Nunca houve fila na Ponte 25 de Abril

Ontem não houve nenhuma fila para a ponte, a caminho da praia. O problema do medo é quando ele nos tolda a visão, e nos leva a apoiar medidas que em vez de nos protegerem, nos colocam em perigo. A PSP resolveu fazer uma fiscalização na Ponte, a cada condutor, um a um, depois do Ministro da Administração Interna, com voz de comando, ter dito que era para impedir tudo, fechar marginais, “para as praias, em força!” – o mesmo Ministro que mantém o aeroporto aberto e sem quarentena obrigatória para quem chega de fora. Repito, o aeroporto está aberto! Esta fiscalização na Ponte, sem base legal, como hoje denunciam os juristas nos jornais, decidida por hierarquias da polícia depois de verem Ministros na TV (parece que a coisa está a funcionar assim em todo o lado, as chefias intermédias cumprem ordens da TV), dizia eu, esta fiscalização fez uma fila de vários km, que, entre outras coisas, impediu vários médicos de chegarem aos hospitais – denunciado pelos mesmos publicamente.

Na margem sul moram milhares de pessoas que trabalham em Lisboa, e na margem sul há milhares de fábricas não essenciais que permanecem a laborar e com turnos ao Sábado – bem vindos ao país real. Estes trabalhadores estão há duas semanas a pedir para ficar em casa e o Governo não o permite, mantendo abertas estas fábricas. Hoje a Espanha decretou o encerramento de todas as fábricas não essenciais, com pagamento aos trabalhadores. Portugal continua a brincar a fechar às marginais e às praias, em vez de as manter abertas, fiscalizando apenas aglomerados, seria o correcto. Cada português está já transformado num polícia do seu irmão que passeia com segurança, dentro da lei, ofendendo-o, gritando, e pedras não?, enquanto as medidas essenciais do Governo não são tomadas. Ontem um surfista foi retirado de uma praia deserta na Ericeira por três polícias, levado para a esquadra – estava seguro no mar, de lá foi retirado, por outros três que andam juntos num carro, local propício a contaminação. Uma mãe em teletrabalho sai para as traseiras do prédio com os dois filhos pequenos, sem mais ninguém, e a polícia grita-lhe de megafone – “já para casa”, quem manda aqui é o Presidente da Junta; ontem uma senhora sozinha, de olhos esbugalhados passou por mim na marginal, a 2 metros, que eu cumpro, e disse-me “não vá andar, a polícia está ali”, expliquei-lhe que a polícia não me pode impedir de andar, desde que eu cumpra a distância, e segui caminho, eu conheço a lei e o bom senso, ela, ignorante da lei, teme a força bruta da “autoridade”. A Autoridade, a Polícia, que, pelo que se viu na Ponte, e por estes exemplos, não conhece nem aplica a lei, aplica o que ouve de Ministros na TV e de pessoas que pedem sangue nas redes sociais. Está assim, a este nível, a aplicação da lei e da democracia em Portugal – o Ministro grita, a polícia vai à frente e a CMTV atrás, a lei que se lixe. E mal começou a “suspensão da democracia”. Imaginem o que está para vir.

Conclusão. Um: o Governo só vai parar a produção não essencial quando tivermos milhares de mortos. Dois: muitos portugueses têm um ditador dentro da sua barriga, ao primeiro medo explicam logo, pacientes para nós ignorantes compreenderemos, que como “alguns não entendem o que é um passeio em segurança, o melhor é proibir para todos” – afinal havia um Salazar vivo dentro de muitos, na dúvida prende-se o país todo, que alguém vai pagar a factura dos contaminados nas fábricas e dos deprimidos na quarentena. Ou seja, o contágio continua, mas cria-se um ambiente de ditadura para fingir que ele não contínua.

Finalmente – concluí também – ninguém está chateado com o aeroporto aberto e o parque dos poetas fechado. É que quando eu ia ao Parque dos Poetas, antes da pandemia, só estávamos lá nós, a namorar num piquenique, o resto estava no shopping e a ver TV no sofá, pelo que não há qualquer razão para manter aberto este espaço, porque na quarentena ou fora dela os hábitos não mudam muito, a diferença é que agora é o terror, o que não é pouco, porque o lugar onde passam o fim de semana é o mesmo, o sofá. Agora esta malta que vivia entre o sofá e o shopping já pode argumentar que tem diabetes, hipertensão, e problemas cardíacos porque está a lutar pela saúde, portanto todos estão na zona de risco do COVID-19, e que o parque deve ser fechado para as dez pessoas que o frequentam durante todo o dia de Domingo não se transformem em criminosos propagadores do vírus. Entretanto claro, o aeroporto está aberto, na construção civil há 600 mil a trabalhar, sem parar, e os mesmos que estão no sofá, a cuidar para que o seus diabetes se mantenham em alta, podem ver em directo aviões inteiros chegar a Lisboa, sem fiscalização alguma, enquanto ofendem com gritos de ódio nas redes sociais os trabalhadores que foram obrigados a ir para uma fábrica de componentes automóveis fazer o turno do Sábado.

