Quem causa o pânico social e como retornar à calma?

“A Senhora crítica mas não tem propostas”. O vídeo onde fiz um conjunto de propostas concretas num comentário no Último Apaga a Luz, há 15 dias, teve quase 1 milhão de visualizações. O que propus então é exatamente o que proponho agora, nada disso foi feito e sem isso não se vai impedir uma tragédia na saúde pública, no SNS, e uma calamidade económica e social. Volto a escrever quais são, concretas. Mas antes deixem-me dizer algo – a voz firme de um PR a dizer “não falta nada” é a origem do pânico. Porque sabemos, no nosso inconsciente, que isso não é verdade e por isso perdemos a confiança, que é o único mecanismo anti pânico que temos numa crise destas. Poder confiar. Não podemos, porque o Governo não faz nada do que deve fazer.

Sobre as nossas críticas. Estou há 20 anos a fazer propostas, com dezenas de colegas na academia. Sobre o SNS publicámos, que eu saiba, o maior estudo sobre o tema; fizemos propostas, estudos e milhares de conferências sobre a organização da sociedade, os idosos e a segurança social, o SNS, a economia, a dívida pública – são 30 livros publicados, temos mais de 100 artigos indexados nestas áreas, e 14 projectos nacionais! Mais de 300 conferências públicas sobre estes temas. Estão a brincar connosco? O que é que vocês, que apoiaram o Governo, este e os outros governos, fizeram, de propostas para o país estes dias e estes anos todos? Quem quer ouvir elogios ao Governo faça o favor de deixar este mural, aqui só vão ouvir críticas, enquanto este rumo calamitoso se mantiver. Criticas duras, de quem estuda colectivamente os assuntos, e avisou vezes sem conta que isto ia correr muito mal. Todos os nossos piores prognósticos se concretizaram. Não é um vírus, é um vírus no meio da incompetência e do funcionalismo que mantém os mais medíocres à frente da coisa pública. “Ah e tal… mas isso lança o pânico” Não, amigos, o que lança o pânico é um Governo só fazer discursos e não agir corretamente, o pânico é o Governo nos manter no meio de uma linha de fogo e dizer “deixem-se estar aí descansados, confiem em mim”.

As críticas não alimentam o pânico, ajudam a sair da linha de fogo. Tenho 40 anos, não estou interessada em discursos às 8 da noite nem em pensamento mágico de uma população aterrorizada, mas em ações dos responsáveis políticos, é preciso uma direcção política para o país, que não temos. Falta material, falta requisitar hospitais privados e laboratórios, falta acabar com o voluntariado a la Marcelo e colocar as fábricas a produzir todo o material necessário para os profissionais de saúde; faltam testes aos profissionais de saúde e aos seus contactos, e em massa como diz a OMS; falta rotatividade de equipas para não caírem de exaustão, importem médicos de Cuba se necessário!, falta apoiar o sector de abastecimento, em vez de promover despedimentos; falta não ter medo de fechar fábricas não essenciais e call centres, e transportes públicos e aeroportos, como sugere a China aos italianos, e parar de se esconder atrás da “responsabilidade individual de lavar as mãos” (devem claro lavá-las), ou condenar quem dá um passeio a 2 no jardim mas mantém-se o aeroporto aberto; falta dar uma mão a quem foi despedido dizendo que nenhuma empresa que despediu, precários ou fixos, podem receber apoios, retroativamente ao início da pandemia, se despediram antes; falta renacionalizar a PT, Altice e ter a Saúde 24 a funcionar, falta pôr as megas empresas a pagar impostos ou nacionalizá-las em vez de inventar linhas de crédito para endividar ainda mais as famílias e pequenas empresas e engordar os bancos. Falta tudo. É o contrário do que disse Costa, falta tudo. Aqui não faltarão nem críticas nem propostas concretas. Submissão a um Governo incompetente, uma oposição inexistente e um PR que foi de quarentena, depois de andar aos abraços, tenham paciência, mas aqui não vão ter. Porque essa falsa sensação de paz é a verdadeira origem do pânico social.

Contem comigo e connosco para ajudar, não dormiremos a pensar todos os problemas e em busca de soluções, juntaremos forças tentando perceber como reorganizar a sociedade, é para isso que servimos como cientistas sociais, não contem para fazermos parte de uma farsa. Não vai correr tudo bem, a menos que, no mínimo, se iniciem já estas medidas que acima, e nos últimos dias, tenho exposto, reiteradamente.

