Pensar a Modernidade

Steiner numa crítica radical ao identitarismo e ao tribalismo. O seu olhar para a modernidade capitalista aqui tão próximo de Marx – sim o que ambos dizem e recordam é que esta é uma modernidade de barbárie e de coragem, as duas convivem no mesmo Homem (no mesmo processo histórico contraditório). Steiner é um dialéctico contra o absolutismo mecânico da pós-modernidade. Não por acaso recusou-se fazer carreira em Israel, reconhecendo que não conhece a solução real para este país mas que ele judeu não queria fazer parte de um projecto que “só poderia ser militarista”. Recomendo ler este texto abaixo, pelo menos como dizia alguém 4 vezes, é um antídoto contra o relativismo actual que esquece que o homem branco fez o nazismo e fez a resistência ao nazismo. Pelo que dividir o mundo no negro puro e no branco manchado pela vergonha é simplesmente primitivo. Ou primitivamente simples, e por isso incapaz de compreender, e logo transformar, as sociedades modernas.

GEORGE STEINER (1929-2020)

“Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa, ou no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde ao modelo spengleriano de um apocalipse racional – ora que só poderá ressuscitar através de uma transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo”. A estes pertenceria a verdadeira “alma”, e a beleza da negritude e do Eros. Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente, e devendo ser compreendido ao mesmo tempo em termos psíquicos e sociais” (70-71)“E tambem é verdade que a própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (…) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pós-voltairiano.A nossa incapacidade presente de enunciarmos com clareza estes traços manifestos, de convivermos com eles fora de uma rede de culpabilidade e impulsos masoquistas, levanta problemas graves. Na tentativa de aplacarmos* as fúrias do dia de hoje, denegrimos o passado. Manchamos a herança de grandeza em que, sejam quais forem as nossas limitações pessoais, somos convidados a participar pela nossa história, pelas nossas línguas, pela couraça, e se se quiser pelo fardo, da nossa pele. De resto, as evasões, as autonegações e reformulações arbitrárias da memória histórica a que a culpabilidade nos impele são, de um modo geral, inconsistentes. (…) Quase todos os gurus e publicistas ocidentais que apregoam o novo ecumenismo penitencial, que se declaram irmãos de sangue da alma sublevada e vingativa da Ásia ou da África, não vivem mais do que uma mentira retórica. No sentido mais crítico da palavra, encontram-se numa situação falsa. Em virtude das falsas fidelidades a que obriga, esta situação desgasta ainda mais as nossas reservas de inteligência e afectividade. Se quisermos compreender em que pontos, em termos políticos e sociais, o passado clássico errou, teremos que reconhecer não só a incompáravel força de criação humana desse passado, como também o que, de modo problemático mas persistente, a ele nos liga”
(George Steiner, No Castelo do Barba Azul, ed. Relógio de Água.)

Via Elisio Costa Santos Summavielle

2 thoughts on “Pensar a Modernidade

  1. O bem, o mal e a realidade objectiva. Não há arrependimentos nem arrependidos, a mudança é rápida, não importa a substância, o tempo e o lugar determinam o que é susceptível, é incontornável a execução, sujeito enquanto instrumento, a culpa e a condenação nunca acontecem à partida, na verdade é o fim que distingue e desiguala. O que nos impele não é a liberdade, nem a clarividência, é a circunstância, esse infortúnio da nossa limitada representação.
    O sofrimento não é a expressão da bondade, nem o “saber” expressão da dignidade, o que é moral satisfaz e situa.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s