Requisitar os hospitais privados

Sou a favor de uma quarentena total, mas isso implica medidas de Estado de excepção. Devemos portanto nesta hora, em que aceitamos limitações à nossa liberdade de circulação e reunião para combater a epidemia, ser mais críticos do Estado, e não menos.

As medidas tomadas pelo nosso Governo são tardias e são insuficientes:

– A situação na China era conhecida desde Janeiro. Que a ignorou desde Novembro ou Dezembro, tendo por isso pedido desculpas publicamente aos seus cidadãos. Chega à Europa em Março, com os governos a reagirem em cima dos acontecimentos, totalmente despreparados – o absurdo chega ao ponto de a Ministra anunciar ontem – em plena crise epidémica – que ia comprar máscaras de protecção para os profissionais de saúde, e que não sabe ainda bem quantos ventiladores há no país. Tudo isto quando a OMS avisou desde Janeiro que a situação era grave, medidas como a Chinesa deviam ser adoptadas por todos os países e não era uma gripe. A OMS disse-o todos os dias. A DGS, o Governo, o Ministério, a UE ignoraram. Falharam, apesar de reiteradamente avisados.

– Não é o virus que causa a crise económica. A crise económica estava lá, despejámos triliões de euros em bancos falidos, as taxas de juros reais estão negativas há dois anos, esse dinheiro nunca retornou à economia real, e desnatou os serviços de saúde. Agora são as pessoas que estão em causa, agora são as pessoas! Já ninguém suporta mais a conversa do risco sistémico bancário. Os banqueiros são os primeiros que deviam ter-se chegado à frente a perguntar quantos milhões precisam para combater a pandemia?

– As medidas do Governo são insuficientes. Porque fecharam-se as escolas mas as trabalhadores dos supermercados estão sem luvas e máscaras; a Auto Europa já tem 7 pessoas em isolamento profiláctico, devia estar fechada – está a contatar precários para em os doentes!. Nos aeroportos, portos, Metro, Carris não havia até agora nenhuma protecção real para quem trabalhava, sem máscaras, luvas – o plano de contingência era “avise se tem febre”…; são milhões de trabalhadores a circular. Apontar o dedo à praia – que nem sabemos se faz mal ou bem, de facto – é não querer ver o problema. Querem a todo o custo manter produção que não é prioritária a funcionar, com risco para quem trabalha. Temos que parar toda a produção que não é essencial, porque estão nas OGMA a construir aviões? Na Auto Europa, na Visteon? Temos que manter a trabalhar só os sectores essenciais de abastecimento, e esses protegê-los ao máximo de contágios. Isto é uma guerra – em guerra deslocam-se sectores produtivos do que é menos importante para o que é essencial – essencial é logística, energia, saneamento, abastecimento. Temos que tentar produzir material médico em falta, ventiladores, ou exigir à União Europeia – que nada fez até agora a não ser pedir fronteiras abertas!! – que produza.

– Mandar as pessoas para casa com 66% do salário é uma medida de um Governo que não tem a mínima noção da realidade laboral do país. Isso para os precários, mais de 30% da força de trabalho do país, significa 450 euros ou menos, não paga sequer a renda. Para quem ganha o salário mínimo, 25% de toda a força de trabalho, significa o mesmo. E os outros fixos só ganham 1000 ou 1500 euros porque a maioria trabalha por turnos e faz horas extra – mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas por semana – se param não pagam as contas. Ou seja, esta medida tem que ser acompanhada pela suspensão do pagamento de hipoteca e rendas, no mínimo; congelamento e redução do preço de bens essenciais. Sob pena de as pessoas não terem como comer.

– Os hospitais privados vão reunir-se com a Ministra dia 17…Nunca subestime a vergonha e a cobardia. Nos outros países, como Espanha, já avisaram que vai haver requisição civil. Se for necessária, e é, deve nacionalizar-se os hospitais privados e laboratórios ao serviço do combate à epidemia. Vejam o exemplo dos investigadores do mundo inteiro que estão a tentar produzir vacinas e medicamentos sem direitos de autor, partilhando o que descobrem! Gente decente.

– Gostava de ter visto 1 accionista de um hospital privado, 1 que fosse, que foram tão rápidos há um mês, a defender que não fazem eutanásia porque ” defendem o direito inviolável à vida” oferecer-se agora para tratar, sem custos, e sem seguros, os doentes não urgentes que não podem agora ser tratados no SNS. Isso sim, era defender o direito à vida. Penso que em vez disso devem ter mandado uma cartinha dos seguros de saúde a dizer “adeus, xauzinho, o seguro não cobre pandemias” e – espero estar errada -, vão aproveitar para negociar com a Ministra, no tal dia 17, e ela vai ceder, receber com lucros para as instituições privadas os doentes não urgentes do SNS…Cá estaremos para ver se em tempo de guerra não vai haver quem faça disto um negócio, e se o Estado não vai ser cúmplice.

