Qual era a base social do fascismo?

A tentação determinista é forte. Não há, contudo, uma tradução automática entre este caos económico e a velocidade e amplitude de apoios que o Partido Nazi recolheu na sociedade alemã.

(…) O NSDAP mobiliza votos mas também apoio social organizado. E força militar. E nos distritos rurais protestantes, mais do que nos ca- tólicos. Nas cidades pequenas, mais do que nas grandes. Nos trabalha- dores rurais, mais do que nos operários, e entre as chefias e colarinhos brancos (cerca de 20% da força de trabalho então) , mais do que nos operários industriais. Mobilizava entre as classes ricas e proprietárias. Quando, em julho de 1932, a votação em todo o país era de 37,4%, nas grandes cidades era 10% inferior . Em Berlim e Hamburgo suportou perdas consideráveis.

O assunto é muito complexo. Muitos procuraram as raízes do nazismo nas profundezas culturais da «alma» alemã e francesa, a natureza de homens que se encontram confortavelmente fora do Parla- mento, ou a «arrebatada recusa da democracia» das correntes filosóficas francesas que odiavam a «mania do voto» . Thomas Mann,
nascido na Alemanha, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1929, vai buscar essas raízes mais longe, a Lutero, que define «o verdadeiro carácter alemão», o homem que começou por criticar nobres e camponeses, para no fim «e com a fúria mais indomável, condenar simplesmente os camponeses» .

O facto é que nem todos os fascismos «deram certo» . Nem todos os fascismos passaram de correntes culturais de vanguarda a partidos de massas que tomaram o poder de Estado.

A origem do voto nazi não é maioritariamente nem dos sectores operários nem da transferência do voto social-democrata para o nazismo. O grau de apoio e compromisso da sociedade alemã com o nacional-socialismo é mais complexo, como revelaram algumas dezenas de investigações neste campo .

Antes uma lembrança: ao longo de todo o nazismo, 300 000 alemães são presos, perseguidos ou mortos por se oporem a Hitler. É verdade que o nazismo é derrotado de fora, pelas forças aliadas. Mas houve oposição interna.

Outro debate central, que não cabe aqui mas que é preciso recordar, é se a sociedade alemã que a ela aderiu o fez por medo ou por compromisso ideológico. Ninguém levou tão longe esta controvérsia como Primo Levi, no magistral Os Que Sucumbem e os Que Se Salvam.

Para ele, sobrevivente de Auschwitz, cabe à sociedade alemã o ónus histórico dos campos de extermínio, porque o medo que poderiam ter não justifica a ausência de ação contra o sofrimento nos campos de trabalho e morte, onde nada podia ser feito, não havia qualquer hipó- tese de resistência.
O poeta Bertolt Brecht, socialista e revolucionário resistente ao nazismo, no seu exílio de 15 anos – um «embaixador da desgraça» como se autoapelidou –, chegou mesmo a escrever, refletindo sobre a história, dirigindo-se ao futuro: «Vocês que vão emergir da onda, em que nós nos afogamos […], pensem em nós com indulgência.» Não estava Brecht a perdoar os alemães, nem necessariamente a eles se re- ferindo com estes versos, mas a reconhecer que a dimensão da derrota era naquele tempo irrecuperável.
Em 1939, o movimento operário alemão – quem tinha força potencial para organizadamente resistir – estava derrotado. E os seus principais líderes estavam mortos ou exilados . Poucos se salvaram do terror nazi. Nem mesmo, no fim, os nazis.

(…) A cartelização de fábricas promovida por Hitler, note-se, não se deu com o recurso à expropriação dos bens, mas à sua organização pelo Estado, mantendo o carácter privado dos lucros. É assim que os próprios campos de trabalho, e de concentração, se especializaram em cada sector da produção. Em Mauthausen, por exemplo, que tinha, só este, 40 subcampos de trabalho, imperava uma grande pedreira, mas também havia mercado para venda de produtos de desinfeção de prisioneiros, etc. Era a barbárie.”

Este excerto é de Breve História da Europa, Raquel Varela, Edição Bertrand, 2018.

1 thought on “Qual era a base social do fascismo?

  1. O que fez o Fascismo e o Nazismo crescerem, foram essencialmente os grandes apoios económicos que estiveram por trás destes movimentos. Apoios esses, que foram usados, nomeadamente, também para enormes campanhas de propaganda. Pois, a esmagadora maioria do “Povo” é facilmente manipulada.

    Vejam-se outras demonstrações deste princípio…

    1) Porque razão votaram os britânicos no Brexit? R: Porque mais de metade dos artigos na imprensa britânica eram a favor do mesmo.

    2) Porque razão é a maioria dos europeus a favor do “IV Reich” em que vivemos, se este nem sequer surgiu por vontade dos diferentes povos europeus? R: Porque a esmagadora maioria da imprensa, e também dos dirigentes e propagandistas políticos, são a favor desta União Europeia.

    Também, o Fascismo e o Nazismo nunca morreram verdadeiramente…

    Não é mera coincidência que o Tratado de Roma (fundador da União Europeia) tenha sido assinado, não só nesta cidade, em particular, como também especificamente na localidade correspondente à cidadela dos primeiros romanos: h*tps://twitter.com/BlackFerdyPT/status/808789275772796928

    E, o que é feito de todo o ouro nazi, que foi pilhado durante a Segunda Guerra Mundial? R: Começou a ser evacuado para a Argentina, depois de Estalinegrado, ficou lá durante uma década – e foi depois usado, em parte, para criar o Clube Bilderberg em 1954 (que viria, por sua vez, a criar a União Europeia) tendo o regresso deste mesmo ouro sido também responsável pelo “Milagre Económico” que ocorreu na Alemanha dos anos 1950: h*tps://blackfernando.blogs.sapo.pt/a-uniao-europeia-e-em-boa-parte-a-131523 + h*tps://www.forumdefesa.com/forum/index.php?topic=565.msg316602#msg316602

    (Nota: Os grandes interesses económicos que estiveram por trás dos movimentos fascistas, tal como denuncio nas hiperligações anteriores, fazem agora parte de um grande conluio de grandes interesses económicos internacionais, que controlam os nossos políticos nos bastidores – e, como tal, decidem os primeiros também, indirectamente, a que material curricular são os jovens de hoje expostos, no cada vez mais estupidificante sistema de ensino que temos. Por isso, se pensam que alguma vez isto irá ser ensinado/denunciado em estabelecimentos de ensino oficiais, podem esperar sentados…)

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