“Tudo o que é sólido desfaz-se que se no ar”

“Tudo o que é sólido desfaz-se que se no ar”. Gosto muito desta frase. Ela dá-nos a noção de tempo, do passado e do futuro, da transformação. Vejamos.
Em 15 dias acabaram as ilusões nas maravilhas do tele trabalho, é um inferno que transforma a casa de cada um numa unidade produtiva e ameaça acabar com os poucos casamentos felizes que tinham sobrevivido aos terríveis horários de trabalho.
A ideia das vantagens do ensino à distãncia – além de infernal, provou-se que não é nem pode ser ensino, é à distância e por isso mesmo não ensina. Não mais do que o google. O problema não é ter ou não Ipad, é que o ensino é a escola formal, relacional.
A ideia de que a automação ia substituir trabalhadores – as máquinas estão paradas, a economia parada, porque os trabalhadores estão parados. Só o trabalho produz valor.
A ideia de que sairíamos da crise económica de 2008 como empreendedores, desenrascados – todos os empreendedores do país estão à beira da falência ou do desemprego.
A ideia de que a saúde privada é rápida e boa, e no SNS se erra muito – a saúde privada não chegou a errar, eclipsou-se e faliu, o SNS em uma semana reorganizou o sistema de saúde contra a pandemia.
A ideia de que o Estado não deve ser o empregador principal – sem o Estado como empregador principal não sobrevivemos à miséria, à fome, às doenças. No limite o Estado é hoje o quase-único empregador, sustento das empresas privadas, isto é, nós, com os nossos impostos.
A ideia de que os bancos têm que ser salvos se não há um cataclismo, o tal risco sistémico – estamos no meio de um cataclismo, os bancos estão robustos e salvos, e a humanidade está a ser salva do colapso sistémico por profissionais de saúde sem máscaras e homens da logística com salários mínimos, que podem trabalhar 40 anos e nunca vão ganhar o que aufere um banqueiro em 6 meses da sua vida, são eles que carregam as poucas máscaras que chegam aos hospitais.
A ideia de que a desigualdade é um problema dos pobres – o vírus ameaça tornar-se um drama para 2 a 3 anos por passar de países pobres para ricos quando já estiver controlado nos ricos.
A ideia de que o cão “é o meu melhor amigo” – descobriam até aos mais alienados que sem afectos, abraços, amor, vida social, esfera pública, vida coletiva, cooperação, sem o outro, são profundamente infelizes. Estamos à espera do dia em que podemos abraçar o outro. “Paulo reconhece-se em Pedro”, é esta a frase que Marx vai buscar à Bíblia para em O Capital explicar a alienação e o reconhecimento – somos seres sociais, sem isso somos coisas, mercadorias. É ele também o autor da frase que começa esta minha pequena crónica de Domingo, “Tudo o que é sólido desfaz-se que se no ar”. E só passaram 15 dias. Imaginem tudo o que a humanidade vai descobrir de si própria nos próximos meses. A história acelerou-se. Para uns, onde me incluo, foi a crónica anunciada e tantas vezes escrita. Para a vasta maioria da humanidade foi outra coisa, foi um choque de consciência em que aprenderam mais em 15 dias do que em décadas de vida, infelizmente. Que este drama sistémico ajude pelo menos a compreender tudo o que é preciso mudar, que nada pode voltar à “normalidade, porque foi a normalidade que nos trouxe até aqui”. Que nos próximos meses regresse o internacionalismo, e se enterre a praga do nacionalismo, agora que se viu que as fronteiras são um obstáculo a resolver os problemas, é neste Domingo o meu mais forte desejo.

3 thoughts on ““Tudo o que é sólido desfaz-se que se no ar”

  1. Não vou escrever mais que isto: “(…)a saúde privada não chegou a errar, eclipsou-se e faliu”! Protegem-se!

  2. Jamais a censura foi tão perfeita: o segredo generalizado (aquilo que está por detrás do espectáculo e nunca aparece); a mentira sem contestação (com a extinção da verdade não há mais como formar a opinião pública) e a perpetuação do presente (pela abolição do conhecimento histórico).
    Debord

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