de milhões.

3 thoughts on “Sim, temos que falar de economia

  1. Tem a certeza que é a Segurança Social quem vai pagar o atual regime de lay-off simplificado? Quando esta medida do Governo foi anunciada, foi noticiado que estes lay-off de emergência seriam financiados pelo Orçamento do Estado. Talvez seja eu quem está enganado, mas penso que deveria confirmar a informação.
    Continue com o exclente trabalho que tem feito.

    • “As empresas que adiram ao sistema de ‘lay-off’ simplificado poderão reduzir os custos salariais com os seus trabalhadores, seguindo as regras gerais previstas no Código do Trabalho para as situações, sendo essa remuneração financiada em 70% pela Segurança Social e em 30% pela entidade empregadora.” obrigada

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