Matemática e sociologia do COVID

Matemática e sociologia do COVID

Nenhum número fala sozinho. Tentarei explicar sucintamente. Os números não são para já assustadores, mas não sabemos o que se esconde atrás deles, mas sabemos em que país navegamos. Não devemos ser optimistas. Devemos assumir que sabemos que não sabemos.

O número de testes em Portugal é irrisório. A doença tem um período de incubação silenciosa, e os doentes críticos não chegam no imediato aos cuidados intensivos. Esta progressão leva dias a aparecer, o que está em baixo e que é o único padrão que nos pode dar reais direcções é a medida real de infectados – esta é de todo, por agora, desconhecida. Não só pelos que não têm sintomas, esse é um problema comum a todos os países, mas pela ausência de testes, Portugal é dos países que testa menos, contra as recomendações da OMS. Podemos ser o caso exemplar na Europa, ou podemos ser o tsunami catastrófico que se está a formar ao largo, na costa. Eu pertenço aos que acham que a segunda hipótese é mais plausível. E, sobretudo, havendo dúvidas, como há, pertenço aos que acham que por precaução se deve encerrar o aeroporto, fábricas e empresas não essenciais.

Também o defendo porque a população trabalhadora manual, que não pode ficar em casa, é em média muito mais doente aqui do que noutros países, isto é, tem mais factores de risco, como diabetes e hipertensão, graças aos salários baixos, que levam à má alimentação e sobretudo turnos desregrados ou jornada dupla. Espero enganar-me, espero muito estar totalmente errada. Não existe um COVID chinês e um COVID português, mas existe uma sociologia laboral, populacional e económica que é distinta consoante os países – os factores de risco em Portugal são em média muito altos, não só, como noutros países, entre os mais velhos, pela idade, mas nos mais novos, pelas doenças acumuladas aos longo de anos de maus salários e maus horários de trabalho.

Se estivermos a achatar a curva – e tenho pouca fé que estejamos – não resolvemos o problema, empurramo-lo, e aumentamos, essa é a vantagem, a capacidade de resposta do SNS. Resolver era porém outra proposta, é a nossa, a la Macau ou Dinamarca ou a la Coreia do Sul. Fechar as empresas e fábricas e aeroporto ou, caso da Coreia, testes em massa.

Para os que insistem em não compreender que jardins e passeios ao ar livre não fazem mal oiçam o Dr. Daniel Sampaio que disse que até os idosos devem dar curtos passeios. Hoje ligou-me um amigo, intensivista suíço, quando lhe contei que as pessoas têm medo de ir andar no jardim ele respondeu “ridículo!” e a seguir disse-me “tive dúvidas sobre a tua defesa do direito à greve, hoje acho que estavas correcta, ontem em Itália houve uma greve de 24 horas que obrigou as grandes indústrias não necessárias a fechar portas, até uma fábrica de garrafas de coca cola queria manter-se aberta – e foram os trabalhadores, com greve, que obrigaram o Governo italiano, de joelhos face a essas empresas (estou citá-lo) a ceder; a greve não é na saúde nem noutros sectores, foi nestes e foi a única forma de fazer estas indústrias cederem”.

1 thought on “Matemática e sociologia do COVID

  1. Pegando no repto da Raquel sobre o que sabemos ou não sabemos, começo por constatar que há países onde o impacto do virus foi muito leve, como a Alemanha ou o Japão, e outros onde foi desastroso com a Itália e a Espanha, sem que os especialistas avancem com qualquer explicação plausível.
    Por outro lado, vemos igualmente que os gurus do neoliberalismo, defensores da redução do papel do Estado na saúde e alienação dos seus activos em benefício de privados, essa gente estava totalmente enganada e a enganar outros. Tanto Boris J. como Adrew Como, mayor de N.Y, que ainda há pouco ridicularizavam as medidas socializantes de Corbyn e de Sanders, foram obrigados a avançar com medidas no extremo oposto à divinizada ditadura dos mercados. Assim, vemos que o virus veio contribuir poderosamente para esmagar e desmontar essa verve ideológica tão perniciosa. É um efeito colateral que temos de agradecer ao bichinho.

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