O Sentido da Vida

Acabámos de ver a extraodinária reportagem na RTP 1, Linha da Frente, sobre uma médica que trabalha em intensivos na pandemia, seguida das intervenções das médicas Maria João Brito, e Maria Frasquilho, ambas imperdíveis. Dei por mim a perguntar aqui em casa “mas porque achamos isto extraordinário, se já conhecemos tudo isto e mais, há anos, estudamos há muito tempo a organização do trabalho no SNS, recolhemos centenas destes testemunhos, sabemos, sem antever uma pandemia, como estas pessoas são empenhadas e se dedicam, se necessário, até ao limite”. A resposta é óbvia, e tem que ser lembrada hoje. É que nós estudamos o trabalho, que privilégio!, escutamos a cada dia os que trabalham, mas a maioria das notícias esquece quem trabalha. Quem trabalha, como trabalha, o que os move, como vivem, só é notícia em situações extremas. De resto os noticiários escutam governantes, ou patrões e empresários, quem trabalha desaparece do mapa, mesmo sendo 80% da população a que vive do trabalho, vai viver do trabalho ou já trabalhou e descontou. É a esmagadora maioria da população portuguesa. Há uns anos, a seguir ao 25 de Abril, havia nos jornais uma secção Trabalho e outra Economia. Depois passou só à secção Economia, desapareceu o Trabalho. E finalmente a dita secção hoje chama-se Negócios. Há 30 anos que em Portugal não existe uma secção noticiosa sobre quem trabalha, que é aquilo que – agora creio que ninguém tem dúvidas – faz mover toda a sociedade. Isto abriu portas ao desrespeito e a um tema que estudamos muito no burnout e condições de trabalho e vida, que os filósofos e psicanalistas deram sempre grande importância, o reconhecimento. Nós reconhecemo-nos no outro. E somos por ele reconhecidos. Burnout é alienação, de si e dos outros. Reconhecimento é relação. Médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, todo o pessoal que está nos hospitais (mais de 800 vergonhosamente infectados por falta de material), hoje ninguém pode dizer que vos falta “reconhecimento social, ou reconhecimento interpares”, que quando não existe é uma das razões do burnout. No meio desta tragédia reside aqui esta esperança sólida – reconhecerem-se agora no reconhecimento que a sociedade tem por vós. Isto é o contrário da alienação (do não se reconhecer, não se sentir em si, não encontrar sentido para o trabalho, no trabalho). É o sentido da vida, é o sentido ético, é o que sempre moveu estes profissionais, mesmo quando na aparência não parecia ser assim. Hoje as três médicas disseram-no, estamos aqui para salvar vidas, e daremos tudo por isso, e hoje ninguém duvidou. Nem elas, nem nós. Por isso, confesso, vi pela primeira vez aqui uma luz ao fundo do túnel, para lá das conferências de imprensa da secção Política de Estado e dos fanáticos do Estado de Emergência. Nestas médicas estava concentrada toda a nossa força potencial, capacidade de superação, e cuidado do outro. É esse o sentido da vida.

6 thoughts on “O Sentido da Vida

  1. A RTP não têm sido muito permissiva à divulgação de reportagens de interesse publico, quando essa reportagem tem critica às políticos dos sucessivos governos… E fico por aqui…
    Protegem-se!

  2. Na sociedade do espetáculo há uma dialética entre o visível e o invisível. O olhar da sociedade é direcionado para o que é superficial, como a vida pessoal das “celebridades”, permanecendo na invisibilidade aquilo que é, de fato, significativo para a vida social, como as condições de funcionamento das instituições, que permanecem em segredo.
    Fazem falta vozes como a de Raquel Varela para combater alguns aspetos da contemporaneidade, “o segredo generalizado, a mentira sem contestação e o presente perpétuo”.
    (Debord, 2018)

    • Não posso estar mais de acordo Fala desta sociedade com os herois vacuos como referia o Antonio Barreto

  3. Faltou referir como pessoal de saude os Auxiliares de Enfermaria que teem um papel importante no serviço dos Hospitais
    Não percebo o que o Governo( o Costa) quere dizer com a fase de mitigação que está no fim

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