Aos médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares, o meu aplauso, o meu “Bravo” de pé. Posso dizer que estou entre as poucas figuras públicas no país, tenho mesmo que me esforçar para encontrar um meia dúzia, que nos últimos anos aplaudi todas as vossas greves por direitos laborais, aplaudi os fundos de greve, os métodos combativos de greve, defendi o vosso estatuto de profissão de risco, de desgaste rápido, e que os salários subam pelo menos 30%. Hoje há milhões de portugueses que o perceberam e aplaudem. Não tenham dúvidas que isso mudou. Hoje somos todos “queremos um SNS com bons salários!”. As greves não são radicais, o Governo é que não cede a não ser quando há greves radicais. E não cede – faz requisições civis. Ora o Governo daqui para a frente, depois de caírem previsivelmente como castelos de cartas, em todo o mundo, não poderão voltar a dizer que os profissionais de saúde são uns “privilegiados”, enquanto salvam “pobres banqueiros aflitos”.

8 thoughts on “Requisitar os hospitais privados

  1. Pingback: Numa situação excepcional… | Escola Portuguesa

  2. Concordo totalmente com voze Raquel, Morro em Paris e para mim
    foi uma loucura de manter as eleiçoes em França hoje.

  3. Não é gostar ou não gostar, é ver escrito a realidade da vida e situação que está; isso há poucos que tenham esse conhecimento disponível, aí é de louvar quem o tem e o dispõe a favor da vida de todos nós, pelo que bem aja, a grande alma de quem pôs a verdade aqui a bem de todos. Um muito obrigado, pela sempre muito rica informação a todos nós. Parabéns. Comungo de todo a quanto diz, certo que pelo andar da carroça, o resultado vai ser muito mau, e vai dar a uma mudança total da vida.
    Tão baixos os actos destes mandantes da sociedade que apenas lhes é devido pesado castigo. Por mim, á muito que isto já tinha mudado. Vejo cada aberração miserável destes selvagens oportunistas, que apregoam o nome de políticos como se fossem profetas, sendo apenas pérfidos animais. Gastem muito ou pouco, a conta paga depois sempre o zé mexilhão. Não enganam ninguém, toda a desgraça da natureza lhes serve para se engrandecer/enriquecer, deixam-no cá todo como nós, são mortais, apenas ganancia, os diferencia de nós, como comuns, mais nada. heresia a chefiar-me, não os reconheço à muito.

  4. Raquel, viu isto (elimine p.f. os espaços que inseri no endereço)?
    ht tps : // http://www.euractiv.com/ section/economy-jobs/ news/ volkswagen-ford-halt-factories-as-virus-hits-workers/

    Pare que a Autoeuropa ficou de fora… Porque será? Os operários portugueses são mais saudáveis que os outros? ou o governo português é mais fraco que os outros? ou o movimento sindical português é mais conformista que os outros?

    Cumprimentos

  5. Neste momento tenho os meu correio electrónico atulhado…
    O Governo ( e não só) não deu a devida resposta a esta epidemia.
    Continua a não ouvir aquele que estão no terreno e , que estudam estas situações….
    A responsabilidade politica de tudo o que vier acontecer cabe a este governo do PS de Costa e Centeno à, Assembleia da República e ao Presidente..

  6. Aqui pouco contam as cores, salvo pontuais excepções, mas as pessoas, de fato o Joaquim Low, seleccionador futebol alemão tem todo o meu apoio no que disse: A suprema ganancia humana trouxe este fungo rábico aéreo, que há muito era previsto, mais ainda, nem é o primeiro, nem será o último, e a história escrita até diz com a mesma origem.
    E, da ganância, lhe sub-jaz, o lucro, o rendimento, o poder, o enriquecimento não importa como, do bicho culto-selvagem humano que se acha vencedor da natureza, que em resultado até vem dizer que está tudo mais limpo, com tal paragem, que há tantas mil toneladas de contaminação não feita.

    Afinal, o barco é só um, convencidos muitos de mais poder que a natureza. Destes resultados, já anunciam sem querer a prova que esta contaminação é porque o bicho humano abafou o planeta. E agora, o que está vindo, e o que se repetirá. Não é profecias religiosas; são dois mais dois e só, por isso metem nojo, arreganharem o sorriso na televisão, perante a situação, afinal nada compreendem do que dizem e fazem. Perdoai-lhes que não sabem o que fazem, não tendo quem lhes perdoar, pois a natureza ficará, e nós vamos. Pobres humanos, que agora até dizem que não tem raça, só os cães é que são diferentes, é que tem raça, provavelmente os cães gostam de ser e ter raça.

    Mas reflicta-se se o mal da ganancia e do poder, também não começou com os chineses a esconderem que tal fungo não era transmissível aos humanos, isto já em Nov2010. Ora, pois, tá aqui o tal não perder também o poder das massas. Enfim, é o bicho humano recolector, que já viu o filme das cavernas, e teima na falta de provas, que outras civilizações, não foram dizimadas, pelo fungo do morcego, lá está a natureza a reclamar poder sobre o sapiens, afinal a praga de gafanhotos que anda aí pela África, veio da alteração climatérica, que gerou toda uma população de outros seres, a praga de morcegos que também anda pela Austrália, veio também da alteração do clima, pelos incendiou, não fosse o eucalipto aqui e ali uma alteração da natureza. Querem o quê, quem manda é a natureza, que até nos mostra hoje em todo o lado; olhando as árvores, se vê que descansam, em paz pela origem das quarentenas. A natureza é maior e mais poderosa que o homem e só, o maior ruminante desta.

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