Curiosidade agasalhada

As minhas aulas no Âmbito Cultural do El Corte Inglês são adoráveis. Lembro-me do dia em que falei de um romance clássico estrangeiro e uma parte importante de uma sala de mais 100 atentos alunos reagiu com entusiasmo porque já o leram, fizeram rapidamente a ponte com o tema que estávamos a dar, e ainda sugeriram outro, do mesmo autor, do mesmo tema, não conhece professora?; ou quando falei das percentagens de uma dada área na saúde, e tinha sala uma médica que com responsabilidades de direção nessa área, nos contou a sua experiência. Sempre que me esqueço de um nome de um filme, alguém de certeza na sala sabe. São espaços de criação e reflexão, leitura atenta e conversa descontraída, seriedade científica, que – sempre um pouco abstrata – conseguimos concretizar ligando coisas como a nossa alimentação hoje e a mudança na propriedade há 45 anos; as roupas que vestimos e a reestruturação produtiva no século XX. Dos 18 aos 80 e tantos anos, um leque tão diversificado, de ex-operários da Lisnave e quadros dirigentes de serviços de alta qualificação, de professores de saúde pública a estudantes de química, uma janela para o mundo abre-se naquele lugar tão variado. Onde em comum nos une uma palavra, curiosidade. Curiosidade por compreender o mundo.

Tenho refletido muito sobre o porquê desta dinâmica. Não há uma resposta só. A primeira é que desde logo os alunos estão ali porque gostam, gostam muito. Estão atentos, concentrados, dedicados – tomam notas, questionam, criticam, trazem novas questões na semana seguinte. São alunos, com vontade de o ser. E sem medo de o ser. Curioso que a escola se tenha tornado num espaço onde não há “alunos” e onde não há professores, mas “mediadores”. Ser “aluno” é quase um estatuto diminuído, mal visto socialmente, quando na verdade é um enorme privilégio. Ali todos adoram ser alunos e ter uma professora, que tem por isso obrigação de lhes oferecer uma aula interessante. Eu, sempre que posso e tenho bons professores, sou aluna. Sou aluna de muitos colegas meus. Em conferências, palestras, adoro quando em uma hora me trazem uma síntese de um mundo que pode ter levado anos de estudo a chegar ali, aquela hora. Uma aula bem lecionada é um espaço encantador.
Mas, para dançar o tango são precisos dois: bons professores e bons alunos. Vontade de ensinar e vontade de aprender. E para ambos, a curiosidade.

A outra razão é obviamente o espaço. Há uns dias um colega arquiteto interpelou-me publicamente sobre a desmotivação dos professores na sala de aula, tema que estudamos. Eu tinha falado de coisas muito importantes, mas algo tinha faltado na sua opinião. Os maus salários, carreiras sem mobilidade, competição e avaliação de desempenho, conteúdos científicos empobrecidos, aulas padronizadas, sem ousadia pedagógica, tudo estava certo, dizia ele, “mas e o espaço?” Sim, e a sala de aula? Salas de aulas frias, padronizadas, com pouca luz, barulhentas, desconfortáveis. O arquiteto tinha estado responsável por várias escolas e constatou que os alunos quando toca fogem – como se de uma prisão se tratasse.

Lembrei-me de quando levei alunos para dar aulas de história nos jardins da Gulbenkian, perto dos patos. Outras vezes pego nos meus alunos de doutoramento, os que não acham extravagante a minha atitude, mas desafiante, e percebem que para ajudá-los preciso de divagar e tempo longo, e damos longos passeios por Lisboa, vamos da Av. de Berna ao Cais do Sodré – é um estilo peripatético, excêntrico, disse-me um deles uma vez. Encantando com a ideia. Resulta tão bem comigo a compreender determinados assuntos, andar, andar sobre eles, andar com eles, que penso sempre se o cérebro não fica mais oxigenado (risos). Ora, quando as minhas aulas terminam no Corte Inglês nós ficamos ali a conversa, é evidente que o espaço do Âmbito Cultural foi desenhado para nos acolher: a luz é calma, há música clássica, não há barulho agressivo, as cadeiras são confortáveis, o espaço é amplo, cuidado e nós somos seres humanos com gosto pelo belo – somos mais humanos quando o espaço é mais belo. Apetece-nos ficar ali, naquele lugar acolhedor onde a nossa curiosidade se agasalha.

Texto publicado na revista do Âmbito Cultural do El Corte Inglês

1 thought on “Curiosidade agasalhada

  1. Não é possível perceber a vida sem vontade de a transformar. A certeza é em si uma desistência, uma forma fechada, uma perda consciente. Amarras invisíveis matam-nos aos poucos, limitam a nossa acção. Ensinar e aprender é a verdade de uma relação, uma interessante forma de se sentir alguém.

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