Entretanto a realidade é outra. O Governo quer manter estes sectores a laborar e usa como bode expiatório imagens que nunca existiram. A polícia como seria de esperar, já manda mais que o Governo – é o famoso Estado de Emergência. Muitos portugueses em pânico já fecharam a secção do pensamento.

Têm que rapidamente reativar o sentido critico, antes de espumar ódio nas redes sociais. Pior que uma crise pandémica e económica, era voltarmos 48 anos a pensar que há um tipo carismático, e os seus policias, a zelar por nós, pobres coitados, que, sem um polícia a intimidar-nos, não saberíamos agir correctamente.

É preciso acreditar mais nas pessoas comuns, e talvez um pedacinho menos nos responsáveis que, qual Titanic, tocam violino, enquanto o barco afunda. Se acreditarmos mais nas pessoas comuns, vai haver quem deles, saiba construir muitos botes, como se tem visto por esse país fora na construção de batas, protótipos, testes, solidariedade no alojamento, etc, pela sociedade, enquanto o Governo espera encomendas que, como explicou a DGS, fazem-se normalmente na hora (esta defesa do modelo sem Stockholm, em saúde, escapou a quase todos, mas faz parte da caderneta do incrível).

A maioria dos portugueses, incluindo os que estão nas fábricas, construção e aeroportos, querem ir para casa, cumprir a quarentena, e fazer 30 minutos de passeio para manter a sanidade mental, com distância social – isso pode ser feito em marginais abertas e jardins onde a polícia pode e deve fiscalizar se se mantém o distanciamento, só isso, e de preferência sem tiques intimidatórios – é que a polícia, até prova em contrário, se ainda vivemos em democracia, está aqui com um poder conferido por nós, ao nosso serviço, e não o inverso.

71 thoughts on “Nunca houve fila na Ponte 25 de Abril

  1. Gostaria que a Autora deste artigo justificasse então a quantidade de carros que foram apanhados com a mala do carro cheia de malas ou mesmo os que vimos na reportagem em direto que responderam que iam só à Costa passear. Ou mesmo o que também vimos carros com 4 e 5 passageiros, crianças etc… Estavam a sair do trabalho?!
    Quando se mistura política com a realidade grave dos factos dá nisto, artigos tendenciosos.

    • É um artigo, sim, mas de opinião. Uma opinião toldada pelos Marx e Lenin dentro da barriga da autora. Quando a ânsia de se destacar da multidão, pondo-se em bicos de pés, com certeza alinhada com agenda politico-partidaria, não se pode esperar outra coisa.

    • Tenta ler outra vez o texto, Miguel. A conclusão 2) encaixa como uma luva.
      – Dois: muitos portugueses têm um ditador dentro da sua barriga, ao primeiro medo explicam logo, pacientes para nós ignorantes compreenderemos, que como “alguns não entendem o que é um passeio em segurança, o melhor é proibir para todos”

    • Bem observado. De facto, há que ter em conta que a autora tem Marx na cabeça, que lhe tolda o raciocínio bem como o sentido de justiça, que caso o tivesse, respeitaria a verdade: Ponte SALAZAR!

  2. Estimada,
    Uma de cal e outra de areia.
    Isto é uma parte do que assusta tanto as pessoas, deslocações desnecessárias.

  3. A mania que se é mais inteligente que os outros, dá nestes textos, que apenas focam o seu umbigo, as empresas que fala e fabricas não essencias, não são essenciais para quem? Para quem lá trabalha é essencial, o seu salário e o assegurar do seu posto, assim como a sobrevivência da empresa.
    Fique mas é casa e deixe-se de chico espertices

  4. Eu saio de casa todos os dias para passear não tenho essa mentalidade de ditadura militar, falou na construção de automóveis pois eu trabalhava na auto Europa fui (despedido não dispensado) pois me foi dito que iria ter o meu vencimento completo hehe nem metade agora imaginem se eu não sair de casa para passear o esqueleto e fazer exercício, a policia não tem formação humana são robôs programados para fazer o que lhes mandam…não tenho medo do covid mas sim do futuro de quem de mim depende.

    • desculpe mas são a esses ” policia não tem formação humana são robôs programados para fazer o que lhes mandam…” a quem recorre quando esta aflito
      São se esqueça que como voçe infelizmente ha muita gente assim. eu tenho dois em casa e de tres ordenados apenas resta o meu e se agora fossemos todos passear o esqueleto….Eu tenho uma pessoa de familia infelizmente infectada, esta bem mas infectada e lhe garanto que os tais passeios exercicios deixam de ter assim tanta importancia quando atinge os nossos
      Peço respeito por todos e POR FAVOR FIQUEM EM CASA obrigado

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s