O Estado falhou, mas nós não falhámos também?

O Estado falhou, mas nós não falhámos também?

Há umas semanas, em Janeiro, numa entrevista a Margarida Pinto Correia, no Canal Saúde, a propósito do nosso estudo sobre os trabalhadores do SNS, Margarida questionou-me se não era frustrante estudar as más condições de trabalho no SNS, o ratio de profissionais (que foi o centro do nosso estudo), alertar para os erros, e ver que nada é feito. Hoje recordei esta pergunta ao ler o Público. Assistir a isto é como estar na auto-estrada e avisar, 10 km antes, o nosso condutor que vai haver um acidente e ele carrega no acelerador até se estampar. Como dizia ontem um médico “Vocês acham que um ventilador é uma play station?”. Dizem os médicos hoje no Público: “Os ventiladores compram-se, o espaço físico adapta-se, mas os profissionais de saúde não se fazem em fábricas”, responde Gustavo Carona. Se os médicos especialistas em cuidados intensivos faltam, ainda escasseiam mais os enfermeiros treinados nesta área altamente diferenciada — e é necessário um enfermeiro para cada dois doentes em cuidados intensivos.” Faltam médicos e enfermeiros para tantas camas”, corrobora Taveira Gomes.

“Ter enfermeiros treinados é um grande problema e formar médicos assim de repente é impossível. O que se recomenda é que os hospitais aproveitem os profissionais com treino em medicina intensiva, como anestesistas, internistas, cardiologistas”, especifica João Gouveia, que preside à Sociedade Portuguesa de Medicina Intensiva e lidera a task force recentemente criada pela Direcção-Geral da Saúde para organizar a resposta à pandemia.
Há duas semanas, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) lançou um programa de financiamento para adquirir a parafernália de equipamentos necessários, desde ventiladores, máquinas que ajudam doentes a respirar, a monitores cardíacos, bombas e seringas infusoras. Tudo para dotar os serviços e unidades de medicina intensiva que anos de desinvestimento deixaram quase à míngua — o rácio nacional de camas de cuidados intensivos por 100 mil habitantes (6.4) é dos mais baixos da Europa.” (Público)

É por isso que hoje quem defende, por razões de apoios políticos ao Partido A ou B, contenção nas críticas, terá que pedir a outra pessoa que não a mim, a nós. Em primeiro lugar eu acho que todo e qualquer tipo de auto censura só piora os erros, sou da linha da psicanálise, quero sempre compreender qual é a responsabilidade e o erro, sem isso não há soluções. Em segundo porque sou uma das pessoas neste país, que com uma vasta equipa de investigação, avisou o condutor, vezes sem conta, com um detalhe de números que hoje é quase assustador – a nossa capacidade de previsão das insuficiências no livro sobre a força de trabalho no SNS é quase milimétrica, quem vai fazer o quê, quando e com que meios? Quem pensa que isto são auto elogios não compreendeu a dimensão da auto crítica que faço aqui. Na verdade a imensa frustração é que nós conseguimos saber, mas não conseguimos mudar. Não conseguimos transformar, e é aí que reside a imensa frustração, na impotência dos intelectuais quando a sociedade “civil” é frágil.

O que mais falha no nosso país não é o poder político ou o saber científico, é a organização social que imponha mudanças baseadas nesse saber. Temos uma sociedade “civil”, sindicatos, movimentos sociais, organizações fora do Estado frágeis ou inexistentes. Há mais gente sócia de um ginásio do que de um sindicato ou partido politico. Isso inibe-nos a acção, mesmo quando estamos cheios de razão. Não há caminho sem ideias, mas as ideias não têm pernas. Portugal tem muitos problemas, esta crise elevou-os à máxima tensão, mas o maior deles todos é que ainda não identificámos o problema central. Para mim o problema central não está na falta de saber, nem na qualidade do trabalho das pessoas, em ambos estamos melhor do que há 45 anos. O principal problema é a falta de organização social própria de quem vive do trabalho, que permite uma hiper concentração no Estado de quase toda a vida essencial e não essencial. Nisso nunca estivemos tão mal desde o 25 de Abril. Desse ponto de vista a pergunta não pode ser só onde o Estado errou e nós acertámos. Ela tem que ser onde é que nós errámos tanto que não conseguimos impedir o Estado de errar. Quando um marido bate numa mulher o Estado tem obrigação de a proteger, a sociedade de a proteger e condená-lo, inequivocamente. Todos temos obrigação de educar, e impedir estes crimes hediondos. Mas ela tem, depois de protegida, obrigação de pensar para si “como é que me casei com este idiota, o que me levou a gostar dele, o que tenho que mudar em mim?”. Penso que é esta pergunta, tão dolorosa, que hoje os portugueses têm obrigação de fazer a si próprios, como sociedade. Como nos tornámos tão impotentes, tão pouco autónomos? Como procuramos sempre no outro a razão do nosso falhanço, e chegámos aqui, estivemos em Pedrogão Grande, assistimos ao colapso de décadas dos serviços públicos – e continuamos sem nos perguntar como não impedimos isto.