9 thoughts on “Quem causa o pânico social e como retornar à calma?

  1. Propostas? Que propostas? A sua finalidade é dizer sempre mal de tudo e de todos, exceto apoiar greves, quaisquer que sejam, mesmo em tempos perigosos para o povo. Os seus trabalhos têm todo mérito académico, mas são de diagnóstico e são soluções inexequíveis na prática mesmo a longo tempo. São considerações teóricas baseadas em dados estatísticos que, apesar de tudo têm mérito. Todavia, as suas propostas, se as houvesse com possibilidade de concretizar, decerto seriam de âmbito marxista. Isto é, nacionalizar, estatizar, destruir, reconstruir com uma base populista. Reconstruir a partir da terra queimada com uma revolução feita segundo a sua ideologia que ainda não vislumbrei qual seja, exceto a sua admiração pelo marxismo? Quem trabalha para o Estado e tem o seu salário garantido pode achar tudo o que quiser sem correr riscos. É tão bom falar quando se tem segurança e não estamos metidos no barulho, não é?
    Diz que no “Apaga a Luz” , há 15 dias, teve quase 1 milhão de visualizações, mas quem lhe diz que foi por sua causa e por aquilo que diz serem as suas soluções? Presunção e água benta não lhe faltam…
    Neste momento deve estar, como eu, a escrever os seus artigos em sítio seguro, e é tão bom falar em sítio seguro onde nada nos possa atingir! Talvez gostasse, com certeza, de ser convidada para deputada ou para uma qualquer pasta ministerial dentro da sua área, qualquer que fosse, de um qualquer partido que estivesse no governo e ainda não foi, e isso dói-lhe.
    Diz mal de todos os governos, sejam quais forem, mas então qual o tipo de governo e com que base ideológica tornasse, na prática, viável as tuas ditas propostas e soluções? É isso que nos falta saber!
    Desejo-lhe boa sorte para as suas teses… revolucionárias a aplicar em tempo de grave crise para o povo como eu já disse anteriormente.
    Também estou a pensar deixar o portal, mas ainda vou decidir. Por vezes até parece útil ler os seus artigos, ficasse com uma visão mais nítida do que é o radicalismo de esquerda, eu que até não sou de direita…

      • Pedro Santos, a opinião do Manuel AR não precisa de argumentos, é apenas e tão só uma opinião. Com a qual concordo.

    • Caro Manuel AR, esquece-se que este PS é de direita? O seu discurso é o de narcisista típico (lançar-se à personalidade e não à conduta, aos argumentos), nada consentâneo com uma postura que se exige de dissonância cognitiva. O Governo pode e deve ser escrutinado. E, com base naquilo que tem sido a sua actuação, também acho que Raquel Varela está a ser muito mansa. Este Governo navega sob o método “à vista” e não é isso que se lhe exige, mas de uma navegação com bússola e com azimutes muito bem definidos que, decididamente, não faz.

