Marcha sobre Lisboa

Ontem no Prós e Contras Portugal parecia ter entrado em alucinação, num comboio desvairado. Qual era o cenário? Um líder de extrema direita e outro fascista explicaram de forma sustentada e articulada, com base em factos reais, que a carga fiscal portuguesa é insuportável, que o Estado não é transparente, que há problemas graves no país, que o Diabo está aqui, sim, no quotidiano cada vez mais difícil da vida das pessoas. Ninguém soube dizer que era tudo verdade, e logo a seguir perguntar-lhes como eles prevêem solucionar estes problemas, e logo a seguir responsabilizar as suas ideologias liberais e, em muitos casos, criminosas, pelo Estado a que o Estado chegou – sim, até prova em contrário, não vivemos em socialismo, mas em capitalismo liberal. PS e PSD ficaram calados, a fingir que nada têm a ver com o Estado a que chegámos, e que em primeiro lugar os responsabiliza a eles, que são a peça principal do Estado em Portugal. PCP e Bloco de Esquerda ficaram mudos vários vezes, e continuaram a falar sobre o que queriam – explicar ao PS que querem que o PS não seja o PS. No meio, desta vez correctamente sentada à direita, sim o PAN é de direita, estava uma representante do bem estar animal que não consegue ter duas ideias sustentadas sobre a vida colectiva em sociedades humanas complexas. E à frente estava uma deputada negra de uma gaguez que torna a sua comunicação absolutamente inviável. Foi este o cenário de ontem.

Fiquei a pensar o que um operário negro ou branco da construção civil, do Macdonalds, do call centre, que ganha sem conseguir viver o salário mínimo, e do que ganha entrega 50% ao Estado em IRS, Segurança Social e IVA, e mesmo assim tem maus serviços públicos, fiquei a pensar, dizia eu, no que terá ele pensado se viu o debate. O que pensa um médico, um enfermeiro, um professor que paga 45% de imposto ao Estado e as grandes empresas zero. O que pensa um pequeno empresário que está na mão das liberalíssimas empresas-monopólio de electricidade, comunicações, transportes. E no meu íntimo desejei que não estivessem a assistir ao debate. É que ontem, pela primeira vez desde 1974, os media abriram portas à voz pública da extrema-direita como se fosse “mais um Partido”. A esquerda não só aceitou este facto, até de legalidade duvidosa, como perante as ideias de extrema-direita ficou sem voz, ora gaga ora muda, deixando brilhar os líderes, articulados, da barbárie social. Que tiveram o espaço que queriam, sem oposição alguma.

A esquerda vive uma crise de direcção evidente – em vez de compreender fecha-se sobre si própria, acarinhando as suas fragilidades, reclamando a maravilha dos silêncios. Sem voz. Apresenta-se sempre como vítima, e nunca como direcção do conjunto da sociedade. Ventura e seus companheiros, os mais e os menos assumidos, a manter-se o cenário de ontem, têm o caminho livre nos próximos anos. Marcharão sobre Lisboa como Mussolini sobre Roma – num comboio encenado de uma marcha que nunca existiu como tal e que todos pensam que existiu porque na verdade o que não existiu foi oposição à altura na Itália de 1919/1923. Ou vemos renascer um novo e vigoroso movimento social do mundo do trabalho organizado, de sindicatos, associações, ordens profissionais portuguesas com voz e poder real, que assumam a esfera pública e a vida política nas mãos, com vontade de dirigir o conjunto da sociedade de forma civilizada e culta, democrática e organizada, ou o dia ontem foi o início de um espectáculo de barbárie. A esperança não é uma palavra que ganha força por a dizermos muitas vezes – é uma realidade que para existir depende da força colectiva organizada. Se essa força não está no Estado tem que se organizar fora do Estado – o que não podemos é entrar neste caos que ontem se apresentou ao país. O país somos nós, os nossos, não é uma peça de teatro sofrivel que acaba daqui a 1 hora.

