Os que sucumbem e os que se salvam

Agora a Ministra foi visitar a mãe à prisão. O caso da mãe que abandona o bebé no lixo continua a ser um divisor moral em Portugal. Este caso diz muito sobre o mau estado em que estamos ética e politicamente. A mãe é negra, imigrante, sem abrigo e prostituta – logo teria todas as condições para “merecer” a nossa empatia – é assim que pensa uma parte da população, o PR e a Ministra. Essa não é a minha opinião.

Estive em silêncio esperando saber se a mãe tinha uma perturbação mental – nesse caso toda a empatia era pouca. Não é o caso. É uma mulher, com uma vida sofrida e tremenda, que abandona o filho, sem roupa, no lixo. Faz parte sociologicamente do pior que a sociedade capitalista gera todos os dias – o lumpenproletariado. Pessoas que aí caíram pelas mais diversas razões, e que a sociedade desigual gera todos os dias, mas que não podem ser a nossa bitola moral, sob o risco de deixarmos de ter sociedade. Na verdade todos os dias milhares de mães negras imigrantes acordam às 3 da manhã no nosso país para – por 2,5 euros à hora – ir limpar escritórios, para cuidar dos filhos. Nunca foram visitadas pela Ministra da Justiça, ainda que não consigam sequer alimentar-se com o que ganham, tendo que recorrer a bancos alimentares. Elas sim, merecem toda a nossa empatia. O PR também não se fotografou com elas, ali à porta da PT, do Novo Banco, da TAP ou da EDP, a limpar de madrugada os escritórios onde se traçam as grandes estratégias do aumento do PIB e dos valores da bolsa. O PR e a Ministra também não visitaram os camionistas, estivadores ou enfermeiros, porque esses não são vítimas, são lutadores. Alvos da fúria Estatal quando ousaram questionar as más condições de trabalho.

Na verdade a Ministra vai visitar vítimas, indefesas, culpadas ou não, mas não gente digna que não sucumbe – como as mães negras que trabalham; ou gente forte, que ousa lutar e questionar socialmente o metabolismo social da desigualdade e da barbárie social que gera estes dramas, como a prostituição ou a pobreza extrema. Há uma pedagogia dos coitados, e não uma defesa dos resistentes.

Acrescento uma nota – não foi o sem abrigo com que o PR se fotografou que salvou o bebé, foi o INEM e a neonatologia do Hospital Dona Estefânia, sustentada com os impostos de quem trabalha. Um sem abrigo não se consegue salvar a si próprio, quanto mais um bebé. Um sem abrigo precisa de ser salvo, não pode salvar ninguém. É bom pensarmos nisto na hora em que fecham progressivamente um dos maiores hospitais pediátricos do país, o Garcia da Orta, onde também a Ministra e o PR ainda não foram. Precisamos de mais Estado Social, mais política sérias, e menos caridade para passar nas televisões em horário nobre. Temos que crescer e ser adultos, em vez de viver de emoções fáceis.

Precisamos realmente de outro tipo de políticos, para uma outra ética, baseada em valores muito superiores aos que hoje mobilizam os nossos afectos. São afectos tristes, não são afectos transformadores. Despejar um filho no lixo, por piores que sejam as condições que levam a isso, é intolerável. A nossa bitola social não pode ser os que sucumbem, tem que ser os que se salvam. Por cada mulher que sucumbiu à brutalidade social em que vivemos, há milhares que continuam o caminho difícil, e há ainda poucas que resistem. Se queremos salvar os que sucumbem temos que nos apoiar nos poucos que resistem – são esses que fazem a diferença. E admirar os que – sem resistir – pelo menos continuam a viver de espinha erguida. Precisamos de respeitar quem vive do trabalho, e apoiar quem luta por um mundo melhor – essa é a bitola ética que nos deve mobilizar.

12 thoughts on “Os que sucumbem e os que se salvam

  1. Bom dia Raquel Varela, voltamos a concordar, exceto no papel dos sem-abrigo que retiraram o bebé do ecoponto. Sem eles, e não o que foi entrevistado, o INEM nunca teria sido chamado. Quanto ao resto subscrevo.

  2. Raquel: certeira, como é hábito. Subscrevo tudo, mas há um reparo: o hospital é de Garcia de Orta, e não do Garcia da Horta.

