O feminismo sem rumo, a ideologia de género, e a androgenia da indústria automóvel.

O feminismo sem rumo, a ideologia de género, e a androgenia da indústria automóvel.

Recentemente visitei uma linha de montagem da indústria automóvel que tinham 80% de mulheres. Agarram-se a mim, como quem descansa apoiado, dizendo “não sinto a pernas, professora”. Aquele trabalho é agora automatizado, e elas estão 8 horas em pé paradas em frente da máquina, estão a desenvolver uma doença do tendão do pé. A medicina do trabalho da Multinacional receitou Ibuprofeno. Ganham o mesmo do que os homens, mas não tema. força física de um homem nem a massa muscular, adoecerem mais, mas como há declínio demográfico se elas não forem fazer este trabalho há menos gente, e o salário tende a subir, e o lucro da empresa a cair. São precisas mulheres iguais aos homens ali, em Setúbal. A ACT sabe de tudo claro.

Rosa Luxemburgo achava as feministas “aborrecidas e cansativas” há 100 anos. Isso não impediu as feministas hoje de usarem o seu nome e fotografia, ainda que Rosa se tenha recusado sempre a participar de reuniões feministas. Foi muito amiga de uma grande feminista, Clara Zetkin, mas nunca escondeu que amizade não era adesão à causa. Rosa maravilhava-se com greves operárias e passarinhos na natureza, nunca frequentou clubes de lutas de género ou outras. Uma das “missas” feministas actuais – entre tantas – é que o marxismo diz (como se fosse uma Bíblia!) que o capitalismo é incompatível com a sociedade patriarcal. Ora o marxismo não diz nada disso. O marxismo é um campo amplo de debate e acção onde uns defendem isso, outros não. Rosa achava que não, o feminismo não era necessário, Zetkin achava que sim, era.

Vem isto a propósito de uma outra autora marxista, das mais importantes intelectuais norte americanas, Ellen Wood, que explica, com grande sustentação, que o capitalismo é incompatível com a paz (a economia de guerra é central para a acumulação de capital), e com a devastação ecológica (é impossível sustentabilidade ecológica e lucro), mas o capitalismo vive bem com as chamadas lutas pela emancipação, como as de género. Há muito que concordo com Wood e Rosa, porque a incorporação de força de trabalho concorrencial com homens em mercados onde as mulheres não estavam totalmente assalariadas (Brasil, EUA, Espanha) está a dar-se agora finalmente na sua totalidade, depois da crise de 2008 ter tornado impossível a um salário masculino sustentar a família, e ainda pagar trabalho doméstico sub contratado ao exterior. Enfim, parte das mulheres nestes países ficaram furiosas, sobretudo nos sectores médios, porque com a queda do salário foram obrigadas a trabalhar fora, ou a trabalhar mais, e a não ter empregada doméstica. Em vez de lutarem com os homens nos locais de trabalho pela elevação salarial de ambos, elegeram-nos como inimigos – até os proibindo de ser homens (com teses absurdas que na verdade querem fazer equivaler masculinidade a brutalidade). Como se ser homem, e ter força e fazer uso dela (por exemplo, agarrar com força a mulher que ama, um acto de desejo) equivalesse a ser violento, brutal, injusto ou opressor (matar ou violar a mulher).

Na Irlanda, India e Polónia o movimento feminista remete a formas pré capitalistas pelo atraso camponês (India) ou o peso da religião em países de lutas nacionais (Irlanda e Polónia). Essa é a minha opinião. Para compreender o feminismo é preciso saber de teoria do valor. Coisa que as mulheres de esquerda nos partidos deixaram aos homens – que na realidade os dirigem, colocando alguns deles as mulheres como porta vozes papagaio dos mesmos. Bom, a valorização do valor é também a tese do The Economist, e do Partido Democrata Norte-Americano (o grande Think tank deste feminismo) que pede mais força de trabalho feminina qualificada para combater a subida do custo unitário do trabalho. O feminismo masculiniza as mulheres e prega de facto a feminilização dos homens, o que em épocas de automação é bem vindo pelas empresas que querem colocar as mulheres nas linhas de montagem onde antes só estavam homens. É aliás aqui que nasce a ideia sem sentido de que há género e não sexo, quando há sexo, claro. E essa determinação biológica de cada um de nós existe e deve ser usada em favor da igualdade e não da expropriação do corpo de cada um (“ideologia de género”). A “ideologia de género” é de facto a ideologia do trabalho automatizado: expropriados do saber, do pensar, da linguagem e, agora, do corpo.

Um dia voltarei aqui ao tema, prometo. O que quero ressaltar agora, com o texto de Wood que aqui publico, é que o marxismo é debate e dialéctica, contradição e vida, e que tudo o que se apresenta como um dogma, mecânico, é sim contra o marxismo. É aborrecido, como dizia, Rosa – eu confesso que nunca frequentei tais clubes também – mas acima de tudo é inaudível de tão ignorante que é. Zetkin e Rosa tinham um pensamento vivo, Wood é imperdível, a esquerda devia relê-las, para passar da cassete à poesia.

https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache%3Ahttps%3A%2F%2Fnewleftreview.org%2Fissues%2FI167%2Farticles%2Fellen-meiksins-wood-capitalism-and-human-emancipation.pdf&ie=UTF-8&oe=UTF-8&hl=pt&client=safari&fbclid=IwAR1i2SAQasdpteFQIi1N5pJBKWSJzWdirtdTc-hXGYA5PATTpn3YywDOxdU

2 thoughts on “O feminismo sem rumo, a ideologia de género, e a androgenia da indústria automóvel.

  1. Nem o homem é modelo nem a mulher é complementar. A igualdade é o respeito pela diversidade e não contrário. Emancipação também não é tomada de poder. Há uma manifesta incapacidade de questionamento no que diz respeito aos pressupostos em que assentam determinadas concepções, na verdade isto representa a impossibilidade de se sair do imediato. O tema “género” como todos os temas identitários representam de certa forma uma desistência, representam a batalha que alguém vê como possível de se ganhar. O abandono do “todo” é a vergonha daqueles que não reconhecem nos outros a capacidade de nos mudar. Transformar uma sociedade não é mudar o nome das suas vitimas…

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