7 thoughts on “Marcha sobre Lisboa

  1. A mossoulinizaçaõ de alguns políticos e a adesão aos movimentos populisas na Europa são extremamente preocupantes e atrevo-me a dizer que todos temos culpa, mas os jornalistas, comentadores e outros fazedores de opinião têm mais culpa que o público em geral.
    E culpo-vos muito mais pela situação quando pactuam com os populistas que procuram confundir carga fiscal com aumento de impostos, porque sabem tão bem como eles que não é necessariamente a mesma coisa.
    Culpo-vos quando pactuam com os populistas que tentam convencer o trabalhador que ganha o salário mínimo que tem que entregar metade ao estado, porque sabem melhor que eles que é mentira, que eles não pagam IRS e gastam o seu salário maioritariamente em produtos que pagam IVA á taxa reduzida. Aquilo que mais irrita alguns dos que realmente tem que entregar ao estado metade do que ganham é o contrário, é saberem que quem ganha o salário mínimo recebe muito mais do estado do que o que paga e a diferença é paga por eles, mas dá jeito que sejam o mais desfavorecidos a votar nos seus próprios carrascos e voces colaboram com os populistas.

    • A falta de noção é fácil de confundir com a falta de decência, quando se toma como favorecidos os que recebem abaixo da condição de vida penso que está tudo claro e esclarecido. A crença é o que muitas vezes separa a inteligência da estupidez.

  2. A sua ignorância é confrangedora.
    Vivemos num capitalismo liberal?
    Num país em que o estado ROUBA 35% do que se produz e 50% do salário de quem trabalha, não vivemos em socialismo?
    As suas definições e conceitos estão inquinadas pela sua ideologia fascista de esquerda. Convinha abrir um pouco a sua mente…existem vários tipos de socialismo. O conservador (fascismo) o social-democrata e o marxista que na sua versão extremista do comunismo (fascismo de esquerda) é o seu objectivo final.
    O liberalismo é a ideologia não socialista e confundir essa ideologia com fascismo é no mínimo prova de ignorância e de desonestidade intelectual.

  3. Nunca vi tanta ignorância e tanto sectarismo num só artigo. Então partidos aprovados pelo Tribunal Constitucional como conformes com a Constituição são fascistas, quando a própria Constituição os proíbe? Ou Raquel Varela acha que é mais constitucionalista do que os ilustres juizes do Palácio Ratton?
    Então partidos com representantes na AR, sufragados pelo voto popular, não se podem exprimir? E a democracia liberal e a economia de mercado, que promovem o bem estar e a prosperidade em todas as democracias, ao contrário do socialismo de miséria da Venezuela, Coreia do Norte e paraísos socialistas similares, não podem ser defendidas?
    E se a extrema direita chegou ao parlamento, nem uma palavra para os representantes da extrema esquerda que defendem no seu ideário programático ditaduras ( populares do proletariado) ao invés de democracias?
    Liberalismo não é fac-símile. Nunca foi!
    Aconselho vivamente, um pouco mais de estudo e mais moderação política e intelectual, porque o radicalismo nunca foi bom em nenhuma circunstância, quanto mais sem base ideológica e política que o sustente.

  4. Os outros partidos vão ter de escolher continuar acomodados ou saber defender o seu ponto de vista. Os acomodados já esqueceram o que é a Democracia e tomar esta atitude antes sequer de debates no hemiciclo revela bem a natureza de quem decide o rumo da Nação. Um sítio precisa de Estado mas pode ficar em estado de sítio. Isolar um partido eleito democraticamente que chamar a isto??? Atitude absurda. Já agora como foram eleitos Bolsonaro, Trump… Usem a Democracia não abusem… O Povo escolheu está escolhido! Quem não reconhece isso que saia é fácil! Há extremos tanto à direita como à esquerda haja equilíbrio! Um bom exemplo de quem nos trouxe aqui Adolfo Mesquita Nunes com um pé na Galp e outro na coordenação do programa eleitoral do CDS-PP foi um dos que deu ímpeto ao CHEGA. De táxi ou Uber não interessa! Na campanha sempre escrevi ” CHEGA de chagas. BASTA de bestas! CHEGA de bestas! BASTA de chagas!”. Obrigado Sr Adolfo e quantos Adolfos políticos… Tem sido políticos como o padre na aldeia em “faz o que te digo não faças o que faço” que nos trouxeram aqui. Foi o contraditório. O Povo que vote mas que vote mais! Os políticos anti-chega que continuem com a mesma postura é quanto basta ao CHEGA que já tem plano para 4 e 8 anos. Não mudem de estratégia não!
    Tenho a mesma opinião que o Prof. João Carvalho que tantos não entendem… Simples? Agora imaginem se os 45% passarem a votar CHEGA… Não chegamos a isto por acaso…

  5. Inacreditável, tudo aquilo que faz uma democracia; separação dos poderes do estado, votar e estado de direito são criações liberais. Já CDU e BE pertencem à filosofia politica mais assassina da história, o Comunismo. Alguém conhece uma sociedade comunista com liberdade?

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s