“Há um grande grau de adaptação”

Há quase um mês, a pandemia ainda não tinha sido declarada, liguei aos médicos e biólogos com quem trabalhamos e fiz uma pergunta elementar para quem estuda riscos laborais, e que qualquer governante da área devia ter feito há meses: “é diferente apanhar o vírus numa pequena gota ou em várias? A carga viral determina o risco de morte?”. Sim, responderam-me, é a diferença entre seres atacado por um soldado ou por um exército. Foi isso que matou vários médicos em Itália, usaram uns tubos – aerossóis – de doentes que expeliam grandes quantidades de vírus no ar. Nessa semana no debate do Último Apaga a Luz, no início de Março, depois de ter sido informada disto, defendi a urgência de proteção, medida número 1; e também a necessidade de um subsídio/seguro de risco para profissionais de saúde e famílias, sabendo de antemão que os seguros que eles têm – e que mesmo no SNS são pagos a título privado pelo salários deles, outro escândalo de longa data – não cobriam o risco. Hoje li a notícia do El País sobre os profissionais de saúde mortos em Espanha, entre 28 e 63 anos, sem patologias prévias. No El País a explicação dada é a “quantidade de carga viral”. Grande parte deles, em Espanha, médicos de família ou enfermeiros que não tinham máscaras ou proteção e examinaram doentes sem sintomas, em consultas regulares. Hoje é dia 5 de Abril. Em França Macron promete, perante protestos, carreiras nos hospitais e sentidas desculpas; Trump aumenta salários na saúde; Sánchez pede desculpas publicamente aos profissionais de saúde, garantindo compensações. Em Portugal não falta nada. E o debate central é um futuro governo de unidade nacional, e a necessidade de apoiar a Ministra e a DGS e as decisões “que vão sendo tomadas consoante dados novos”. Ou, como a Ministra insiste em referir “há um grande grau de adaptação”. De chorar, porque ninguém consegue rir.

1 thought on ““Há um grande grau de adaptação”

  1. Raquel: “Pandemia” é um gambozino em Epidemiologia! Certamente não acredita que virus e bactérias saibam geografia e contem os continentes onde já entraram…

    É um conceito que não tem qualquer utilidade na análise e descrição de epidemias, não é nenhuma grandeza ou constante que tenha papel determinante na sua evolução, como a taxa de letalidade ou o período de incubação; de facto, “pandemia” é coisa que não se consegue caracterizar nem quantificar objectivamente, é apenas uma definição cientificamente arbitrária; uma definição jurídica. A declaração de pandemia serve apenas as actividades financeiras: nos seguros, se for “força maior” (“Act of God”), por exemplo, queda de um raio, terramoto, o seguro paga os prejuízos. Mas o mesmo seguro, nas letras pequeninas, dirá que situações prolongadas ou com grande probabilidade de se prolongarem, como as pandemias, não são cobertas pela apólice!

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