A TAP, e o futuro de Portugal na UE

Ontem não estive no Último Apaga a Luz, por causa de um atraso num voo vindo da Alemanha. Situação inesperada, mas que pode acontecer. Não fosse a companhia onde voei era uma situação normal. É que voei na TAP. E este é o 20º voo que apanho atrasado na TAP nos últimos tempos. Tenho o meu coração com a TAP mas é um amor irracional. Como se diz nunca voltamos ao mesmo rio duas vezes – porque a água que lá passa não é a mesma, e nós também não. A TAP não é a TAP – conservou o nome. Assisto a situações escabrosas como comissários de bordo assediados, passageiros furiosos, na realidade já assisti a vários colapsos nervosos de brasileiros que tinham, por causa da TAP, perdido a ligação para o Brasil, jurando a pés juntos que “jamais voltam a viajar” ali. Não é o aeroporto porque no mesmo aeroporto com as outras companhias isto não se passa – na TAP não há aviões, tripulações suficientes, cuidados dos clientes, a TAP foi construída por nós como uma grande estrutura com um saber largo acumulado, agora é um casino – conheço casos em que os passageiros estão fechados mais de uma hora dentro do avião porque não há tripulantes, e esses tripulantes foram chamados de emergência nas férias para suprir faltas. Esta é a realidade que não vem na comunicação onde as empresas gastam cada vez mais dinheiro. É a cosmética do marketing para tapar a degradação da produção real.

A TAP não podia ser ajudada pelo Estado português, segundo as leis francesa e alemã, da UE, o Governo PSD anuiu, o PS manteve. Mas na Alemanha debate-se hoje um pacote de ajudas estatais à economia privada inédito – o novo capitalismo verde, com base na reconversão total da maquinaria industrial. O superavit que a Alemanha recolheu este anos de juros das dívidas periféricas vai agora, pensa-se, ser usado pelo Estado alemã para tiras as suas empresas da crise que já começou (só a curto prazo, depois aumenta-a), afundando a periferia numa crise sem precedentes – isto segundo um autor, Klaus Dorre, que vou receber aqui em Lisboa no CCB, é director do Instituto de Sociologia da Uni de Jena. Dia 15 de Outubro. Convido-vos a não perderem porque ele é quem mais sabe da relação entre economia alemã e a periferia do sul e do leste e talvez um dos maiores estudiosos do trabalho e sindicalismo na Europa e da indústria alemã. É um forte critico do capitalismo “verde”. É um dos mais respeitados intelectuais alemães – que aliás ontem anunciou publicamente que vai deixar de viver na Turingia se os conservadores fizerem coligação com a extrema direita, daqui a 3 semanas.

Há uns anos o realizador António Pedro Vasconcelos ligou-me, era necessário fazermos um Movimento contra a privatização da TAP. Eu topava, como se diz no Brasil, claro. Sei o que significa sub desenvolvimento. A ideia da TAP ser transformada numa Ryanair ou num BES era para mim clara. Ou as duas juntas, o mais provável: primeiro entra em decadência e maus serviços, depois entra em falência. Um dia acordamos e a TAP é o BES e a Thomas Cook, adeus, fiquem com o calote, não estamos a atender telefones…pi,pi,pi,pi…Ligue mais trade…

Fomos almoçar, o APV e eu, num italiano, conversámos sobre cinema, escutei-o, e sobre as rotas, a imigração, o lugar de Portugal na geografia e concluímos que o país era inviável, enquanto parte do mundo desenvolvido, sem uma companhia de bandeira. Disse-lhe, o que ele concordou, que, para mim, mais do que figuras públicas era preciso envolver os Sindicatos. De todos o que mais se envolveu foi o de Pessoal de Voo – ainda que o pessoal de voo na base não se tenha mobilizado muito, fartos creio eu de gestão público-partidária. Quando a coisa está tão mal pensa-se que privatizado fica melhor. O facto é que a privatização é o fim a curto prazo. Outros sindicatos estiverem contra mas não agiram muito, digamos – foi tudo suave, nada com a força que merecia o colapso anunciado da empresa; só uma parte da Groundforce se mobilizou, o SOS Handling, muito pequenos na altura, infelizmente. Houve um Sindicato que se mobilizou muito, a favor da…privatização. O de pilotos. O mais forte, que a podia ter evitado junto dos outros.

Ora esta semana a Ryanair anunciou aos pilotos de Lisboa “ou entram em licença sem vencimento em Lisboa no Inverno ou são despedidos”. Assim, pilotos tratados como lixo. Usou, deita fora. A TAP foi privatizada, a dívida dos novos aviões está na nossa mãos. O lucro é distribuído aos accionistas todos os anos, e no fim o último fecha a porta. E verei até os pilotos da TAP receberem uma cartinha estilo Thomas Cook – perdão, nem carta há…É o silêncio da destruição criativa do liberalismo, anunciado nos media como “a empresa está em apuros”. No fim a Lufthansa terá cada vez mais mercado. Para nós ficam cacos, dívidas, juros e o vazio. Ainda há tempo. De nos salvarmos deste novelo. Falta-nos porém vontade.