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4 thoughts on “O Estado falhou, mas nós não falhámos também?

  1. Cara Raquel Varela

    Sou um seguidor atento das suas opiniões, com as quais concordo na esmagadora maioria das vezes. As suas opiniões e conclusões sempre baseadas em estudos e análise objectivas, refletem por isso friamente, quase sempre a realidade, queiramos ou não. Infelizmente no nosso país opiniões destas não são ouvidas e tão pouco os seus estudos são aproveitados para refletir sobre o assunto e melhorar o funcionamento da nossa sociedade. O argumento da falta de orçamento nem sempre justifica. Na minha opinião na maioria das opções a falta de visão estratégica, complexo político, e esta é a parte mais triste, por imposição lobista, chegamos a esta situação. Os seus estudos e conclusões sobre o SNS, de que sou utilizador, e sem razões de queixa quanto ao seu funcionamento geral, são a prova de que o interesse e o bem estar das pessoas, é quase sempre preterido face aos valores económicos. Uma vida a pagar impostos não chega para almejar, ter depois, uma compensação que assegure um final de vida com dignidade. Tenho para mim, que nesta como noutras situações da nossa sociedade global a dificuldade maior não são só as organizações mas principalmente a natureza humana e o seu umbigo. Os estados, as organizações são sempre representados/geridos por humanos, e nós seres humanos, abstemo-nos de participar nas diferentes decisões, das mais simples às mais complexas, muitas vezes por ignorância e quase sempre por falta de empenho cívico, como aliás refer num dos seus últimos post, E nós onde falhamos? Há umas semanas atrás, publicou um link, de um estudo sobre o SNS, em colaboração com o seu editor, que descarreguei e comecei a ler. Por motivo que desconheço, perdi esse livro, com muita pena minha. Agradeço a sua melhor atenção para a possibilidade de me ser enviado novamente, o que desde já agradeço. Neste tempo de confinamento, seria uma óptima forma de ajudar a passar o tempo e simultaneamente ficar a conhecer melhor aquela que foi a maior conquista, depois da liberdade, do pós 25 de Abril.

    Atentamente

    João Lopes

    No dia 03/04/2020, às 11:03, Raquel Varela escreveu:

    > >

  2. Não posso estar mais de acordo, mas não posso deixar de me manifestar contra atitude da comunicação social e da maioria dos seus jornalistas, que passam o tempo todo a elogiarem as politicas deste e de outros governos que tem ao longo dos anos colocado os trabalhadores portugueses na miséria e desconhecimento do que se passa no nosso País..

