Só a verdade é revolucionária

O caso do jovem morto em Bragança -envio as minhas condolências à família e a minha profunda repulsa por este acto – ensinou-nos muito sobre a política em Portugal. Ser de esquerda não é estar num concurso para ver quem é o mais anti racista, é uma luta radical pela verdade. E a verdade nem sempre se encaixa nos nossos esquemas.

Em primeiro lugar sabemos hoje que discotecas não são lugares seguros, não é o primeiro caso bárbaro e não há nada de normal nisto. Em segundo que, apesar dos evidentes avanços para reduzir a violência entre jovens, ela permanece, e, em casos limite, sem qualquer código de ética: 15 batem em 1; 1 armado bate num desarmado. Esta violência tribal, pré capitalista, pré racista, remonta ao pior que há em nós – os animais na selva. Mas ela reverbera nas claques de futebol, nos partidos neonazis, na competição doentia disseminada no trabalho e nas escolas – esta violência a cada dia destrói os pilares da civilização, que só pode existir se baseada na cooperação.

Um sector de esquerda, identitária – não toda a esquerda – fez disto uma bandeira anti racista, que não foi. E um sector da direita identitária, também não toda a direita, aproveitou para semear o ódio contra os ciganos – não há ciganos envolvidos.

Esquerda e direita explicam pouco na hora de ser sério com os factos, embora esquerda e direita sejam – felizmente – coisas muito distintas. A esquerda acredita na igualdade e na liberdade, a direita acredita na liberdade de quem manda e detém o poder. Mas a verdade é que na hora de olhar a realidade com complexidade o fanatismo clubista ainda se impõe. Esqueceram-se, os de esquerda, que só a verdade é revolucionária – enfiar a realidade na nossa teoria errada não serve para nada a não ser para descredibilizar quem o faz. Qual é o mal de fazer de um crime selvático de bar um crime racista?
O mal disto é que há de facto um aumento das organizações neonazis, que estão de cara lavada no Partido Chega, nas televisões em programs de chá com bolos, no Parlamento – e cuja função não é só matar negros, como já fizeram no passado, é matar líderes sindicais combativos a mando e com financiamento patronal encapotado – é isto historicamente a extrema-direita. O Estado olha isto com complacência porque na hora de matar revolucionários ou sindicalistas combativos mas vale deixar estas milícias fazerem o serviço. É assim que é tolerada a evidente organização criminosa em curso (que cresce no desespero das políticas sociais de um Governo que não é carne nem é peixe, mas se diz de esquerda). Porque não se deve dizer que todo o crime é racista quando é contra um negro? Porque um dia vamos precisar de dizer “vem lá o lobo” e ninguém acredita, isto por causa das vezes que foram produzidos alarmes falsos pela esquerda identitária.

O outro ensinamento. A polícia só reagiu depois da esquerda identitária ter vindo para as redes sociais dizer que era um crime racista. Dez dias depois. Mas no dia da agressão foi avisada pelos médicos que se tratava de uma agressão. Ou seja, a polícia actua consoante a pressão mediática, sem meios, sem organização interna.

E ainda outra lição. A direita identiária está em silêncio, porque os assassinos alegados são portugueses de gema, há 800 anos. Como é que agora mandamos para a “terra deles” os assassinos se eles são da nossa terra? É que a nossa terra é um conceito terrível, não explica nada. Amilcar Cabral é da minha terra, ofereceu-nos o 25 de Abril e pagou por isso com a vida. Não houve nenhum crime branco ou negro, mas brutalidade selvática, o pior que a humanidade já produziu, é a pré-história. E há a inação policial, com poucos meios, que eventualmente naturalizou estas pancadarias de bar como algo “da juventude”, não percebendo que tem que haver tolerância zero nestas brigas, neste combates tribais que levam inocentes para a morte. Estamos no século XXI, não temos vontade de ver os jovens ir à discoteca como se fossem para o meio de gangsters no século XIX. Ali, nos bares, os jovens não estão seguros. Doa a quem doer isto tem que ser dito, e não pode ser desculpado pelas cervejas que bebem. A segurança pública falhou nas discotecas, e tem falhado sempre neste casos de discotecas, mesmo tendo elas segurança privada. Se há uma rixa a sinalização imediata para as autoridade era urgente, em vez de os deixar sair, limpar a água do capote, e matarem 500 metros à frente.

