Revista da semana, bom senso contra o senso comum

Revista da semana, bom senso contra o senso comum

Marcelo anunciou que vai haver lutas sociais, porque as expectativas são altas, os sindicatos estão fora de controlo (inorgânicos, disse ele), mas que a dívida é para pagar, por isso “não vai haver recursos”. O país está à venda, a burguesia histórica nacional é internacional, vive de rendas financeiras, produz quase zero. Quem está mal que se mude, explicou o PR, os que cá ficam, disse ele, “são um povo sofrido mas imbatível”. Tive que ouvir três vezes para acreditar que tinha dito isto, sofrido mas imbatível – um misto de pobreza Salazarista, populismo e heroísmo.

António Costa fez um discurso auto proclamatório onde, entre outras coisas, explicou que vai “combater o declínio demográfico”, sempre sorridente e de peito erguido (um exercício que faço muito no pilates para a coluna). À mesma hora do discurso de Costa fechavam as urgências pediátricas de uma das principais cidades do país, a do Garcia de Orta.

Fomos informados que os portugueses gastam mais de metade do rendimento em habitação, mas que os estrangeiros, coitados, querem comprar casa e não há suficientes. Ora, estrangeiros não compram casa como “investimento” mas como poupança, sendo a habitação um bem essencial para os que cá vivem, e um bem secundário ou apenas uma poupança – uma barra de ouro – para os que vêm de fora comprar, pode-se equivaler tal acto, do ponto de vista económico, a jogar na bolsa com um bem essencial, como a vida ou a educação das pessoas.

Os estivadores de Setúbal anunciaram nova greve contra o não cumprimento do acordo da concessão turca do Porto de Setúbal, representada por um senhor chamado Marecos. Um predestinado, Deus deu-lhe um nome para gerir o declínio. A ACT irá lá daqui a 2 anos, constatar que não foi antes “por falta de meios”.

Finalmente, a semana teve boas notícias. Portugal está no topo da fuga fiscal para “paraísos” e tem um dos maiores aumentos a nível mundial do número de milionários, embora não residam aqui – trata-se apenas de um apartado. Por exemplo, nenhum deles frequenta o Garcia de Orta.

Fomos ao cinema, para terminar a semana relaxados. Trump anunciou a morte de um líder terrorista, um facínora, sem dúvida. Mas fê-lo com um ar de cowboy, naquele jeito suburbano a mastigar pastilha elástica enquanto fala, explicando – com detalhe – como explodiu o túnel, e que os bocados do corpo não permitiram reconstituir mas o ADN confirma Yeah!. Explicou o sádico que viu tudo em directo, menos os bocados, porque “no meio de tanto entulho taparam-lhe a vista”. As TVs, em vez de fazerem uso do sentido crítico e democrático, e se limitar a noticiar a morte do outro bárbaro, deram-nos este show de barbaridade Trumpiana, passaram isto ao jantar, naquela hora em que estamos a tentar ensinar aos filhos o que é uma sociedade humana contra a selva animal.

7 thoughts on “Revista da semana, bom senso contra o senso comum

  1. Perfeitamente de acordo consigo. Uma das situações que mais me choca é a questão da habitação, principalmente o mercado de arrendamento. A especulação é impressionante e, bem sei, que estamos numa economia liberal. Mas, “caramba”, os sucessivos governos e, principalmente, o último (e provavelmente o atual), nada fizeram para contrariar este estado de coisas, bem pelo contrário. Existem mecanismos óbvios, como por exemplo calcular um valor de renda médio, em função da área, localização, estado do imóvel, etc., de forma idêntica ao que já se faz no IMI, e com uma perspetiva de retorno do investimento em 25 a 30 anos. Provavelmente, rendas de 1.200 euros, neste sistema de cálculo, “baixariam” para 800 ou menos. Depois, o Estado aplicaria um imposto especial sobre o excedente (muito alto), de forma a desincentivar a especulação. Tal como as coisas estão atualmente, é fácil. Se for novo, compro uma casa com um empréstimo a 50 anos, alugo pelo dobro do que pago ao Banco, e tenho a casa paga em 20 anos. Estamos a falar de um bem de primeira necessidade. Quanto aos fiadores, porque é que o Estado não se substitui aos mesmos e, simultaneamente, agiliza as ações de despejo? Enfim, tantas soluções existirão, mas não com esta inércia governativa, tão característica do nosso sistema político. Parabéns, mais uma vez, pelo excelente artigo.

  2. Por vezes é necessário dizer isto, e muito mais. Mas estou no essencial de acordo do que escreve. «É preciso pôr termo ao roubo da água do Alqueva»
    É preciso reduzir a Espanha ao que ela realmente é: o ridículo reino de Castela!

  3. Muito bem Raquel Varela .
    Que haja alguém neste país de conformismo que toque nas feridas e vá dizendo que afinal o rei continua nu…

  4. Gosto do seu título, e também do conteúdo. Costumo dizer que, infelizmente, o bom senso está moribundo e o senso comum já matou e torturou mais gente do que qualquer outra coisa.

  5. Felizmente que há sempre alguem que nos mostra as ”feridas”,que podem levar à morte, na esperança de que nos apliquemos no estudo de uma cura cada vez mais utópica num ambiente em que as ”viroses” são muitas,sarando umas e abrindo outras

  6. Uma das regras duma famila que se peocupa com a educação das suas crianças é NUNCA fazer qualquer refeição com acesso a televisão (ou telemovies). Não acredito que exponha as suas filhas/os à barbárie que é um telejornal.

  7. Fantástica reflexão, na abrangência e no tempo, que desengana os que se acham mais entendidos. As linhas mestras sociais são muitas ou quasi sempre subvertidas, ou ao lucro ou ao devenir dos proveitos. Recrudescer organizações, só focando forte e sólida luz no que tanto se propagou como linhas evolutivas de vida. Não estão formatados paradigmas de vida a inverter grupos cavalgantes, acima nem importe do quê? Dá poder criamo-lo, a nossa natureza carece de ser emendada.

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