Joacine e o Jornalismo Bizarro

Não acho que o principal problema da sociedade portuguesa é o racismo, nem o principal nem o décimo problema. Nem acho que o racismo seja o principal problema dos negros em Portugal. O principal problema da maioria dos negros em Portugal é que são mão de obra barata, para as limpezas e os bastidores dos restaurantes fast food, e isso é assegurado pela guetização estratégica dos bairros camarários, situados na periferia das empresas que é preciso limpar e dos shoppings que é preciso servir. E é assegurado pelas escolas TEIP, de currículos reduzidos e paternalistas, que impedem a mobilidade social. Isto chama-se capitalismo (palavra que nunca ouvimos a deputada pronunciar), não se chama racismo. Portugal não é o aparatheid nem o sul segregacionista norte-americano, nada menos do que a Ministra da Justiça é negra. Dito isto o massacre de que Joacine tem sido alvo já fede, como se diz no Brasil.

Ela não se pode mexer ou ficar quieta, falar ou ficar calada sem ter os media em cima dela, ao ponto de lhe ouvirem a respiração. O que contrasta com o líder de extrema-direita Ventura, tratado como um deputado normal, levado ao colo até por alguns canais, apesar do perigo que representa, sobretudo para quem trabalha e vive do trabalho. Ou com os do PAN, cujas bizarrias ultrapassam em muito as de Joacine. A bizarria começa em haver um partido que representa animais (e pessoas, acrescentado), o que já muitos assumiram que é normal. Um de extrema-direita, que irá mais tarde atacar operários em greve, essa é a sua função, outros a representar direitos dos animais, é aqui que chegámos…quem não compreende a decadência histórica dos ocasos dos modelos económicos, hoje o ocaso do capitalismo, pode achar que está tudo doido.

Todos os deputados têm nas suas vidas e opções fait-divers que não interessam a ninguém, a não ser a um jornalismo em crise profunda. Mas são os de Joacine que enchem as capas de jornais. E aí, lamento dizê-lo, eu que não sou feminista, nem apoio o Livre, nem acho o racismo um problema central da sociedade, tenho que concluir que Joacine é alvo permanente porque é mulher, negra e está só na sua bancada. O erro dela foi ter-se apoiado no que a destruiu. Foi não ter percebido que tinha que ser universal – cidadã deste país, trabalhadora, e não mulher, negra -, para se ter defendido disto. Ao usar as suas características físicas e não intelectuais para se promover destruiu as suas defesas. Podem por isso os media dizer, com razão, “ela põe-se a jeito”. Podem. Mas não devem. Nunca devemos aproveitar-nos das fragilidades dos outros. Neste caso não é uma fragilidade ser mulher ou negra, é-o fazer disso bandeira. É que é tão poucochinho para uma mulher negra no século XXI ficar-se por aí, na mulher e na negra.

PS: Espero que este tenha sido o meu último post sobre este “tema”. Já não sei para onde me virar em matérias sérias e urgentes, sinto sempre a cada dia que passa que estudei, pensei e escrevi menos do que devia, assuntos que mexem com a vida de todos e o país, e estou sempre a tropeçar no não-assunto, no vazio, no bizarro, no extravagante, que enche capas de jornais e páginas sem fim de artigos de opinião. E que se tornam assunto geral. Um dia destes, se não me ponho à tabela, estou no programa da Cristina a comentar a sua candidatura a Belém, e o Marcelo a ligar-nos a falar da última banhoca do ano… e um país infantilizado, desmobilizado politicamente, a achar que “querido, isto é que é um político de proximidade”.

9 thoughts on “Joacine e o Jornalismo Bizarro

  1. Ao classificar a raça preta como “negra”, existe uma ligação intrínseca à escravatura … daí o termo dos negreiros e o comércio de escravos.
    Parece que custa dizer preta, e parece mais suave a expressão “negra”.
    A realidade é que se somos brancos, os ditos “negros” assumem-se como pretos.
    Não é depreciativo, não tem conotação esclavagista … é apenas a designação pela cor da pele.
    Quando pensamos em usar termos ditos suaves para não ofender qualquer raça … é precisamente aí que nos estamos a auto-censurar … e é precisamente aí que somos racistas.

