Maria Manuel Mota, uma homenagem aos cientistas do mundo

Maria Manuela Mota, cientista, criou num tempo record um teste que não depende do estrangeiro. A OMS, com o exemplo da Coreia, tem dito que esta é uma forma de impedir a propagação do vírus – testes em massa, aos sintomáticos e aos assintomáticos, e com muito menos impacto económico. Em Itália uma pequena vila fez isto e é o único caso de sucesso – chama-se Vo’ Euganeo, todos foram testados e com isso impediu-se a propagação da doença, mesmo no epicentro do furacão, no norte. Para todos nós esta resposta do sistema cientifico é uma lição extraordinária. Que nos ensina o valor do estudo e de esforço individual da cientista, mas, quero ressaltar, de todo uma equipa, de centenas de cientistas que, com ela, desenvolveram estes testes.

O teste que criou esta equipa ensina-nos muito sobre a grandeza destes cientistas, mas também sobre os erros estratégicos que foram cometidos por quem Governa (os cientistas não governam, não, não somos todos culpados por igual). A única coisa que podemos fazer agora é conhecer estes erros, e ter um poder político que não os repita. Maria Manuela Mota foi notícia duas vezes. Quando ganhou o Prémio Pessoa, em 2013, por ter desenvolvido investigação contra a malária, uma doença de pobres. Outros, com o seu estudo e dedicação, alguns físicos e matemáticos, foram, por exemplo, para empresas financeiras prever oscilações na bolsa de valores. Portanto, a outra lição é que nem tudo o que fazemos tem igual importância para a sociedade. A terceira lição, é que um país não pode ter como estratégia económica fazer hotéis, ter baixos salários e exportar produtos sem valor, deixando na precariedade centenas de cientistas, bolseiros sem contrato, que hoje trabalham com M. M. Mota, muitos dos quais daqui a 1 ano ou 2, a manter-se este rumo, não terão emprego. É que a segunda vez que Maria Manuela Mota foi notícia, em 2018, foi porque não tinha passado nos concursos FCT, a que os cientistas estão obrigados, porque não há carreiras, e só tinha salário até ao final desse ano. Um país sem cientistas não tem futuro.

Quando digo cientistas, se ela me permite, digo-os todos. Não só os que com ela trabalham, mas também as centenas que foram convidados a emigrar, que hoje são mão de obra essencial, que nos falta, para se poder passar de 600 testes a milhares. Saliento aqui também aqueles que se dedicaram a áreas pouco valorizadas pelos sistemas científicos nacionais, e que hoje se relevarem essenciais: a matemática e a física teóricas, que nos ajudam a prever a epidemia – e que são a base de toda a tecnologia, inclusive dos ventiladores – conheço alguns, doutorados nestas áreas, desempregados em Portugal, a trabalhar como professores contratados no ensino secundário; os geógrafos que previram que o crescimento desmedido de cidades ia por-nos em contacto com animais, aumentando o risco de pandemias – conheço dezenas desempregados; os epidemologistas que alertaram para a necessidade de parar as viagens de avião, há 3 meses; os que estudam a organização do trabalho na saúde, que chamaram a atenção para as poucas camas, poucos ventiladores, ausência de carreiras, necessidade de respeitar a democracia interna nos hospitais, que hoje foi vital para a reorganização destes; os economistas críticos que recordaram que é preciso stokcs de matérias essenciais de produtos vitais, em cada país, e que sabiam que a União Europeia era apenas um mercado, sem solidariedade interna, que à primeira crise ia deixar para trás os mais pobres, serventuários de uma eterna dívida; os filósofos, que pensam a organização social; os historiadores, que nos recordam que com pandemias muito mais graves, não houve crises económicas, e que esta, a crise económica, é evitável, mesmo na pior pandemia, se se apostar na produção cooperativa e colectiva; os sociólogos, que nos recordam que há 1 milhão de idosos, muitos ao abandono em lares privados porque não há um sistema público de cuidado dos mais velhos e os filhos não têm tempo e sequer dinheiro para cuidar deles; os músicos que cantam a esperança, e os actores que encenam outros mundos possíveis – talvez aqui esteja hoje a ciência que mais precisamos, depois dos testes em massa e dos ventiladores, precisamos com urgência dos que podem inventar outro mundo, que ainda não existe, tal como os testes não existiam.

