Aqui é a barbárie

Dois jovens morreram em condições de violência extrema mortos por outros jovens, na mesma semana. Tudo indica que num caso 15 brancos mataram um negro, e noutro caso 3 negros esfaquearam um branco. Se um é um crime político (gosto pouco da expressão “crime de ódio” para crimes racistas, racismo é política), acho que era de bom tom não fazer destes casos uma espécie de barricada. A extrema violência em grupos de jovens, a desproporção total que não olha a qualquer limite ético, 15 para 1, armados contra desarmados, deve ter uma análise própria se for politizada – por exemplo, organizada pela extrema direita, isso não pode ser relativizado. Mas recuso-me a fazer disto um campeonato, do género “o meu crime é pior que o teu”. Percebam uma coisa, chegados aqui, ao assassinato destes dois jovens, não há mais fundo, não há pior. É a barbárie.
Ambos os casos nos devem merecer igual repúdio, são chocantes, merecem uma reflexão profunda sobre a sociedade em que vivemos. Quem segue esta página imagina, creio, o que penso disso: antes de negros ou brancos o que temos é uma sociedade brutal, com desemprego e empregos de merda (como agora se diz nos media ingleses, assim, “empregos de merda”), sem futuro risonho para largas camadas da população, sim, não sonham; competição doentia, que vem desde a sala de aula, onde se estimula o individualismo e a ausência de cooperação; isolamento e relações sociais cada vez mais degradadas, famílias pequenas e sem tempo, agarrados aos jogos e telemóveis, sozinhos, durante horas e horas, desde pequenos, sem relações sociais densas; media degradantes onde o superficial e a violência gratuitas são o pão nosso de cada dia (até os programas de culinária que deviam ser divertidos são espaços onde os concorrentes são tratados abaixo de cão); onde um Conselho de Administração de um Hospital diz que levar pancada de um doente “faz parte dos riscos normais da profissão”; onde qualquer CEO aparece nos filmes de Hollywood, como um homem de sucesso, a dizer aos empregados “aqui só os fortes sobrevivem”; onde há mais encontros a favor da adoção de gatos do que manifestações pela educação ou saúde. E ainda – cereja no bolo – quando, por acaso, assistem ao telejornal vêem algo como o Presidente do maior país do mundo, Trump, a mandar assassinar, como se estivesse num vídeo jogo, um inimigo, sem julgamento, com um drone, e sem guerra declarada, e anuncia-o no twitter como quem fala do vinho que bebeu no último jantar. Tudo isto é a barbárie, doses diferentes da mesma degradação social, onde milhões crescem.

7 thoughts on “Aqui é a barbárie

  1. É lamentar que a “comunicação social”, na sua grande maioria se preocupe mais com o futebol do que dar a conhecer o que se passa neste País!!! Uma vez mais obrigado pelo seu excelente texto

  2. Uma sociedade que me deixa perplexa…. um futuro acerca do qual é muito difícil fazer prognósticos. A falta de valores, princípios, honra, dignidade e sentido de justiça está a transformar o mundo, que até parecia estar num ciclo evolutivo, num lugar caótico.

  3. Há de facto muita gente a debater este problema da forma errada. Ainda não me referi a nenhum destes dois crimes, porque fico com a sensação de que qualquer lado por onde pegue nunca é o lado certo. E é estranho.

  4. Ainda será pior, minha cara senhora. O tempo de colher o que se andou covardemente a semear, vai chegando. E se pensa que serão resmas de crónicas tão bem escritas como as suas que resolverão o problema, desengane-se. Esta nova horda de exilados dos afectos não lê, não tem espírito crítico, não conhece limite nem valores. Quanto começaram a bater nos professores os ilustres pensadores, cronistas e políticos deste país, assobiaram para o lado. Quando batem nos médicos e nos polícias, toda a gente acha o máximo. Agora, aturem-nos!

  5. Concordo plenamente, cara Senhora, ainda ontem ouvi o António Nunes, presidente de uma célebre coisa que dá pelo nome de OSCOT, a argumentar que não são crimes de ódio, nem há um agravar da criminalidade, que a culpa da coisa é das polícias que fazem pouco policiamento de proximidade e das câmaras municipais que autorizam estabelecimentos de diversão e parques de estacionamento em zonas problemáticas, sem luz e sem câmaras de vigilância. Ora, não negando que também considero importantes tais coisas, penso que o real problema do país em relação à violência é exactamente este que aponta: falta de educação, falta de civismo, falta de empatia, falta de princípios e tal coisa não se resolve com um polícia atrás dce cada cidadão, ou com uma câmara de vigilância apontadsa a cada pessoa.
    Estamos mal e a barraca é dirigida por uma data de energúmenos que não pretende melhorar coisa nenhuma . . . e o pior é que penso que o “António” que escreveu aqui por cima, tem razão: “estamos mal e vai piorar.”

  6. A Raquel escreve que prefere a expressão “crime político” a “crime de ódio”, mas escreve logo a seguir que a violência pode ser organizada, por exemplo, pela extrema-direita. Se um crime político é um crime politicamente organizado, então há mesmo uma diferença entre um crime político e um crime de ódio, porque todos os crimes políticos serão crimes de ódio mas nem todos os crimes de ódio serão crimes políticos. E há também uma diferença entre um crime de ódio e um crime comum: não é a mesma coisa um grupo de brancos matar um negro por ser negro e um grupo de negros matar um branco para lhe roubar o telemóvel.

    • E consegue tipicar um como sendo crime de ódio e outro como sendo crime comum? De que forma, pelo número de participantes de um e de outro? Ambos são crimes de ódio e devem ser julgados como tal.

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