Gerindo o declínio

A Ministra da Justiça homenageou o Ministro da Ditadura da Justiça Antunes Varela na semana do aniversário da morte pela polícia política do pintor anti fascista Dias Coelho, morto quando Antunes Varela era Ministro. Foi Ministro da Justiça – como tantos lembraram – quando Justiça era sinónimo de prisões, tortura, assassinatos políticos, censura. Não existe excelência técnica em Direito quando o Estado é de Excepção.

Em arte deve-se distinguir a obra do autor porque a arte é o reino da liberdade. É por isso que Polanski, por exemplo, não deve ser proibido. Também não se deve deixar de estudar nas Universidade Antunes Varela, se produziu ciência jurídica. Mas homenagear, com a Ministra presente, o presidente do Supremo presente e na Universidade, aí entramos num campo perigoso, são instituições públicas de um Estado democrático a homenagear um fascista. Em política não existe liberdade ilimitada, a política é o reino do realismo: não existe domínio técnico bom que teria sido mal aplicado pela ditadura, porque fins e meios são indissociáveis. Van Dunem homenageou um fascista “de excelência” – havia muitos neste país, gente que colocou o seu saber vasto e conhecimento denso ao serviço de barbárie.

Não estivéssemos nós em gestão do declínio, que é também o declínio ético (que não percebe a diferença entre justiça e vingança ou entre justiça e cumplicidade diplomática), e a rigor a Ministra não se manteria em funções depois desta homenagem. Falta-nos a excelência de uma oposição que trave este declínio – disso não há dúvidas. A história do século XX não é, como tantos pensam, feita de santos e vilões. Na maioria das vezes é feita de pessoas normais, nem muito más nem muitos boas, que não percebem a diferença – às vezes ténue, cinzenta, e de difícil escolha – entre resistir e colaborar.

2 thoughts on “Gerindo o declínio

  1. Não é por acaso que este governo ( e o ex-governo) é, chamado por muitos de nós de direita…As posições politicas que têm vindo assumir alguns ministros (e não só), já não vou referir-me às económicas ,por que essa têm sido desastrosas e até fascistas…
    No governo de Passos /Portas/Cristas, tutelado por Cavaco essas foram de grande traição-nacional….

  2. A genialidade não é característica do individuo é fruto da sua circunstância. A genialidade que reconhecemos transporta consigo todo o defeito e a imperfeição, nada é separável e nunca é fácil olhar para dentro, nunca é fácil perceber que a nossa grandiosidade é na verdade a nossa incontornável pequenez. A vida virtuosa não pode ter um alcance restrito, essa é a vida de quem nunca deixará de estar sozinho.

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