Vendem-se Médicos

Quem acha que vamos trocar médicos portugueses por brasileiros, vendendo os nossos, comprando os outros (é isso que é migração forçada de força de trabalho), tem uma ideia errada da vida em sociedades humanas, mas também uma ideia equivocada de economia. Nas sociedades humanas as pessoas não deve ser obrigadas a largar a família, amigos, relações sólidas e densas, para ir vender força de trabalho num qualquer canto do mundo. Temido não pensa assim, pensa que os médicos são mercadorias. Ora, no Portugal e Costa e Passos Coelho, não existe sequer valor para copar médios brasileiros. Os médicos brasileiros não irão para Portugal, irão directo para a Alemanha ou os EUA. Em câmara mais lenta está a acontecer ao nosso país o que aconteceu aos países “intervencionados” pelo FMI na África em 1980. A força de trabalho qualificado está a fugir, exilada, forçada, pela ausência de condições de trabalho, e os países centrais ricos ficam com esta força de trabalho, sem custos de formação, e a pressionar os salários dos seus médicos (alemãs, ingleses) para baixo. Portugal é hoje um país onde se vende tudo – mas em primeiro lugar vendem-se portugueses.

Essa é a especialidade destes Governos, que contam com uma oposição de esquerda – a única que poderia enfrentar isto – catatónica, inábil, e, lamento dizê-lo, mas cobarde, acomodada ao Estado. O Governo de António Costa, com Marta Temido como Ministra da comunicação da saúde – sim, a sua especialidade é falta de vergonha quando diz as maiores barbaridades e conseguir manter um ar calmo e sereno (duas coisas que se aprendem bem nas escolas de gestão) – é vender força de trabalho, é vender propriedades (sector imobiliário), é transformar este cantinho à beira mar plantado num entreposto comercial em que, para salvar banqueiros falidos e negócios onde o PS/PSD/CDS estão submersos até aos cabelos, se dispõe a arruinar os serviços públicos, apesar da carga fiscal cada vez maior que todos pagamos – esse é o défice baixo de Centeno – trocar serviços por remuneração de dívidas falidas, para isso se cria orgulhosamente excedente orçamental.

Se alguém acha que se safa disto com o sector privado, fazendo seguros de saúde, esqueçam – o sector privado vai ser um novo BES, BPN e PT, rende por mais dez anos ou menos, a seguir entra em falência. Portugal não tem escala para o sector privado existir sem público.

Tenho esperança que Costa, Passos, Temidos, Centeno, Rio, e todos estes tipos com mais ou menos liberalismo, de esquerda ou de direita, ainda assim correctores financeiros que assumem pastas de governantes de uma sociedade, sejam surpreendidos por outro 25 de Abril, quando os profissionais de saúde souberem dar a volta a isto, e confiarem mais em si, na sua capacidade de lutar e construir um SNS, do que no Estado. Contarão sempre comigo, incondicionalmente, ao seu lado. O SNS é a base da civilização – sem ele não existimos.

5 thoughts on “Vendem-se Médicos

  1. Apreciei muito este seu artigo, constitui uma reflexão notavel
    Só não posso concordar quando diz qur há uma oposicão de Esquerda em Portugal, se havia , deixou de haver por artes magicas de Antonio Costa

  2. Isso é a discriçao da genese do Espaço Schengen…..Mao de obra mais barata pros paises centrais e facil escoamento de produtos para os paises periféricos…

  3. Ao longo dos anos tenho manifestado o descontentamento pela politica levada acabo pelos sucessivos governos, e (mais ainda), quando se diz que temos (tivemos) um governo de esquerda, com apoio de pessoas que se dizem de esquerda! Por fim; quanto ao seu artigo mais acima é, de facto (na prática), aquilo que se passa (tem passado). Estarei sempre ao lado da verdade e contra os corruptos e amigos dos mesmos. Uma vez mais obrigado pelo seu excelente artigo…

  4. De facto começa a ser assustador a política deste governo. Mas tendo em em conta o que vai acontecer as pensões baixas que sendo as perspectivas da inflação para 2020 superiores a 1,5 % a perda de poder de compra vais ser brutal. Ainda criticavam os PAFianos por querem cortar as pensões, ele vão fazer o mesmo mas lentamente e iludindo com a baixa do irs. Vergonhoso.

  5. obrigada Raquel Varela. temo pelo SNS e, sim, desenganem-se todos os que julgam que os privados são a solução. os privados não darão conta da saúde dos mais doentes, dos mais vulneráveis, dos mais pobres (profundamente ligada à sua pobreza), nem do envelhecimento populacional, nem da multimorbilidade. o SNS está esfomeado, ainda mexe, mas a sua reserva de energia e de resiliência está prestes a esgotar.

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