A voz firme dos incompetentes

Há aqui quem considere que esta Ministra – e seu gabinete face à pandemia – estão a atravessar uma situação muito difícil e merecem todo o apoio. Eu estou entre os que acham que nós estamos a atravessar uma situação muito difícil e com esta Ministra e este Gabinete não temos solução alguma. Eles são parte do problema, não da solução. Quem pensa o contrário face às evidências, está preocupado em salvar o Governo, não o país. Puseram-nos em risco. Falharam. E este meu artigo não é sobre como falharam em 40 anos, em 10 anos, e em 3 meses. Mas como estão a falhar hoje, e como vão falhar amanhã.

Em Espanha o Governo teve pelo menos a humildade de criar um Gabinete de crise para analisar os erros que cometeu, criou-o de emergência para evitar novos erros. Não é hora de defender o Partido e o Governo, mas de assumir erros que, sem correcção, nos levarão ao abismo. Aqui os erros multiplicam-se a cada dia. Veja-se este exemplo: há milhares de portugueses convencidos que o Estado de Emergência decretou a quarentena e o encerramento de estabelecimentos não essenciais. Isto é falso. Pelo contrário. Há milhares de fábricas, que são cadeias de contágio, a laborar, inclusivé o aeroporto e transportes públicos. Todos os aeroportos deviam ter sido encerrados a não ser para emergências e abastecimentos.

Não se queixem das pessoas que, duas a duas, andam na praia e nos jardins (sim, a incompetência é tal que fecharam os jardins, ao ar livre!). O problema destas pessoas não é quando vão ao jardim passear. É que saem de manhã para ir para a fábrica onde estão mais 100, vão de comboio, chegam à fábrica para produzir peças sem qualquer utilidade para a sociedade neste momento, e a seguir ainda têm que levar comida aos avós, que estão sozinhos, para os quais o Governo não previu uma cadeia de abastecimento própria e cuidados. E depois têm que regressar ao seu apartamento de 40 metros quadrados sem sol, onde cumprem a quarentena. E fazem-no, com disciplina. É isto que se está a passar. O passeio ao ar livre na Póvoa e o descanso na praia são – tudo indica – os lugares mais seguros neste Estado de Emergência.

É que se tiverem o azar de ficar doentes vão para um hospital onde escasseiam os meios de protecção dos profissionais que vos vão tratar. E agora perguntam: mas estes erros não são os de todos os Governos? Não, já aqui demos exemplos de Governos que com menos erros lidaram com a crise, e sem o tempo e o saber dos erros dos outros. Não estou a falar dos erros de dez anos a destruir o SNS, nem da colossal incúria dos últimos 3 meses, estou a falar dos erros de hoje. Dos lares já contaminados, sem políticas de saúde pública coordenadas (em Espanha o Governo pediu desculpas e promete pelo menos indemnizações, mas, o mais importante agora, reconheceu o erro e actuou com medidas tardias, mas claras). O Governo português ignora as medidas mais urgentes, em nome de não malograr o tecido económico não essencial, esperando que os médicos e os enfermeiros resolvam tudo no fim da linha, e eles próprios sem protecção… Aqui o que prevalece no Estado de Emergência é a obrigação de manter as fábricas a laborar – foi para isso que ele foi decretado. E por isso ele vem acompanhado da proibição da greve. Aliás, Costa, com a voz firme que usa muito quem erra muito, disse-o na entrevista. Para quem quis ouvir: é preciso que o país não pare. Quando o país lhe está a dizer temos que parar em tudo o que não é essencial.

Há dois dias, um mês depois, e 4000 mortos depois, a Itália aceitou o erro e mandou parar as fábricas não essenciais. Aqui continuamos a mandar lavar as mãos e andar de Metro; queixamo-nos da praia, espaço livre a aberto, mas nada dizemos das fábricas fechadas onde centenas produzem talheres. Sim, nada como garfo e faca à mesa, costas direitas, e voz firme, para rumar ao precipício e depois puder dizer, com a voz mais doce, “fizemos tudo o que estava ao nosso alcance”.

Pelos comentários ansiosos a defender o PR e o Governo, já cheios de ódio a quem o critica, observa-se que há muita gente que já fez as contas à vida. O Governo geriu isto de forma catastrófica, e já estão os membros do Governo e milhares de funcionários incompetentes cuja único curriculum eram os cartões dos Partidos e o seu acesso privilegiado por essa via ao aparelho de Estado, ansiosos pelo seu futuro. Fazem bem em estar. Ninguém vos perdoará o falhanço, por mais mediatizada que seja a voz firme de Costa e a ausência de oposição. Esta é a hora de defendermos com a máxima seriedade o país e a população, só isso pode orientar cada um de nós, é aí que a nossa ética vai ser posta à prova perante as nossas famílias colegas, população. E isso implica dizer a estes ansiosos incompetentes que não podem estar ao leme da coisa pública ao serviço de todos nós.

8 thoughts on “A voz firme dos incompetentes

  1. Como disse Nelson Mandela (e nao so estou certo): A educacao e a melhor arma para mudar o mundo. Uma sociedade baseada na educacao desde a infancia.. seja em casa, no jardim escola, passando pela escola, universidade, e por ai fora.. com base nos valores comunitarios (tambem), meritocraticos (palavra ainda no dicionario penso..) e a arma mais eficiente de mudar.. comportamentos.. sociais.
    Tome-se como exemplo a cultura japonesa (podia ser outra, nao tenho preferencia alguma pelos japoneses) e vemos o que poderiamos ser (tambem) a escala global – limpar o que sujamos e nao so.
    Tudo vem da educacao, a seguir a mae que da a luz.
    Ha quem lhe chame lei do retorno, karma, bla-bla-bla.. ou.. como diz o ditado (de uma sapiencia..): colhe-se o que se semeia.
    A natureza e sabia 🙂

    Texto incisivo e duro o seu, mas sim. Tem a sua verdade.
    Ser lider nao e para quem quer. E para quem o e.

  2. Parece que estou a ler um artigo sobre o governo de França ! SOCORRO ! Os médicos são os contabilistas !

  3. Por hoje é só isto que eu quer dizer bem ALTO…
    Não à Lei de Emergência! Sim à emergência no combate à pandemia!
    Não ao golpe de estado!
    Quando tudo isto tiver acabado – cadeia com eles – que até pode ser antes!?

  4. Que no final, possamos estar todos vivos para dessa forma, darmos nas urnas e através do voto, o merecido destino a Costa, Marcelo e restante camarilha, banindo-os de vez do mapa político nacional.
    Caberá ao povo, quando a altura chegar, julgá-los de forma justa, rápida e inequívoca.

  5. Mas já sabe que vai correr tudo mal? Escreveu este post do futuro? Há tantos países com medidas menos restritivas que Portugal, alguns não têm mais casos.

  6. Também há países com muito menos restrições e com mortes e casos semelhantes a Portugal. Olhe para a Suécia. E agora? Comparar ainda é permitido?

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