O Direito ao Voto não é uma conquista das sufragistas

Ontem a propósito do meu post sobre feminismo perguntavam-me aqui se eu não gostava de votar. Já que esse direito tinha sido conquistado pelas feministas sufragistas. O que não é verdade. Faz parte da teoria, dominante, de que os direitos democráticos são filhos das lutas democráticas e não das revoluções sociais. Vejamos, se há algo que me incomoda no feminismo actual é a arrogância com que afirmam ter chegado ao mundo para mudar a vida das mulheres. A vida das mulheres no século XX na maior parte dos países foi já mudada por lutas corajosas das nossas avós e mães, que sobretudo a partir da década de 60 nos abriram um mundo novo – e fizeram-no com riscos. Portanto afirmar hoje o feminismo como uma novidade é um desrespeito com o passado…

Mas não, não foram as corajosas sufragistas que nos deixaram o direito ao voto, foram os “bêbados e sujos operários russos”, liderados por Lenine, menos bêbado, tudo indica, mas um galã, também reza a história. O direito ao sufrágio universal, incluindo o feminino deve-se a muitas lutas de mulheres, mas sobretudo deve-se aos operários russos, que desertaram da guerra e deram assim o primeiro tiro da revolução russa – é a seguir à revolução russa, e não depois das lutas das sufragistas, que as mulheres em alguns países do Ocidente conseguem votar pela primeira vez. É aliás na Rússia que são pela primeira vez eleitas, e é no Ocidente, com medo da revolução russa, que os homens, burgueses, cedem no direito ao voto feminino. As mulheres tiveram um papel na revolução russa, nomeadamente nas primeiras manifestações, no apoio e nas ocupações de terras, mas esse papel foi secundário. O grosso do sangue e das lutas e da direcção política na Rússia foi protagonizado por homens, porque as mulheres estavam fora da produção, relegadas ao trabalho camponês e doméstico na sua maioria. E a revolução russa é a principal causa no século XX do voto no Ocidente. Incluindo do voto feminino. Embora as sufragistas, burguesas, e até aristocráticas, me mereçam muito respeito pela corajosa luta que travaram, essencial no campo das ideias mas secundária no campo das lutas. A não ser para os filmes de Hollywood.

Sou realmente a favor da igualdade, por isso não convém deturpar a história. O papel de liderança feminina no século XX – que continua muito aquém do desejável – dá-se sobretudo por dois factores, as revoluções sociais, e a incorporação destas pelo capital ao mundo do trabalho assalariado. Ou seja, depois das duas guerras mundiais e da cada vez maior utilização da força de trabalho feminina na produção de valor. A história não se altera. Pode-se e deve-se transformar o futuro. Sem mentir sobre o passado.

4 thoughts on “O Direito ao Voto não é uma conquista das sufragistas

  1. Tenho para mim que o movimento feminista dos nossos dias constitui um aparelho ideológico do estado (como todos os parelhos ideológicos de estado, a sua finalidade é asseguar o funcionamento e a reprodução das relações de exploração), principalmente através do seu carácter isolacionista/desmobilizador/”ignorantizador” relativamente ás lutas sociais orientadas para a tansformação das relações de produção em benefício dos explorados (a luta económica dos explorados é por eles subalternizada, ignorada ou mesmo apagada relativamente a outros conceitos de operacionalidade duvidosa como a desigualdade dos sexos, a desigualdade numérica em instituições, a hegemonia masculina, etc.). Tal papel divisionista tem longas raízes históricas, nas mulheres “5K” (Kammer, Kinder, Küche, Keller, Kleider) do luteranismo do séc. XVII, “actualizadas” nas mulheres “3k” (Küche, Kirche, Kinder) da Alemanha bismarkiana mais tarde retomada pelo nazismo. O feminismo identitário tem objectivamente a função de ser a ideologia que separa/desliga (e por vezes antagoniza) mulheres e homens na luta mais fundamental para todos e relativamente à qual todos são iguais: a luta contra a exploração.

    • Algo que ficou por dizer, apesar de (dever) ser evidente sem mais explicações: oviamente que, hoje, os “3k” não são os mesmos; mas são “objectivos” (de vida, de acção política, etc.) igualmente desligados das lutas económicas em que o lugar das mulheres (as exploradas e as agentes da exploração) é igual ao dos homens.

  2. Enquanto os homens não se emanciparem as mulheres não tem condições para o fazer, vivemos numa sociedade podre e corrupta. esta é realidade! Eu quero uma sociedade livre, democrática e independente, para os meus filhos e netos, e não esta

  3. Excelente texto (no aspecto em que, abre muito os olhos para a mentira vigente). 🙂

    Realmente, só alguém com um conhecimento profundo deste tipo de assuntos é que nos poderia elucidar e corrigir sobre isto.

    (Obrigado, Dra. Varela!)

    E, um acrescento próprio…

    Eu não sou nenhum cientista social. Mas, por andar há uns bons anos a pesquisar sobre o que se passa nos bastidores políticos, posso acrescentar – o que foi revelado ao realizador estadunidense Aaron Russo, que é – que esta nova vaga de “feminismo” moderno é uma criação das próprias elites governantes, com objectivos ocultos que beneficiam tais elites:

    «In a later conversation, Rockefeller asked Russo what he thought women’s liberation was about. Russo’s response that he thought it was about the right to work and receive equal pay as men, just as they had won the right to vote, caused Rockefeller to laughingly retort, “You’re an idiot! Let me tell you what that was about, we the Rockefeller’s funded that, we funded women’s lib, we’re the one’s who got all of the newspapers and television – the Rockefeller Foundation.” Rockefeller told Russo of two primary reasons why the elite bankrolled women’s lib, one because before women’s lib the bankers couldn’t tax half the population and two because it allowed them to get children in school at an earlier age, enabling them to be indoctrinated into accepting the state as the primary family, breaking up the traditional family model. This revelation dovetails previous admissions (h*tp://www.jesus-is-savior.com/Evils%20in%20America/Feminism/gloria_steinem-feminism.htm) on behalf of feminist pioneer Gloria Steinem that the CIA bankrolled Ms. Magazine as part of the same agenda of breaking up traditional family models.»
    — h*tps://web.archive.org/web/20161107212242/http://www.prisonplanet.com/articles/january2007/290107rockefellergoal.htm (h*tps://www.youtube.com/watch?v=zCpjmvaIgNA)

    (Ver também: h*tps://www.prisonplanet.com/10-ways-true-feminism-is-under-attack.html)

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