Sair do manicómio: “Foi a normalidade que nos trouxe até aqui”

Calma. Vamos sair disto, a humanidade já passou por situações muito mais graves e com menos meios. Não pensem porém que vamos sair disto com ataques de pânico, ilusões delirantes e muito menos com, cito uma pichagem que corre o mundo, “regressar à normalidade, porque foi a normalidade que nos trouxe até aqui”.

Muitas pessoas perderam a racionalidade, estão a sobre-viver, sem vida, isto é sem reflexão e razão, estão reféns do medo; foram durante décadas expropriadas de pensar a vida em sociedade e repousaram no Estado – que agora lhes falhou totalmente – a resolução de tudo; em cima disto, há uma pandemia e são as próprias instituições de saúde que se contradizem nas indicações elementares. Por isso, no meio do pânico, andam à procura de um pai providencial, neste caso de uma mãe ou de uma bruxa, ambas as ilusões fazem parte do mesmo quadro mental – o salvador e o culpado de tudo. Sugerem que eu seja candidata a Presidente da República, de um lado, ou “cortam relações comigo, desiludidas”, dizem-se enganadas. Ou seja, não sabem, mas fazem parte, neste momento, dos utentes de um gigante manicómio. Peço-vos que não se sintam ofendidos, porque todos temos uma dose de medo. Mas todos temos obrigação de o enfrentar, esta é a hora de mudarmos e não só de esperarmos que a sociedade mude, é hora de cresceremos, a sério.

Vou escrever sobre cada um destes pontos – os erros que as pessoas estão a cometer contra si e o Governo contra a saúde pública – tentando esclarecer a imensa confusão que por aqui vai, até com luvas e máscaras. E lembrem-se – para terem vontade de ler o que vou escrever, saiam 5 minutos da loucura embalada no medo, recordem-se de duas coisas. Eu sou algo incomum neste nosso país, mais ou menos interessante, outros que não eu devem julgar, mas em Portugal quase não existe esta figura, a do intelectual público, muito menos na versão mulher e jovem, não ligada aos partidos que gerem o aparelho de Estado, porque grande parte dos nossos quadros teóricos que pensam Portugal e a sociedade vêm do 25 de Abril, são homens, de um partido que gere o Estado, e têm entre 60 a 70 anos, isso causa natural estranheza em quem me lê. Eu sou uma intelectual pública, ou seja, de má ou boa qualidade a minha profissão não é ser candidata de nada, é, em primeiro lugar, a crítica do Estado e do Poder. Não sou candidata a coisa nenhuma a não ser a pensar e escrever sobre a sociedade portuguesa para a ajudar a transformar, para melhor. O que significa pensar muitas coisas com as quais muitos de vós não concordam, outras que se revelam equivocadas, em que erro, e outras análises e projecções que se revelam certas. Nesse balanço, do que publico, deve ser feita a vossa avaliação – não vos posso desiludir porque eu não sou vossa esposa, nem mãe. A minha função chama-se pensar criticamente a sociedade, ajudar a mudá-la, nada mais devem esperar de mim.

A segunda é que não sou uma pessoa irresponsável que anda a incentivar festas em grupo. Fui uma das primeiras pessoas neste país a defender a quarentena, em vários media, e o fecho das escolas, contra o Governo, se se recordam. E continuo a dar uma batalha de ideias diária para que o Governo introduza medidas de contenção do contágio que se recusa a introduzir. Sou a única presença pública neste momento a defender no país o fecho das fábricas não essenciais como medida para parar o contágio, do aeroporto e dos transportes públicos, com segurança nos salários, claro. Porque sei que um vírus e a parar as fábricas não causa uma crise económica (sobre isto – tão surpreendente, dirão vocês, escreverei um artigo mais tarde). Dediquei estes dias a explicar que a incúria do Governo se transformou na maior fonte de contágio – não proteger os profissionais de saúde coloca-os em risco, como carne para canhão, como tantos têm denunciado, e faz dos hospitais centros de contágio em massa. A ilusão de que passear na orla nos contagia a todos resulta de um engano: a ideia de que muitos policias na rua nos protegem, ao mesmo tempo que mantemos activas as fontes de contágio essenciais, fábricas, serviços de saúde, lares.

Contágio. Do que sabem os cientistas o virus não anda no ar, na rua, ele é transmitido por perdigotos, que se fixam onde tocamos com a mãos, ou por aerossóis – neste caso não é ar de rua, é por exemplo, o ar expelido por tubos de oxigénio nos hospitais, isso são aerossóis. Daí que os estivadores de Barcelona estejam a doar as suas viseiras aos anestesistas da cidade. Como virus respiratório que é devíamos todos usar máscara, como em Macau, mas o Governo fez da impreparação elogio e insiste em que não se deve. Bom, agora as máscaras que há devem ir para os profissionais de saúde e outros essenciais, eu doei o meu pacote a uma médica. Se não há, o Governo não deve mentir dizendo não usem, deve dizer a verdade – é preciso usar mas como há poucas devem ir para quem nos está a salvar e exposto a uma carga viral muito mais perigosa. Não é hora de mentir ou fazer das fraquezas falsas forças. Na falta delas – na falta de produzimos quase tudo o que necessário, é isto que estes governantes fizerem em anos – deve então responder-se aos apelos dos médicos e todos aqueles que possam devem doar as máscaras e viseiras aos hospitais que tratam doentes COVID. Porque o nosso grau de risco quando vamos a um supermercado é um milésimo a menos de um anestesista que está a salvar vidas.

