Abaixo de cão

Uma das grandes questões destes dias tem sido a autonomia, até onde podemos e devemos decidir, em liberdade, o que fazemos. Passo grande parte dos meus dias com “velhos”, a maioria dos meus amigos mais chegados são velhos, agora “de risco”. Duas das minhas amigas mais chegadas, uma tem 70 anos, a outra 76, a primeira é professora universitária, a segunda médica. Antes da quarentena não perdia um almoço mensal com o meu querido amigo, o psicanalista Coimbra de Matos, tem 92 anos, nem uma ida regular à Madeira para fazer a levada com o Padre Martins, tem 82 anos. Na lei aprovada no Decreto de Estado de Emergência diz todos podemos dar um passeio curto, fazer exercício, mas estas pessoas, com mais de 70 anos, não devem sair de casa para passear, a não ser para passear o cão. Isto é, elas não podem passear. O cão delas sim. Penso que todos hoje deviam ler não só a Peste, de Camus, mas o livro 1984, de George Orwell. Ser velho não é ser dependente, ignorante, desconhecedor da realidade, ser velho não é um atestado de incapacidade, menoridade mental. As pessoas devem ser informadas dos seus direitos e deveres, dos cuidados a ter, não devem vigiadas e controladas como se fossem incapazes de tomar decisões autónomas. Um país, como o nosso, não pode num dia dizer que somos cuidadosos com os velhos, e no mesmo dia tratá-los como crianças de 3 anos de idade, ou, como no caso, abaixo de cão.

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