Não aprenderam nada com 2008

As medidas anunciadas por Costa de “ajuda às famílias e empresas” linhas de crédito, com juros, inclusivé nas moratórias de crédito à habitação para famílias, tudo com juros. Não são ajudas – são um novo resgate bancário, pago com as pensões dos portugueses. A isto junta-se a redução da TSU para as empresas, que é a parte dos empresários para a Segurança Social que deixa de ser paga ou é reduzida; e o Lay off, pago pela Segurança Social (reformas e pensões dos idosos e reformados), para mandar os trabalhadores para casa, com cortes salariais. Se Costa não tivesse anunciado este pacote de medidas, supostamente para ajudar “famílias e pequenas empresas” estas empresas, todas dependentes da Banca até para viverem 15 dias, iam entrar em incumprimento com a Banca, e a Banca ia falir. Sim, vivemos num país onde as empresas não conseguem sobreviver 15 dias sem a Banca – são na verdade empresas que só existem não porque são empreendedores, mas porque vivem dependentes da Banca. Um pequeno café de aldeia mandou os trabalhadores para casa e paga-lhes o salário completo 2 meses. A Padaria Portuguesa, com dezenas de lojas, manda-os para casa em Lay-off e pede que a nossa reforma e pensão e serviços públicos lhes pague as dívidas à Banca, delapidando a Segurança Social.

As famílias não foram ajudadas – há milhares de despedimentos, e pode-se, com esta lei de Costa, fazer lay off e continuar a despedir. As pequenas empresas também não foram ajudadas, porque estas medidas só conseguem proteger as grandes. As outras não têm condições de se endividar, estão apenas à espera do fim – é isso que esta lei permite, aguardar pelo fim. O fundo das reformas dos nossos idosos – que supostamente Costa trata bem, e o Ministro holandês mal – vai para o poço, desaparecer, e a Segurança Social falir. O esquema piramidal financeiro mantém-se, salvo. Os trabalhadores ficam na miséria, as empresas despedem com o auxílio da reforma dos idosos, e as grandes aguardam, sem fazer pagamentos, com os lucros e dividendos protegidos, acumulados, para vir ao mercado daqui a uns meses comprar as pequenas empresas falidas e oferecer aos trabalhadores metade do salário. Tudo isto com o uso das reformas também de médicos, enfermeiros, polícias, bombeiros, e professores, a quem farão elogios públicos, enquanto cortam nas reformas, porque “não há dinheiro”. Não aprenderam nada, com 2008.

Estamos a assistir a um resgate bancário gigantesco. Tanta gente nas redes sociais a assediar a jornalista Sandra Felgueiras, quando na verdade o que precisamos é de 100, 200 Sandras, ou seja, jornalistas que façam perguntas em vez de ser pé de microfone, acrítico, deste abismo. Também precisamos de um par de mais alguns intelectuais críticos, em vez de gritos ufanistas e nacionalistas contra holandeses e marcianos, clamando por um governo de unidade nacional de apoio a Costa e Rio. O Holandês mal educado, que é de facto, limitou-se a dizer a verdade dentro da UE daquilo que Costa também faz aqui, dentro das nossas fronteiras. Ou seja, a União Europeia, e cada um dos seus países, é um gigante banco privado, não é uma união dos europeus. É para isso que estamos aqui, explicou ele, não é para ajudar ninguém. Costa não fez diferente, só gritou alto, “como um estadista”, enquanto a Banca se salva, as pequenas empresas afundam, e os trabalhadores são lançados na miséria, com um subsídio financiando não pelas empresas ricas, mas pela Segurança Social. Ou seja, a reforma dos pais, confinados, dos desempregados, está a ser usada pelos banqueiros, com a a provação das medidas do Governo, para “ajudar” os filhos, salvando-se a si próprio da falência. Quem são os banqueiros? É uma mistura de accionistas de grandes empresas bancos, a rigor é o único lugar no mundo onde há dinheiro para fazer face a esta quarentena que implica paragem massiva da produção. Não mexer nestes capitais da Banca é, daqui a um ano, vir cortar nos serviços públcios que agora elogiamos. É dar cabo das reformas de médicos e enfemeiros, que agora admiramos. Ocultar isto da população não é mau jornalismo, é fazer das notícias comícios de defesa de um governo de unidade nacional, é indecente. Não é o que queremos e merecemos como informação.

Hoje tenho a certeza, inabalável, que o maior mal que pode atingir uma sociedade é a ausência de contraditório, de pensamento crítico, de alternativa, podemos resistir a uma quarentena, não podemos resistir à ausência de reflexão crítica. Esta crise, sem pensamento crítico e políticas alternativas, vai reforçar a tragédia em que o país está, e não ajudar a sair dela. Era a hora de nacionalizar a banca sob controlo público e resgatar as pequenas empresas e os trabalhadores; e nas grandes empresas, usar os activos para pagar a Segurança Social e reforçá-la. Em vez disso caminhamos para mais do mesmo – qualquer manual de economia básico sabe como funcionam as linhas de crédito numa economia de PMEs como a nossa. Rio já disse que apoia Costa nesse caminho desastroso.

Podemos e devemos discordar, debater abertamente. Não podemos deixar de informar, pensar e projectar cenários realistas. É o que se espera de todos aqueles que têm presença e voz públicas. Sem contraditório não há democracia.

5 thoughts on “Não aprenderam nada com 2008

  1. Não concordo com a nacionalização da banca. Acho que o papel dos bancos neste momento não era lucrar com o infortúnio dos outros. Não faz sentido cobrar juros a uma ajuda bancária que só é necessária porque o mundo parou, e com o mundo parado não há empresa que aguente e consequentemente sociedade tal como a conhecemos.

  2. Nao aprendemos nada foi com o SARS 2003/2004, gripe das aves, nao e!? – Nem uma refrencia… Se os burgueses e nao tao burgueses que viajaram nas low cost tivessem no kit (colete, saco para enjoo…) uma mascara e um par de luvas o virus nao se espalharia com esta facilidade, e a economia e os empregos estariam mais protegidos.

  3. filipeprior@gmail.com só para informar que abdico do anonimato.
    O título que a cara Raquel escolheu obriga-me a salientar que a MAIORIA dos portugueses não APRENDEU nada desde 2008 porque continua a votar nos mesmos que impõem a todos nós,os colaboradores (explorados é um termo demodè) estas políticas (que já nem são nacionais mas impostas pelos patrões europeus).
    Como académica, sabe perfeitamente que existem pessoas e colectivos partidários que desde a primeira hora, anteviram os perigos da adesão europeia e anteciparam esta absurda concentração de riqueza sempre que há uma crise. O homem visionário chama-se Álvaro Cunhal e as suas palavras sábias merecem ser lidas nestes tempos difíceis.
    Talvez então se aprenda a votar em quem nos defenda e não em quem nos oferece excursões e almoços de “apoiantes”.
    Bom domingo.
    #ficaemcasa

  4. Nacionalizar não resolve os problemas da falta de dinheiro nem aumenta a produtividade, e apoderar-se dos activos das empresas só resolve enquanto esses activos durarem. Não há nada com a falta de dinheiro para se por em causa os valores da democracia.

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