Isto faz com que sair à rua em espaços abertos não seja perigoso – e é legal, não está proibido. Perigoso é ir ao supermercado. Mais, ninguém faz ideia da epidemia de doenças mentais, já estudadas por psicólogos, que aí vem por quarentena, ausência de afetos, ausência de contacto físico e social. Abdicámos dele pela saúde pública e fizemos bem, então temos que tomar todas as medidas para tonar esse isolamento o menos penoso possível. Sair em jardins, orlas e pinhais para exercício fisico é importante para pelo menos reduzir os danos psicológicos. As Câmaras devem reabrir estes espaços, em vez de empurrar as pessoas para os passeios estreitos. É legal, o Estado de Emergência não é Estado de Sítio. E não, 4 polícias não podem e não devem abordar uma senhora sozinha, basta um polícia, conversar e indicar o que fazer. Porque quem tem armas tem obrigação de ter mil vezes mais controlo e menos pânico.

Na Itália está em cima da mesa uma greve geral, e em França um debate cerrado, porque os trabalhadores de grandes fábricas querem parar e estes Governos, mantendo o caminho do desastre que nos trouxe aqui, o lucro acima da saúde pública, não quiseram parar em janeiro a produção, nem querem parar agora.

Não tenho muita fé em mim para resolver nada, não sou sequer candidata de mim própria. Mas tenho muitas esperanças em nós, juntos. Passámos epidemias muito piores no século XX, uma família com uma padaria na aldeia tem algum dinheiro de lado para viver um mês e a padaria portuguesa com milhões de facturação não tem? Há dinheiro. É preciso saber onde ele está. Nas bancos. Voltarei ao tema.

Deixem-me voltar ao início – o maior ensinamento desta crise é que não devem esperar de ninguém que seja um líder providencial. Ou uma líder. E fizeram muito mal em esperar de Marcelo isso, ou ainda o esperarem de Costa, ambos sempre incentivaram essa ilusão no homem carismático que tudo resolve porque faz parte da perpetuação de um poder dominado por políticos profissionais, cujas decisões não obedecem ao bem público, e essa é aliás a origem da crise económica que vivemos. Cito portanto Kennedy e Karl Marx, em jeito de piada final juntei-os hoje, perguntem hoje o que podem fazer pela sociedade, colectivamente organizem-se. O Dom Sebastião não chegará. E se chegar fujam, é o meu conselho – é ele a fonte de não termos soluções quando chegam os problemas.

Olhem para o exemplo dos milhares de médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, pessoal administrativo que reconverteram em poucos dias hospitais inteiros, enquanto a DGS dizia, vistam luvas, não vistam luvas, ponham máscara, tirem máscara, não há máscara, está a chegar a máscara. Só há uma salvação agora: a organização colectiva de quem trabalha e sabe o que faz, perante a desorganização do Estado, perdido no meio de uma crise que ele próprio engendrou ao incentivar a anarquia competitiva da produção – vejam, até têm que ir “ao mercado” para comprar algo tão elementar como máscaras e desinfectante.

Só uma última questão: onde é que fica esse tal mercado? A falida padaria portuguesa e o falido jornal Observador, que agora querem dinheiro do Estado, não podem lá ir também e dizer-nos onde fica?

5 thoughts on “Sair do manicómio: “Foi a normalidade que nos trouxe até aqui”

  1. Alargando um pouco o âmbito do debate, gostaria de ir mais longe que a Raquel para denunciar vivamente o ponto aonde está a chegar a mais absoluta loucura e paranóia das elites que nos (des)governam. No preciso momento em que a Europa e outras zonas do mundo se debatem desesperadamente para conter a pandemia, eis que os líderes mais esclarecidos do Ocidente agendam duas iniciativas da maior importância. Refiro-me, por um lado, aos jogos de guerra lançados pela NATO no nordeste da Europa, envolvendo muitos milhares de soldados e veículos militares, e por outro, à monumental feira de material de guerra a ocorrer em Otawa a 27-8 de Maio e anunciada como “North America’s largest Trilateral Defense Event” que espera a vinda de 12.ooo visitantes de 55 países.
    Realmente, não há melhor exemplo da total subversão de valores e de fuga às realidades que estes dois eventos intimamente interligados. Urge fazer entender àquelas mentes brilhantes que o que o mundo mais precisa não é de mais armas ou de armas que matem mais e melhor, mas antes de programas bem coordenados para mitigar os terríveis efeitos do virus e da recessão a ele associada.
    De facto, o sistema tomou o freio nos dentes e parte à desfilada rumo ao abismo.
    Vamos simplesmente assistir sentados no sofá…?????

  2. Pingback: Sair do manicómio: “Foi a normalidade que nos trouxe até aqui” | profjoseoliveira

  3. O seu artigo como sempre é explicativo e de grande interesse publico e, tendo em conta que é uma figura publica e, muitos de nós confiamos no que escreve, o que não acontece com a maioria dos comentadores que se “passeiam” nas televisões e rádios, vou, invocar uma frase do livro de Alberto Camus (Prémio Nobel de 1957) “A Peste” :”Os justos não podem receá-la, mas os maus têm razão para tremer”!
    Obrigado

  4. Infelizmente na ainda presente evolução humana quem tem o armamento é q dita as leis e o resto é conversa para ingénuos ! Se a sociedade implodir (espero q não!) são os militares q decidem pois são a única organização humana q funciona no caos por motivos óbvios… Basta ir á história para verificar-se tal e portanto a ida a feiras militares não é assim tão inocente salvo para os ingénuos q são a maioria dos humanos q fazem a presente humanidade…!!! Como diz 1 provérbio: Os 2 maiores inimigos da Humanidade são o medo e a ingenuidade….. Embora legítimos o problema é se paralisam a desejável acção….

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