  3. “(….) em vez de emoções fáceis “. É isso mesmo Raquel! Tudo se tornou num espetáculo de vaudeville a puxar ao sentimento. As televisões só dão notícias sensacionalistas, mas não questionam nada! Não contextualizam! E o povo consome, como quem come um doce..
    E, depois, omnipresente, está o nosso PR, sempre pronto para a selfie, prós beijinhos e abraços.
    É a queda da civilização ocidental!
    Um “bravo” de pé pelo seu post!

  4. As pessoas sucumbem porque são deixadas sozinhas seja o mais heróico resistente ou o mais incapaz dos conformados. Confundir a pessoa com a sua realidade objectiva é em ultima análise a exaltação do “eu”. O aparecimento do presidente da república ou da ministra no caso retratado são a evidência da desistência e não o contrário. A caridade é um acto de sobranceria, não de plena dignidade.

  5. A melhor análise que vi de toda esta polémica… Parabéns!

    Eu próprio, depois de ter ouvido uma entrevista a uma muito conhecida figura defensora dos direitos da crianças, ainda recuei um pouco, por admitir a hipótese de se poder tratar de alguém com sérios problemas mentais. Mas, se não é esse o caso, obviamente que se trata este de um acto intolerável.

    O facto do poder estabelecido (Presidente da República e afins) prontamente querer retratar a mãe em causa como “vítima”, faz obviamente parte do constante e contínuo processo de *legitimação da irresponsabilidade* por parte deste mesmo poder – obviamente, com vista a fazer dos actuais seres humanos, que constituem a sociedade, meros animais sem valores (e, por isso, fáceis de controlar e explorar).

    É a mesma história de que com a legalização do Aborto (sei que a autora deste blogue quase certamente discordará deste aspecto, em particular) relativamente ao qual o poder estabelecido não desistiu enquanto não obteve um referendo favorável (mas deixou de referendar o mesmo, após tal ter sido legalizado).

    Na Finlândia, por exemplo (que, tal como os restantes países nórdicos, serve de “ponta de lança” para os projectos sociais do poder estabelecido ocidental) já chegaram a um cúmulo em que, quem mata outra pessoa, vai para o que mais parece ser um campo de férias, em vez de para uma prisão (h*tps://www.euronews.com/2019/07/19/finland-s-open-prisons-a-model-for-the-rest-of-europe) – porque, sabem, os criminosos são todos “vítimas da sociedade” etc.

    Se os criminosos são todos “vítimas da sociedade”, então calem-se com as críticas aos políticos, capitalistas e restantes poderosos – que, essencialmente, são diferentes do comum criminoso apenas no grau de inteligência (por se terem apercebido de que, se cometerem os crimes dentro do próprio sistema, por norma não vão presos). Pois, estes últimos, mais do que “vítimas da sociedade”, são então também usualmente “vítimas” da educação familiar que tiveram.

  6. Thank you. I am so grateful for getting to read your writings. Um imenso abre-olhos. Sem a Raquel, seríamos tão mais pobres. Preciso de mais política desta na minha vida.

  7. Admirável, muito louvável, extraordinário, não há modelos perfeitos, mas chegamos á épica natureza dos profetas “políticos selvagens”, que nada são, senão uma aberração de modelo de nada. Faz sentir os humanos pessoas, a realidade da vida, do sentido dela; isto porque a grande maioria das pessoas sente essa realidade, sem pestanejar, bem haja, Raquel. Vive-se uma fase de propagandistas de nada. Cabeças ocas, da exploração da ignorante sociedade. DE FACTO NUNCA ESPEREI VER ALGUÉM DIZER O QUE FOI FEITO Á SOCIEDADE PORTUGUESA NESTE ÚLTIMOS 40 ANOS. ISTO A QUE EU ASSISTI E ELABOREI PORQUE TRABALHAVA COM QUEM ASSIM MANDAVA ELABORAR.
    “TEMOS QUE LEVAR O ENSINO À ESTACA ZERO, ATÉ AO ANO DOIS MIL, PARA DEPOIS MOLDAR A SOCIEDADE À NOSSA MANEIRA”. A HISTÓRIA REPETE-SE, EM CICLOS DE TANTOS A TANTOS ANOS. Verdade, já está. Bem haja, Raquel, nunca esqueço, não é iluminada, mas realista, como não há. Parabéns, as maiores prosperiades, de objetivos de vida.

  8. A isto chama-se um Estado decrépito ou fantoche, nada tem a ver com democracia, é assim que estamos, onde tudo é por conta do faz de conta; provável mente, esta crise de valores já vem do Sebastianismo, e do crescimento dos mercadores, corrijo dos navegadores – vender, vender, vender. Continuamos assim.

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