Sobre a agressão a uma médica no hospital de Setúbal – Gonçalo Cordeiro Ferreira

Leiam, é curto. Um texto irrepreensível que demonstra bem como há médicos de excelência neste país que vêem muito mais além do que os Governantes que têm a tutela. Felizmente ainda não emigraram – os médicos.
Para quem continua a chamar corporativos aos médicos este texto é uma lição porque seria tão fácil inculcar as culpas no indivíduo a ou b e desresponsabilizar as políticas desastrosas em curso.
Estudo muitas categorias de trabalhadores em Portugal, são poucos os que perante uma ameaça directa a um profissional vêm reagir não se fechando sobre si, mas defendendo o conjunto da sociedade. É uma atitude de uma imensa superioridade ética.

“A tristíssima ocorrência com a colega agredida com gravidade na Urgência do Hospital de Setúbal, no exercício da sua atividade profissional, tem responsáveis diretos e indiretos e não pode passar em claro.
Em primeiro lugar a perpetradora da agressão, utente da urgência, seja quais forem as eventuais circunstâncias mitigadoras (embriaguez, insanidade mental, etc.), tem de ser levada à justiça.
As medidas terão de ser duras, pois não se trata de incidente isolado, mas de um culminar de agressões físicas, verbais e psicológicas, que diariamente têm lugar nas urgências, enfermarias e centros de saúde, por todo o país, e que atentam contra o respeito e a segurança mais elementar de médicos e outros profissionais de saúde.
Num país que se prezasse este Conselho de Administração seria hoje ainda demitido pela tutela.
Por detrás do estado do SNS português, estão décadas de insuficiência política e governativa para gerir a saúde dos portugueses. Incapazes de contribuir para a literacia da saúde dos cidadãos, sem conseguir criar redes de atendimento sequencial com suficientes médicos de família e horários diversificados para responderem aos problemas reais dos utentes, os governantes puseram as fichas todas numa urgencialização da medicina pública, procurando esconder as carências de uma resposta estruturada, satisfazendo as necessidades imediatas num qualquer serviço de urgência.
O pior foi que nos últimos tempos o controle financeiro falou mais alto e impôs limites a esta política de urgências em primeiro lugar, sem, contudo, haver vontade e coragem de a reformar.
E o que se viu de Vítor Gaspar a Mário Centeno foi só cortes: nos ordenados e nas carreiras médicas, nas horas extraordinárias, nas contratações; aumentos só nos impostos, o que levou (o que é que achavam?) a reduzir o número de médicos disponíveis para tão duras tarefas, causando enormes constrangimentos no funcionamento das urgências.
Ou seja, em segundo lugar, são – pois – políticos e governantes os responsáveis indiretos por (muita) omissão e (pouca) ação, deste caos e do enorme ressentimento da população contra os médicos, que eles nunca se preocuparam em defender.
Mas, finalmente, com responsabilidade direta e indireta clara neste incidente está o Conselho de Administração do Hospital de Setúbal que, perante o caso, terá dito que “no exercício das funções da prestação de cuidados aos utentes os profissionais de saúde estão sujeitos a riscos que tentamos minimizar”.
Ora tendo uma responsabilidade direta de garantirem a segurança de quem trabalha para o seu Hospital, no seu perímetro, têm também indiretamente o ónus de não perceberem ou quererem perceber que têm essa responsabilidade.
Então os médicos estão sujeitos a riscos e, como o Conselho Administração só os tenta “minimizar”, que devem fazer para se proteger? Contratar seguranças privados? Atender os doentes através de frinchas nos gabinetes?
Num país que se prezasse este Conselho de Administração seria hoje ainda demitido pela tutela. Caso contrário caberá aos médicos que aí trabalham, não o fazerem até que esse distraído Conselho de Administração tome medidas que superem essa minimização dos riscos.
O que os médicos não podem aceitar mais é serem escolhidos como as vítimas a imolar perante a população pelos erros de décadas na programação política da saúde e pelas insuficiências de Conselhos de Administração timoratos, incapazes de defender os seus profissionais.
Temos de reagir pela nossa defesa, respeito e segurança.”

Gonçalo Cordeiro Ferreira, Lista A

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2 thoughts on “Sobre a agressão a uma médica no hospital de Setúbal – Gonçalo Cordeiro Ferreira

  1. «enorme ressentimento da população contra os médicos»

    Nem toda a gente é tão *estúpida* quanto são as pessoas que agridem os profissionais de saúde…

    E, duvido até que haja uma maioria de pessoas que culpe os médicos e afins pelos piores atendimentos a que se assiste agora.

    Quem tem um mínimo de neurónios sabe que os médicos fazem o que podem, perante a cada vez maior escassez de meios. E, por mim, fico até agradecido a estes por não se terem ido já embora – pois, eu no lugar deles já o tinha feito (por considerar que é a população, em geral – que vota em corruptos, ou que decide cruzar os braços perante a situação e continuar a pagar salários a corruptos – a responsável última por tudo isto).

  2. Desgraciadamente tengo en mi corpo o lamentable peso duma agressao.Tres meses años disto recevi a conta para pagar al hospital.O mesmo no qual trabalhaba.Algumos pesdoa disserom,en voz alta,”Tera merecido o acontecido”Y continuarán as agressoes.E continuarán.Penso mal e acertarei.

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