    • Está a usar o filtro anglo-saxónico quanto ao uso da palavra negro ou preto. Em Portugal “preto” tem uma conotação negativa (trabalhar é bom para o preto), enquanto “negro” não tem (pantera negra herói nacional). Não sei qual a sua idade, presumo que seja novo por ignorar esta distinção arreigada no uso da linguagem portuguesa, mas não confunda os contextos culturais a partir do cinema ou séries de televisão. Mas, em rigor, acho que a cor da pele nunca deveria ser mencionada por irrelevante. O que determina a distinção entre pessoas tem mais a ver com diferenças culturais e sociais. É isso que marca positiva ou negativamente cada um e define o sentimento de pertença a um determinado grupo.

      • «Mas, em rigor, acho que a cor da pele nunca deveria ser mencionada por irrelevante. O que determina a distinção entre pessoas tem mais a ver com diferenças culturais e sociais. É isso que marca positiva ou negativamente cada um e define o sentimento de pertença a um determinado grupo.»

        Tem imensa razão no que diz.

        Mas, se o for dizer ao grande público, leva com outro rótulo muito usado, para além do racismo – que é o da dita “xenofobia” (palavra ridícula, usada para censurar todo aquele que seja nacionalista e critique o fenómeno da imigração).

        De acordo com o poder estabelecido (políticos, grande capital e média de massas por estes controlados) não se pode descriminar segundo critérios como o país de origem – que obviamente dita diferenças culturais. Razão pela qual até já chegámos ao cúmulo de tal ser notoria e constantemente omitido (de forma propositada) aquando das notícias de certos tipos de crimes atípicos para a cultura portuguesa.

        Para se construir o “cidadão europeu” (que é uma clara artificialidade) há que erodir os diferentes traços nacionais – o que passa por substituir as diferentes populações europeias pelo mesmo tipo de imigrantes. De preferência, de países do Terceiro Mundo, onde as pessoas estejam habituadas a ser pobres e a classes dominantes opressores e desrespeitadoras dos seus direitos.

  2. Concordo com muito do que diz mas não concordo com o facto da Raquel recusar ver que há eixos de opressão no sistema capitalista além da classe. A raça, o género e a sexualidade (entre outros) também contribuem para a desigualdade social. A afirmação da raça é um essencialismo estratégico usado por minorias para obter direitos políticos.

    • Quanto mais apoios oferecerem à JOACINE, maior e mais profundo entranham nela essa coisa de se achar DISCRIMINADA. A única pessoa que a discrimina, é ela própria que, através da sua “pestilenta” forma de estar ou não em Sociedade é que cria, em si mesma o estigma que ela e mais pessoas dizem persegui-la.

  3. Estão sempre a falar da Joacine, exactamente por ela ser negra… Sendo também essa a razão pela qual o “Livre” a tornou cabeça-de-lista.

    Pois, o racismo sempre foi uma boa maneira de manter a plebe governada dividida e a lutar entre si, impedindo o progresso social.

    Repararam na denúncia de que o assessor de Joacine é (ou, segundo as palavras dum membro de uma sociedade secreta, “foi”) maçom?

    Os trotskistas (i.e. Bloco de Esquerda e seus novos partidos satélites) são, desde o tempo em que foram denunciados por Estaline e antes disso, maçons (h*tps://twitter.com/search?q=trotsky%20from%3AEstulinDaniel + h*tps://1.bp.blogspot.com/-GWRluCNwkOQ/UdRc1DW8_CI/AAAAAAAAA1k/YCtSMEqxq34/s1600/sinfonia.png). Isto é, são falsos socialistas, que estão na verdade ao serviço das elites, ou do chamado Grande Capital.

    Porque razão é que acham, por exemplo, que o Ricardo Salgado tanto elogiava a Mortágua? E, porque é que acham, por exemplo, que os trotskistas são tão a favor da União Europeia, que sabem as pessoas bem informadas ter sido criada pelos seus supostos inimigos capitalistas? (h*tps://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/1356047/Euro-federalists-financed-by-US-spy-chiefs.html)

    Um dos métodos usados, há séculos, para impedir que a plebe governada se volte contra os seus governantes, chama-se “Dividir para Reinar”.

    Sendo por isso é que, quer estes deputados, quer a imprensa capitalista, estão sempre a bater na tecla do “Racismo” – quando tal não existe verdadeiramente na nossa sociedade.