      • Quando matar o mensageiro

        Hoje resolvi recuperar um comentário que escrevi a um artigo de opinião de Raquel Varela para analisar uma crítica que um leitor do referido artigo me fez e que achei interessante sem pretender com isso levantar polémica.
        Em 24 de março do corrente fiz um comentário a um artigo da Profª Raquel Varela que pode ver aqui. Foi uma crítica ao artigo e, consequentemente, à atitude da autora relativamente a algumas posições auto abonatórias da sua pessoa que, do meu ponto de vista, continha pinceladas de egocentrismo e autopromoção que me pareceram um pouco desajustado ao tema do artigo.
        Pois bem, em relação à crítica que fiz ao conteúdo do texto da autora foi colocado um comentário à minha crítica que dizia o seguinte: Na falta de argumentos ataca-se o mensageiro, dejá vu!
        Não reagi a este comentário na altura no local próprio, apesar de alguém ter reagido no meu lugar em meu favor. Todavia, achei-o, interessante. Hoje penso que tal comentário não merece uma crítica, mas sim uma opinião sobre mensageiros e mensagens. O tema pareceu-me ser interessante porque nas redes sociais há cometários colocados por radicais ineptos que por lá “transitam” atacando, quando não trucidando, quem coloca mensagens que, quando não lhes agradam agridem os mensageiros com palavras ofensivas de verdadeiro bullyng, estes sim, por falta de argumentos.
        A origem da morte dos mensageiros que levavam mensagens com más notícias são antigas. Cerca do século IV antes de Cristo o rei da Pérsia Dario III quando foi derrotado por Alexandre o Grande, tivera sido antes avisado por Charidemos, um seu conselheiro para a guerra, de que poderia vir a cometer vários erros de estratégia de guerra e informou o rei do possível fracasso de suas estratégias. Dario III teria mandado matá-lo por lhe trazer más notícias e ter-lhe transmitido a verdade honestamente por isso mesmo tornou-se incómodo.
        No século XIII, também Gengis Khan conquistou um enorme império e tinha um serviço de correio montado em que os mensageiros oficiais podiam percorrer até 200 quilómetros por dia. Ficou célebre a sua sistemática reação quando os mensageiros lhe traziam más notícias: a morte imediata dos mesmos.
        Ora bem, face à crítica que me foi feita ao comentário que escrevi sobre o artigo de Raquel Varela parece-me que, eu, ao ser redator da mensagem crítica à atitude da autora enquanto comentadora de política, e simultaneamente o mensageiro, então, segundo o autor que me fez a crítica, eu, como mensageiro, também deveria ser “morto” por quem recebeu mal a minha crítica.
        Como se percebe não se tratou dum mensageiro da mensagem de raquel Varela, porque o mensageiro foi ela mesmo, a autora da mensagem. Talvez daí a confusão do meu crítico que não se apercebeu que ambos, mensageiros e mensagem se confundem, são a mesma pessoa. Não estou a matar o mensageiro, a Raquel Varela, mas sim a contestar a sua mensagem.
        Por outro lado, é consensual que um autor, quando escreve a criticar ou sustentar uma realidade está pessoalmente envolvido na mensagem porque está também a espelhar-se através do que escreve ficando, por isso, sujeito a críticas de quem acompanhe os seus pontos de vista.
        Ao escrever uma mensagem com opiniões que, para o referido adepto do artigo de Raquel Varela foram supostamente más, matei a mensageira que também redigiu a mensagem. A autora da mensagem é também a mensageira, são unas. Está a aqui a simultaneidade que o autor do comentário não pensou. Fui eu que redigi a mensagem de que ele não gostou, consequentemente também sou o mensageiro e, por isso, também deveria ser morto, em sentido figurado claro está. Ele também matou o mensageiro porque não gostou da mensagem.

  2. Sim senhor, se não precisa de argumentos então está ao nível do chamado bitaite. É legitimo mas irrelevante.

  3. Pingback: Linques para Memória Futura – Insustentável Leveza 2

  4. Cada um fala da perspectiva do seu burgo, eu cá acho que temos défice de vistas amplas e análises comparativas. O Governo não está sob escrutínio, está sob fogo cerrado, aleatório, incessante. Não é só a Raquel Varela que critica o Governo – e falo só da gestão da pandemia – a todo o instante, é toda uma imensa parafernália de comentadores, jornalistas, bastonários, “especialistas”, etc, etc, se o Governo adoptasse cada medida com base nas opiniões e críticas que navegam ao sabor dos (mais e menos legítimo) orgãos de comunicação social, por esta altura já tínhamos um cenário pós-apocalíptico, essa sim a verdadeira terra queimada
    Logo na primeira frase apontei as análises comparativas. A coordenação e gestão dos acontecimentos, por parte deste Governo, não é isenta de erros e falhas? Não. Naturalmente. Mas, qual foi o Governo, a nível mundial, que teve uma actuação brilhante, perfeita, imaculada? Nenhum político – ou qualquer cidadão – desta geração passou por uma situação deste género, a falta de experiência leva a erros que todos cometem. Duvido que o mais fanático dos marxistas fizesse melhor do que tem sido feito.
    Ao António Costa quase que é imputada a morte de cada cidadão, e por cada morte exigem-lhe que lá estivesse pessoalmente para a evitar. Nunca há máscaras, camas, ventiladores que cheguem. Se são suficientes? Caramba, deviam ser muito mais. “Vergonha, sr. Primeiro-Ministro!”

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