E, claro, não vou esquecer-me de quem transporta gasolina, descarrega alimentos, limpa hospitais, faz comida, pesca e semeia, está na caixa do supermercado ou na carrinha da distribuição, neste dias. E, por fim, mas em primeiro lugar, os médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, e todos os seus professores – desde a escola primária. Enfim, podemos, nesta homenagem a uma mulher brilhante, deixar aqui o nosso profundo agradecimento a todos os que trabalham no mundo. Os que estão a construir botes para salvar o país, enquanto o Governo toca violino e vê o barco, que construiu, ir ao fundo. Essa é a razão porque creio que temos razão para não entrar em pânico – nunca escondi que não apoio este e os anteriores Governos e agora ficou claro que a estratégia que tinham para o país nos levou ao abismo. Mas também ficámos a saber, pela acção do mundo do trabalho, intelectual e manual, que o potencial construtivo da nossa sociedade permanece superior ao potencial destrutivo. É preciso nestas horas terríveis confiar mais em quem trabalha, produz, estuda, e age, e que cria até o que não existia, num palco, num laboratório, é esse o sentido da vida. O valor de quem vive do trabalho é o que nos deve mover, agora que as bolsas perdem todo o seu valor.

5 thoughts on “Maria Manuel Mota, uma homenagem aos cientistas do mundo

  1. “A sociedade do espectáculo ampliou a alienação inerente ao capitalismo.”
    “A partir do momento em que o trabalhador só é proprietário da sua força de trabalho, isto é, da sua capacidade de trabalhar, o uso dessa força pertence ao capitalista que paga por ela. O produto do trabalho não pertence ao trabalhador e aparece para ele como uma realidade separada”.
    In: A Sociedade do Espectáculo”
    SEM A MUDANÇA DESTE PARADIGMA POUCO, OU MESMO NADA, HAVERÁ A FAZER.

  2. Obrigada por se lembrar e referir os Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica (TSDT). Agradeço em nome de todos, pois sendo uma das peças fulcrais do SNS são sempre esquecidos. Sem eles não há diagnóstico. Somos equipas multidisciplinares, trabalhamos em equipa e todos somos essenciais neste combate. E fiquem em casa que eu lá estarei por vocês!

  3. “há 1 milhão de idosos, muitos ao abandono em lares privados porque não há um sistema público de cuidado dos mais velhos e os filhos não têm tempo e sequer dinheiro para cuidar deles” – permito-me salientar este aspecto, embora por razões de ordem pessoal e não científicas. Há vinte anos atrás (já!) tive que colocar os meus pais em lares e conheci muito bem essa realidade. Tristemente, escandalosamente, 20 anos depois a resposta do Estado ainda não surgiu e ainda é comum eu ser olhada de lado (ou pior) quando digo que os filhos não têm de ter obrigações sociais perante os pais. Podem/devem ter obrigação moral, afeciva, sentimental, mas não social. Os pais trabalharam, pagaram impostos, é ao Estado que compete apoiá-los.

  4. Está aqui a prova de que estes Ego’s hiperactivos (alpha-females) também se espalham muito rapidamente.
    Minha amiga, a Maria Mota não criou nenhum teste. É directora do iMM onde se fez a montagem dum teste que utiliza uma técnica de rotina usada dezenas de vezes por dia num instituto científico. Qualquer estudante de medicina do 1º ano aprende a fazer um teste semelhante. Nada de genial! Grandeza? A Maria Mota não pegou numa unica pipeta para fazer o teste, nem pôs os pés no laboratório. Não exageremos.
    Claro que ser cientista tem um valor pouco reconhecido pela nossa sociedade e que a personificação da/do cientista na Maria Mota ajuda a que se reconheça esse valor. E a Maria Mota é sem dúvida uma (das) excelentes cientistas que trabalham em Portugal. Mas não exagere, ou ainda acabamos por propô-la para ser canonizada ao lado da Irmã Lucia, ou pô-la num retrato ao lado do camarada dos bigodes.

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