    Não sendo também mera coincidência que o pai da Maçonaria no sul dos EUA, Albert Pike, tenha sido um dos fundadores e líderes originais do KKK (h*tps://www.gutenberg.org/files/31819/31819-h/31819-h.htm) – que se traduz pela sequência maçónica “11, 11, 11”.

    Mas, como ninguém estuda a chamada “deep politics”, e só lêem todos é antes “histórias da carochinha” nos livros da dita “história oficial” (h*tps://twitter.com/BlackFerdyPT/status/1194644985775304704) são eternamente vítimas deste tipo de esquemas, sem que disso se apercebam (h*tps://www.forumdefesa.com/forum/index.php?topic=13296.msg318850#msg318850).

  4. Raquel Varela

    “(…) Dito isto, o massacre de Joacine tem sido alvo, já fede (..).Ela não se pode mexer ou ficar quieta, falar ou ficar calada, sem ter os media em cima dela ao ponto de lhe ouvirem a respiração ”

    A Raquel Varela certamente que não desconhece que Joacine, está a mostrar uma ânsia de protagonismo tão bacoco quanto infantil, um exibicionismo destemperado, por vezes com laivos de racismo contra os brancos, um exibicionismo cretino, visívelmente com a intenção de chamar sobre si, os holofotes dos “média”.

    Agora, sobre uma fotografia de grupo na A. R., em que ninguém a obrigou a figurar, resolveu dar mostras desse autoritarismo tão ridículo quanto sem razão !

    NOTÍCIA DO EXPRESSO :

    “Os serviços da Assembleia da República terminaram, ao final da manhã desta terça-feira, com um diferendo que se arrastava desde ontem entre os membros da comissão parlamentar de Ambiente. Motivo? A fotografia oficial tirada com todos os deputados que constituem aquela comissão e que, depois de publicada no site do Parlamento, foi enviada por e-mail a todos os membros. Joacine Katar Moreira, a deputada do Livre, não gostou. E fez questão de avisar: “não autorizo a publicação desta imagem”.

    Por isso, , cara Raquel Varela,,lamento, mas…sobre Joacine, o que eu tenho a dizer, é isto :

    CARA JOACINE : Espero que com o tempo, APRENDA que o exibicionismo sem freio, de que por vezes dá provas, É MAU CONSELHEIRO, E SÓ A PÕE A RIDÍCULO.

    Desde o assessor de saias, ao GNR a quem “solicitou protecção” para a acompanhar ao Hemiciclo, NÃO DÃO BOA IMAGEM DE SI !

    Modere-se, modere-se, JOACINE ! NÃO DEITE BORDA FORA, NEM ABUSE DO CAPITAL DE SIMPATIA QUE MUITOS PORTUGUESES (eu incluído…) LHE DERAM…
    Porque, para fantochadas , a Assembleia da República já lá tem um fantoche e…”CHEGA” !

  5. Raquel Varela,
    Permita-me discordar de si nessa reflexão pública porque julgo ser quase bizarro admitir-se quanto mais concluir-se que o foco ou atenção da comunicação social portuguesa na pessoa da Deputada Joacine Moreira se deve essencialmente ao facto dela ser mulher e negra.
    Creio que não é por ser negra e muito menos
    apenas mulher que vem sendo alvo de atenção ou mesmo críticas, seja de que natureza for.
    Como sabe, felizmente, temos mais mulheres negras e coincidentemente suas contemporâneas no Parlamento. E nem por isso essas outras igualmente mulheres e negras são alvo de qualquer atenção ou críticas invulgares.
    Portanto, convinha que reconhecêssemos que, feliz ou infelizmente, a realidade objectiva dos factos ou fenómenos sociológicos nos elucida, sem sombras para dúvidas, que a constante ribalta comunicacional que envolve a Deputada Joacine é sim fruto e consequência directa da sua própria opção ao modo de estar e/ou fazer política.
    Agora, resta saber se é uma opção involuntária ou seja genuína do seu carácter ou se, pura e simplesmente, estamos perante uma estratégia premeditadamente concedida e delineada para GANHAR a notoriedade e quiçá também a imprescindível autoridade para impôr as suas próprias ideias e pensamentos quer no interior do seu Partido e/ou, quiçá também legitimamente, na própria sociedade.

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