COVID: A queda da bolsa, quando o trabalho se ergue

Nenhum Governo europeu, e mesmo creio o Chinês, sairá da crise desta epidemia na mesma. Ou sairão muito mais fortes, porque conseguiram conter a doença, com legitimidade para impor estados de emergência e de excepção daqui para a frente; ou sairão muito mais fracos, demonstrando que não conseguem, em pleno século XXI, organizar o bem estar da sociedade. É impossível hoje dizer qual será o resultado mas será um destes dois.

Seja também qual porém o resultado, o mundo do trabalho, sejam trabalhadores intelectuais ou manuais, tornaram-se uma força evidente até aqui ocultada pela obsessão pelo mundo dos negócios, pelo delírio financeiro. Hoje é claro que sem trabalhadores na produção, nos serviços de saúde e emergência, o mundo colapsa. E que, nesta hora, quando o pânico percorre o mundo das bolsas, milhares de gente no mundo – médicos, enfermeiros, auxiliares, motoristas e logística, bombeiros, protecção civil, operários que erguem tendas e hospitais; trabalhadores que desinfectam transportes; professores que organizam escolas, investigadores que procuram soluções – agarram os problemas nas mãos, à procura de soluções, à procura do sentido da vida que é cuidar, ajudar, ao serviço de todos nós. Enquanto telejornais abrem com quedas das bolsa e empresários em pânico a pedinchar mais um subsídio para uma economia inviável e há muito catatónica (eles que andaram anos a lucrar com a globalização e o dumping social), procuram agora mais uma desculpa para despedir, trabalhadores do mundo inteiro erguem num esforço colectivo inédito uma resposta à crise, no terreno. Oxalá sejam vitoriosos. Oxalá sejamos vitoriosos.

É unicamente aqui, no trabalho organizado, que reside a nossa capacidade de acção, a nossa esperança. A eles, o meu enorme respeito. É esta grandeza, de quem actua nas horas difíceis, que torna o ser humano não só a espécie mais evoluída mas a mais encantadora. Esta capacidade de resposta cooperativa, inteligente, prospectiva, este disputar o futuro dando tudo o que podemos é – até hoje -, para mim, o maior e mais belo mistério da vida.

Sim, a grande questão não é a pergunta depressiva que quase todos repetem, “porque nos comemos vivos uns aos outros na selva capitalista?”. A grande questão é como é que, pese embora a selva capitalista, a cooperação existe, a solidariedade é real – numa palavra, a humanidade subsiste.

3 thoughts on “COVID: A queda da bolsa, quando o trabalho se ergue

  1. Pegando na sua frase;”Oxalá sejamos vitoriosos”! Mas duvido que este governo com tiques na defesa dos interesses do capitalismo venha a ser vitorioso…

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