A gestão que destrói o SNS e o país

Testemunho de um médico, que manterei anónimo.

“Hoje fui chamado à parte pelo Director de Serviço. Parece que continuo na lista vermelha de quem imprime as prescrições. Mas continuo e continuarei a fazê-lo, excepto nas doentes quase saudáveis com pouca medicação ou que tenham apreendido bem a mensagem. Sem qualquer exaltação, expliquei que já tenho uma lista de livros extra-medicina preparados e que for decidida alguma pena preferia a prisão. Com condescendência, o meu Director apenas rematou: “mas tenha cuidado, porque nos monitorizam e pode ter consequências”. Apesar de tudo fiquei contente: consegui com a minha resposta que a conversa terminasse agradavelmente e no imediato.

Recordei então que há uns meses, tinha circulado em todo o hospital uma mensagem carinhosa do Serviço de Informática, na qual eu e uns quantos colegas (de várias especialidades), tínhamos sido advertidos com uma listagem, colorida com as cores do semáforo, conforme o nosso bom comportamento na impressão de receituário. No final, vinha uma nota para explicarmos o porquê de muitos de nós figurarmos na triste percentagem correspondente ao vermelho. Felizmente, da grande maioria que se encontra neste barco, houve um sorriso. Da parte de uma colega, seguiu ainda uma resposta, enumerando os vários porquês: doentes que não recebem a mensagem telefónica (nos recantos do hospital a rede por vezes não é a mais adequada), doentes envelhecidos, doentes com menor literacia (uma vez que a mensagem telefónica não explica a posologia, ficando os doentes à mercê de boas ou más farmácias). Mas sinceramente já acho estas explicações um esforço inglório.

Registamos assim no presente um upgrade, pela teimosia de mantermos o nosso comportamento para melhor defesa do doente, em que saltamos da interpelação dos próprios para acções via direcções de Serviço. Mascaradas de boas intenções, com promessas de ganhos em qualidade e saúde, não há na verdade uma procura de efectivas soluções, como simples acções de melhoria de redes ou aquisição de novos computadores…subsiste apenas a busca de um controlo coercivo de um comportamento, com o objectivo último e cimeiro de atingir a liderança nos “hospitais sem papel”. Quem sabe para concorrer e ganhar este ano um prémio de eficiência da tutela. Afinal não é para isso que todos trabalhamos?”

Nota minha como investigadora: este testemunho revela a introdução de métodos de gestão das fábricas automóveis nos Hospitais para vigiar e controlar os actos médicos, retirando capacidade de autonomia aos médicos; se não resistirem – como fez este médico – o caminho é a baixa auto-estima, perda de sentido do trabalho, depressão, burnout; revela a intenção de minar equipas, com o “vermelho” a ser conhecido de todos os outros, na realidade é uma mistura de perda de confiança uns nos outros, e um tipo de denúncia que configura algo como assédio moral colectivo, inculcando medo nos que não cumpram; responsabiliza o médico resistente por “consequências” para toda a unidade, ele pode ser responsável pela diminuição de financiamento, ou outras represálias por não cumprir o exigido; releva que o trabalho vivo, e real, nunca é igual ao trabalho prescrito – se este médico cumprir o que lhe foi exigido pela gestão não consegue tratar bem os seus doentes; revela enfim, politicamente, que a gestão profissional é um desastre em termos de utilização de recursos. Na verdade revela o seguinte: o valor de uso (tratar bem um doente) é incompatível com o valor de troca (fazer os hospitais dar lucro directo ou indirecto, na famosa “contenção de custos”, que é o alimento dos juros hiper lucrativos da dívida pública – daí o remate final do médico “estamos a trabalhar para o prémio da tutela”).

Gosto sempre de citar o professor Coimbra de Matos, que muito nos tem ensinado na equipa de estudo das condições de trabalho, quando diz que “é preciso uma revolução contra a violência”, explicando que esta violência e este caos diário, a competição e a desconfiança, em vez da cooperação. minam a vida e a saúde mental dos profissionais, e a revolução – dizer não – é um tempo de empoderamento e reacção organizada das pessoas a este caos. Ele diz mais, as pessoas com saúde mental não se adaptam a maus ambientes, mudam-nos.

5 thoughts on “A gestão que destrói o SNS e o país

  1. A contenção de custos não é líquida. Se por um lado poupamos no papel e no toner por outro lado o doente pode ser bastante prejudicado. Primeiro porque não emitimos uma receita mas sim uma guia de tratamento que é conveniente o doente ter na sua mão, no mínimo para controlo dos custos junto da farmácia, mas também para consulta da posologia e do número de embalagens que pode ser necessário disponibilizar a familiares ou outros profissionais de saúde. A poupança de uns cêntimos de toner e de papel é muito poucochinho, na minha óptica, face aos prejuízos que um doente mais iletrado ou dependente poderá sofrer. E na óptica das farmácias? Ajude a pensar nisso pois vai na direcção correcta. Um bom ano

  2. Sobre este texto, visando o tipo de gestão das pessoas (“seres humanos”) que trabalha num hospital (profissionais de saúde, neste caso, especificamente, médicos), é pertinente convocar o que escreve Paul Mason em “Um Futuro Livre e Radioso – Uma defesa apaixonada da Humanidade” (2019) na “Lição Nº 1” sobre a “criação de um Eu neoliberal”: “os seres humanos já não são relevantes”.
    Neste caso, o que que passa a “ser relevante” é a tecnologia (informatização) e, sobretudo, os “resultados” gestionários.
    A situação descrita, que diz bem (mal) sobre os “novos” modelos de gestão, é cada vez mais generalizável a outros contextos de trabalho.
    O que, aqui, talvez (ainda) mais interesse sublinhar é que, sendo certo que o trabalho de qualquer um sempre se repercute (directa ou indirectamente, imediata ou diferidamente) nos Outros, na sociedade, neste caso, sendo o objecto (e objectivo) do trabalho em causa a SAÚDE das pessoas, o quanto tais modelos de gestão, desumanizados e desumanizantes, se pode reflectir negativamente, não só na describilização da jóia da nossa democracia (o Serviço Nacional de Saúde) mas nos seus utentes, em todos nós.
    Porque … “o trabalho tem um braço longo”
    https://www.publico.pt/2018/01/13/sociedade/opiniao/servico-nacional-de-saude-o-longo-braco-do-trabalho-1799157

  3. trabalho num centro de saúde EPE e tb já passei por algo semelhante: recebi um email em que eu tb não pontuava bem num ranking sobre o mesmo assunto, embora sem o toque das cores; sou das que ainda se dá ao trabalho de responder enunciando os motivos para manter a prescrição em papel; felizmente recebi resposta (do presidente do CA) à minha resposta solidarizando-se com ela; tb importa que estas ‘chefias’/hierarquias intermédias (como os CA) tenham a capacidade de dizer não às ordens e directivas que são inapropriadas, em lugar dos ‘é estúpido mas tem que ser’, os ‘es muss sein’ que Kundera apontava como uma forma de colaborar, uma escolha, uma preguiça, uma inércia, tão daninha como a ordem inicial.

  4. Como escreveu Agustina, só pelo exagero se consegue demonstrar. Todas estas narrativas são exageros, grandes exageros.
    Alguém se intimida com a “cruzada da prescrição se papel”? Talvez os papistas, os mais papistas que o Papa.

    Cumprimentos.

    José Barros
    Diretor Clínico do CHUP

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s