Finalmente, não menos importante. Há racismo em Portugal. O “alarme racista” serviu para mobilizar uma das maiores manifestações anti racistas de que há memória no país, e que subiu a Av. da Liberdade. O mote foi um crime racista que não existiu, mas aquele mar de gente não estava ali por engano: têm os piores empregos, vivem nos piores bairros, não conseguem progredir nos estudos porque é a família o factor de imobilidade social, a escola não muda isto. Quem passou por isto e não compreendeu que os negros estão fartos não compreendeu nada. Estão fartos e têm toda a razão – esta coisa de irmos ao shopping e sermos sempre servidos por negros que auferem o salário mínimo e que moram no bairro social ao lado do shopping. Esta coisa de não se poder sonhar sair daquele não-lugar, tem que acabar.

O caso do jovem morto em Bragança -envio as minhas condolências à família e a minha profunda repulsa por este acto – ensinou-nos muito como sociedade: Em primeiro lugar que, apesar dos eviden…

6 thoughts on “Só a verdade é revolucionária

  1. Muito bem. É uma reflexão que urge fazer-se, aberta, oportuna e descomplexada, sem nenhum tipo de tabu. Tenha um excelente final de semana.

    A sábado, 18/01/2020, 09:40, Raquel Varela escreveu:

    > Raquel Varela posted: “O caso do jovem morto em Bragança -envio as minhas > condolências à família e a minha profunda repulsa por este acto – > ensinou-nos muito como sociedade: Em primeiro lugar que, apesar dos > evidentes avanços para reduzir a violência entre jovens, ela perman” >

  2. Raquel Varela

    (…)-O outro ensinamento. A polícia só reagiu depois da esquerda identitária ter vindo para as redes sociais dizer que era um crime racista. Dez dias depois. Mas no dia da agressão foi avisada pelos médicos que se tratava de uma agressão. Ou seja, a polícia actua consoante a pressão mediática, sem meios, sem organização interna”.

    Em minha opinião, ANTES de as investigações do Ministério Público serem concluídas,nem a “esquerda identitária”, tem bases seguras para, apriorísticamente, inferir que há motivações racistas neste crime, nem o director-nacional da Polícia Judiciária as tem, para afirmar que não as há.

    E se a P.J. “actua consoante a pressão mediática, sem meios, sem organização interna” mais uma razão objectiva para o seu director-nacional, ser mais prudente e cuidadoso com o que diz….

    Quanto à evidência de, como a Professora Raquel Varela afirma, haver racismo em Portugal, e as considerações que aduz sobre as razões que assistem à Comunidade negra (ou cigana), estou completamente de acordo.

    Cumprimento-a com consideração.

  3. Racismo há em todos os países – até no Brasil, que é o país com maior número de “pardos”.

    A questão é: Qual é a percentagem de pessoas racistas em cada um dos países?

    E também, se uma percentagem diminuta de pessoas justifica estar a apelidar país x de “racista”.

    Portugal não é um país racista. E, o facto da manifestação violenta na Av. da Liberdade ter tido uma motivação falsa é bem demonstrativo da “mania da perseguição” que foi criada por toda esta nova “propaganda de agitação” de origem trotskista.

    Se há descriminação de pessoas que são oriundas de certos bairros, muito provavelmente a descriminação em causa deve-se ao facto de serem as pessoas oriundas de tais bairros com má fama – e não devido à sua cor da pele.

    Não são apenas pessoas negras que trabalham nos grandes centros comerciais – e certamente que não são apenas estas as que sofrem as consequências da sua origem social. Também, não são sequer apenas pessoas de origem pobre as que trabalham nestes sítios.

    E, mesmo nos casos em que sejam pessoas negras descriminadas, serão estas descriminadas pelo seu tom de pele, ou pelo que está por trás de (ou associado a) o mesmo – que é a sua origem africana, em países e culturas conhecidos por serem incivilizados?

    Saiam dos grandes centros urbanos e vejam como se comportam as pessoas, em localidades onde os africanos são integrados na população em geral.

    Vejam, por exemplo, o que aconteceu em Bragança – em que uma enorme quantidade de transmontanos nativos, ditos “brancos”, participaram no funeral do jovem negro morto. E vejam como foram os próprios estudantes negros que prontamente desmentiram que o crime em causa tivesse tido motivações racistas.

    • P.S. – Onde escrevi “descriminação” e “descriminadas”, deveria ter escrito “discriminação” e “discriminadas”. Peço desculpa por isso. Sou ligeiramente disléxico. E, quando as palavras incorrectas não são apanhadas pelos correctores ortográficos, por vezes passam estes erros…

  4. O que me parece é que na PSP ,GNR e GP e, pelo que se sabe é, onde existe mais racismo por conseguinte mais gente ligada à direita e à extrema-direita . Ora vejamos; o apoio que teve a manifestação dos mesmos! O “Movimento Zero”, “Chega” (e não só)!!!

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