O Trabalho fixo em risco para todos os portugueses

Se a moda pega todos os portugueses com trabalho fixo estão em risco de o perder dentro de meses ou um ou dois anos. Não pensem que estamos perante mais uma greve. Esta é, em quase tudo, distinta. Entre 2012 e 2014 publiquei uma série de livros e artigos onde defendia que os trabalhadores fixos já não estavam protegidos, tentei argumentar que o mundo do trabalho estava sob a égide da troika, também com o governo PS. Tinha acabado em 2008 o pacto social em Portugal, nascido da negociação depois da revolução de Abril. Os ritmos de intensificação do trabalho, a criação de taxas de lucro num país dependente e periférico, iam impor aos trabalhadores portugueses condições chinesas de laboração, com mortes no trabalho, e acabar mesmo com o trabalho fixo dos que ainda estavam fixos. Sim, publiquei mais de 500 páginas com dados, estudos, o que pareceu então a alguns pessimista, incluindo a tantos trabalhadores que me perguntavam duvidosos se haveria alguma possibilidade de os meus prognósticos passarem a realidade.

Mas agora aqui chegámos. E começa-se nos estivadores porque é preciso derrotar quem mais resiste, para servir de exemplo aos que têm mais medo. Não podendo despedi-los, porque são estivadores fixos, declara-se a falência da empresa, e abre-se ao lado uma, com precários, que faz exatamente o mesmo. Sim, já está aberta, nas barbas do Governo. Fazer isto aos estivadores é abrir as portas a que se faça em todo o lado, incluindo na grande indústria ou numa universidade-fundação. E do sector privado passaria pra o público, na parte crescente de contratos individuais e sub contratação. Se os estivadores forem derrotados este método vai ser aplicado pelas empresas a vários sectores dos transportes, logística e mesmo ao trabalho mais qualificado.

A história dos movimentos sociais é uma bola de neve, para o bem e para o mal. A vitória dos estivadores à jorna de Setúbal abriu portas à esperança de luta que levou os enfermeiros a uma greve pelos salários dignos no SNS; a derrota da greve da Auto Europa impôs a laboração contínua nos motoristas de matérias perigosas; a derrota com requisição civil nos enfermeiros levou à derrota dos motoristas de matérias perigosas, com requisição militar; e a derrota destes com a mão dura do Governo, usando o exército, deu confiança às empresas para o grupo turco e outros se sentirem protegidos pelo Estado para impor esta falência – isto no mesmo ano em que anunciam 122 milhões de euros de investimento num porto, que é público.

Ou seja, tudo isto é da responsabilidade de uma única entidade: o Governo. Que o que tem que fazer é tornar os estivadores trabalhadores públicos da administração portuária e retirar a concessão aos privados que nada fazem a não ser terror económico e laboral, mantendo estas famílias sem receber o seu salário há 18 meses, ameaçadas na sua integridade e – por isso – na sua vida. A responsabilidade é do Governo, dono do porto de Lisboa.
Os estivadores são 350 homens que cometeram a suprema ousadia – não resignar-se num país onde, há muito, os trabalhadores andam de costas vergadas, a olhar o chão – sem futuro.
Mudar isto é por isso urgente e envolve todos os portugueses.

Podem ler estes trabalhos em artigos académicos de acesso livre no meu blogue, e nos livros Para onde vai Portugal?, (Bertrand) e “Dont Fuck my job” As Lutas dos Estivadores (Editora Humus).

4 thoughts on “O Trabalho fixo em risco para todos os portugueses

  1. Fica aqui todo o meu apoio, aos estivadores e a todo Movimento Sindica Independente.
    Um ex-dirigente sindical

  2. Que pena eu tenho de este Portugal ser o dos pequeninos,daqueles que nunca estiveram do lado da “relva verde”.

  3. Pois…um beco sem saída…na verdade já não é possível a vitória, a determinação e o contexto especifico apenas adiam derrotas, a alteração tem de ser profunda e transversal, a alteração necessária já não é a mudança é a revolução. O conforto e a resignação são a face visível da desestruturação. É indigno anseio da próxima migalha, é indigna a subjugação.

  4. A desagregação nunca começa pelo lado mais forte ou mais protegido, o momento actual é o resultado da corrupção moral generalizada, e o problema não foi não cuidar dos de baixo foi sim permitir que houvesse gente invisível.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s