  3. Boas Raquel,

    Estive a ler as opiniões que deu nos últimos dias e posso dizer que concordo com muito do que pensa, estamos numa situação muito complicada, fui também ver as caixas de comentários e as pessoas continuam completamente divididas na dicotomia esquerda /direita, mais do mesmo, isto não vai acabar bem por vários factores, porquê. Uma das razões, óbvia, falta de solidariedade de muitos, principalmente quem tem muito, se eu fosse um dos 20 mais ricos em Portugal, dava 1% da minha fortuna e tentava fazer com que fosse um exemplo para os restantes super ricos sentissem uma crise nas suas consciências, infelizmente é muito provável que nenhum seguisse tal exemplo. Outra é a questão de nacionalizações, creio que existem empresas que nunca deveriam ter sido privatizadas, pelo conhecimento que tenho e depois temos esta questão, não temos grande indústria, pois não, não foram estes os acordos da união europeia ao princípio, onde estavam os avatares do pós 25 de Abril, destruir o nosso alimento, destruir a nossa capacidade produtiva e importar do exterior? Que raio de ideias foram logo estas ao princípio. A Europa sempre esteve dividida, só houve união entre certos elementos europeus, que participaram nestes grupos há porta fechada, bilderbergs, trilaterais, interesses poderosíssimos (alguns deles) nem europeus a dar opiniões do que deveria ser feito, lojas maçónicas a servirem uma pseudo causa, um sonho um mito de uma globalização que só existiu nas suas mentes, incapacidade e ingenuidade de uns ao serviço draconiano de outros. São os senhores disto tudo que vão capitalizar com esta crise, não é verdade, mais uma vez, depois rolam as cabeças (algumas) porque faz parte do ritual desta gente, como Madoff, sacrifício no topo da pirâmide ao estilo, império meso americano, o povo leigo aplaude aquele que pensa não pode fazer nada, porque é a divisão entre ideologias que se transforma cada vez mais num calcanhar de Aquiles. Digo divisão ideológica porque as revoluções do século XIX e XX cada vez estão mais longe e cada vez mais nos temos que preocupar, com inteligência artificial que derrotará facilmente o ser humano nas suas áreas, transhumanismo, ou melhor Eugenia porque cada vez existe mais terreno e fértil para tais ideias, e depois aparece o Covid-19, que é uma doença que os próprios cientistas têm dúvidas de como foi originada e depois temos a revista nature a dizer sim, isto veio de morcegos e maus hábitos alimentares, talvez um pangolim, foi a revista nature ou qualquer revista científica, mas que cientistas são estes, só sabem pregar academicamente aquilo que lhes é transmitido, porquê? Porque logo não têm enquanto seres humanos capacidade de auto crítica, e depois capacidade racional de avaliar dados e escrutinar a matéria, depois coragem de enfrentar se forem ridicularizados, portanto mais vale obedecer, tais como os antigos padres que só pregavam o que vinha do Vaticano. Falta uma revolução enorme nos meios científicos, como a revolução reformista de Lutero quando a Bíblia, só em latim era escrita e só uns podem pregar o que está lá, pois o resto é leigo nem sabe questionar estas bíblias científicas como a revista nature. Eu fiz uma pesquisa e logo encontrei material de um laboratório fort ditrick se não estou em erro que foi encerrado no verão do ano passado nos USA por razões óbvias, tudo o que se passava lá dentro é um perigo para a saúde pública. Os americanos produziram um vírus que pode ser transmitido através de insectos, logo pensei eu se quisessem foder os Chineses perdoem me a expressão era dar estes insectos aos morcegos ou distribuir entre os seus nichos ecológicos onde os Chineses vão em busca destes animais, com os seus hábitos alimentares é fácil, mas até os próprios chineses andaram a brincar com estes vírus no laboratório de Wuhan, certo, portanto temos o velho passa culpas e nós portugueses que não temos culpa de nada sofremos e ainda nos culpamos de como deixamos isto chegar assim, porquê? Porque nem parámos para pensar, esta crise tem personagens responsáveis, não sei se são governos mas pode inclusive ser a própria comunidade científica porque preocupa-se muita gente com armamento de destruição massiva, invade-se países, provoca-se caos ao longo dos anos mais uma vez aceitamos este caos com as nossas guerras político ideológicas, porque até certo ponto adoramos aquela parte da história onde fomos divididos entre esquerda e direita nas pós monarquias, certo? Quando temos problemas éticos morais que dizem respeito a todos, sejam eles pretos brancos, homens, mulheres, onde está a nossa união em tempos de crise aguda como esta, não está, estamos completamente perdidos, inteligentes somos mas ainda estamos afundados no medo de um fantasma do passado nos invada as nossas casas e retire o nosso direito há vida.

    Solução, não há nenhuma a não ser que nos unamos enquanto cidadãos, enquanto comunidade, coisa que não acontece de nada nesta Europa e ter um pensamento muito racional e crítico daquilo que é melhor para todos e se esta dinâmica está a ser usada para nos cegar a consciência de problemas vindouros que até Deus se assusta, acredite-se em de deidades ou não, isto mete medo, muito medo.

    “Como nos tornámos tão impotentes, tão pouco autónomos? ”

    Bem se calhar logo a começar por tudo o que ingerimos sem nos questionar, comida, vacinas etc, etc, aliada a uma educação dada neste âmbito das nações unidas que quer tudo menos cidadãos capazes, conscientes de interrogar o próprio poder gerente das nossas vidas, alienação completa numa cultura ocidental de futilidade, drogas que possivelmente queimaram alguns génios e depois sobra seres isolados como a Raquel que tem todo o mérito mas ainda tem de lidar com o quê? A dicotomia do costume esquerda/direita uma vez que também representa um lado, porque grande parte das pessoas nem sequer quer saber (factores já mencionados) se a banca ou as alfandegas são nacionalizadas ou não, desde que a vida simples do humilde melhore, venha essa política.

    “Como procuramos sempre no outro a razão do nosso falhanço, e chegámos aqui, estivemos em Pedrogão Grande, assistimos ao colapso de décadas dos serviços públicos – e continuamos sem nos perguntar como não impedimos isto.”

    Grande verdade, ainda vamos ter tribulações de passa culpas e de responsabilidades de uns coitados que não imaginavam o poder nefasto do Covid-19, movimentos inorgânicos do estilo coletes amarelos, esquerda direita extremos num só a partir tudo o que vêem pela frente e a cabeça dos coitados, responsáveis mas coitados a rolar pelas ruas.

    “continuamos sem nos perguntar como não impedimos isto.”

    Com a nossa mentalidade actual também era difícil, nisto todos ou quase todos concordamos. A Raquel Varela não tem culpa de nada e eu também não!

  4. Tem toda a razao! Triste povo que elegeu um Costa para Governar o País que se gabava de ter contas certas à custa do Turismo , que teve un surto enorme, e das cativações na Saude!
    O mesmo povo que preteriu a Dra Manuela Ferreiria Leite a favor do Socrates!

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