Ninguém fica para trás

Estou disposta a debater todos as soluções, numa situação de gravidade como a actual. Soluções que nem existem ou existiram e que vamos ser obrigados a inventar, com uma enorme dedicação e esforços colectivos. Há dois argumentos, porém, que são para mim uma linha vermelha, e que por aqui têm circulado à velocidade da luz, à velocidade do pânico. São os que defendem que se pode suspender a democracia em situações de catástrofe, e são os que defendem que não se pode parar as fábricas e empresas não essenciais porque o “país não aguenta” e que não há outra solução que não seja despedir pessoas porque as “empresas não aguentam”. Estes argumentos são os de uma ditadura e do darwinismo social. Não pensem que podem usá-los e ser democratas; ou usá-los e ser solidários. Estes são os argumentos, com mais ou menos sofisticação, com mais ou menos apoio mediático, de quem aceita algum grau ditadura como regime político, e de quem aceita o salve-se quem puder.

E todas as ditaduras no século XX começaram assim. A pior de todas, a nazi, que acabou com 80 milhões de mortos, começou exactamente assim. Com 3 governos semi-democráticos, antes de Hitler, que introduzem medidas autoritárias de “excepção”, para lidar com a “catástrofe de 1929”, sem tocar nos lucros. A solução foi proibir greves, sindicatos e partidos de trabalhadores. Também na ditadura nazi corria a ideia “não dá para salvar todos”. Muito antes do anti semitismo e do racismo veio o darwinismo social, que deixou sem trabalha milhões de trabalhadores. Podemos por exemplo debater a nacionalização das grandes empresas para salvar as pequenas, e depois disso, só depois disso, porque é aí que está o dinheiro (não é criar mais endividamento), podem pedir-nos sacrifícios e máxima dedicação. O que não podemos é dizer-me que face à dimensão da catástrofe nada há a fazer a não ser despedir, e proibir a contestação social. Esta linha vermelha foi a porta de todas as ditaduras no século XX. Se estas, despedir e suprimir direitos, são as propostas para resolver a crise então assumam que não sabem o que fazer, a não ser acrescentar mais crise e mais caos ao que já existe.

Que em Portugal haja quem tenha dúvidas disto, e cinicamente, cruze os braços aos despedimentos – puro darwinismo social – ou aceite que é necessário o Estado de Emergência para dar cobertura legal a algo que os cidadãos fizeram voluntariamente, diz-nos muito sobre como no ensino da história falhámos no elementar.

Aqui a música Solidarity Forever, cantada por Pete Seeger.

2 thoughts on “Ninguém fica para trás

  1. Se, como diz, há por aí alguns que reclamam mais do que o Estado de Emergência até porque as regras democráticas se mantêm apesar de algumas limitações para evitar algo que possa provocar mais instabilidade social do que a que já temos devido à epidemia, e se se deve continuar a “luta”, pelo quer que seja, numa altura como esta e se, como diz, e muito bem, as ditaduras como as de direita extremista e o nazismo começaram assim, então, a questão que se coloca é se, para si, não será talvez melhor uma feroz ditadura de extrema-esquerda ou uma anarquia desenfreada e desestabilizadora. Não se esqueça também que foram reivindicações e greves desenfreadas que conduziram os extremistas de direita ao poder.
    Os pontos de vista como estes que hoje expõe Pontos de vista este o seu que interpreto apenas como uma necessidade imperiosa e egoísta para nas vistas para ser chamada para debates televisivos para expor originalidades perigosas neste momento que deve ser de calma e união para que todos possamos dar resposta a esta grave situação.Sem ditaduras, nem de extrema-direita, nem de extrema-esquerda que me parece ser esta última que resolveria os problemas.

  2. Pingback: [Debate] A vida ou a economia? Eu escolho os dois! - UFSC à Esquerda

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