13 thoughts on “A TAP, e o futuro de Portugal na UE

  1. Relativamente à TAP concordo em absoluto. A privatização manhosa feita às escondidas pelo governo de Passos Coelho, em gestão, e em vésperas do novo governo tomar posse, ao arrepio das leis comunitárias “ultrapassadas” pelo alegado maior número de acções do accionista português do consórcio e sem o imediato parecer favorável do regulador
    Neelman estava tecnicamente falido, bem como a sua Azul.
    E quanto ao empréstimo (que os bancos tardaram em conceder) obrigacionista contraído na altura, obriga Quem ?
    Agora o Estado_nós_accionista maioritário , 50%, entrega a TAP à gestão Privada do consórcio e assistimos à queda da nossa companhia de bandeira, que tinha uma das melhores manutenções da Europa, senão do Mundo. É triste ! O meu obrigado a todos quantos trabalham e trabalharam na TAP!

    • Dia 30/08/2019 tinha um vôo Luxemburgo X porto marcado pra 16:15 hs .
      Quando o vôo saiu de Luxemburgo foi as 18:18 hs chegando no porto as 19:45 hs .
      Tinha que apanhar um comboio em campanhá indo pra pombal.
      Mas nao havia mais comboio esse horário.
      Liguei pra TAP solicitando o apoio.
      Fui informado pelo cal center que nao poderia fazer nada sendo assim tive que amanhecer na estação do Porto até o dia seguinte .
      Ficou aqui a lição TAP nunca mais .
      Acompanho os horários da TAP Luxemburgo X porto tds os dias só sai atrasados uma vergonha .

  2. Muito triste essa situação.
    Tenho carinho especial pela TAP, foi a primeira companhia a qual voei para o exterior.
    Sempre fui bem atendida, nunca houve comigo um atraso.
    Espero que volte a ser o que sempre foi!

  3. Boa noite,

    Constato do resumo do currículo que dominará história. Não vejo referências a aviação. No entanto, como muita gente, aparenta dominar a temática. Esqueceu-se de referir que a TAP atrasa essencialmente por 2 factores: o principal, a vergonha que é o aeroporto de Lisboa, com a sua ineficiência goraz, desde a demora no SEF e consequente penalização nas ligações de passageiros, o controlo de tráfego aéreo que comparado por exemplo ao Londrino é a estrada da beira versus a beira da estrada, etc.; o segundo, que se faz essencialmente sentir nos voos europeus, é a mencionada condição periférica, fazendo com que os aviões da TAP sejam condicionados permanentemente por restrições de tráfego aéreo, chamados slots de descolagem/aterragem (acontece, curiosamente, menos nas operadores na Europa Central, por exemplo). A TAP é alheia a estes factores, parece-me. Quando toda a sua frota tem de passar por Lisboa (mesmo os voos do Porto é raro não passarem em Lisboa pelo menos uma vez por dia), os atrasos acumulam-se, induzindo o caos na operação e levando por exemplo “a chamar de emergência tripulantes”, não porque haja a menos mas porque excederam tempos de trabalho/períodos de trabalho nocturnos etc. em dias anteriores. Infelizmente, o aeroporto de Lisboa não vai mudar nos próximos anos (e nem falo da não-solução Montijo). Portanto ou a TAP deixa de ter hub em Lisboa, ou a situação tenderá a piorar. Não por culpa da TAP. A menos que me consigam demonstrar o contrário, mas pessoas que saibam do que falam, apenas.
    Melhores cumprimentos.

  4. Boa noite,

    Constato do resumo do currículo que dominará história. Não vejo referências a aviação. No entanto, como muita gente, aparenta dominar a temática. Esqueceu-se de referir que a TAP atrasa essencialmente por 2 factores: o principal, a vergonha que é o aeroporto de Lisboa, com a sua ineficiência goraz, desde a demora no SEF e consequente penalização nas ligações de passageiros, o controlo de tráfego aéreo que comparado por exemplo ao Londrino é a estrada da beira versus a beira da estrada, os atrasos no acesso ao terminal das partidas pelo novo e ridículo sistema de largada de passageiros, etc.; o segundo, que se faz essencialmente sentir nos voos europeus, é a mencionada condição periférica, fazendo com que os aviões da TAP sejam condicionados permanentemente por restrições de tráfego aéreo, chamados slots de descolagem/aterragem (acontece, curiosamente, menos nas operadores na Europa Central, por exemplo). A TAP é alheia a estes factores, parece-me. Quando toda a sua frota tem de passar por Lisboa (mesmo os voos do Porto é raro não passarem em Lisboa pelo menos uma vez por dia), os atrasos acumulam-se, induzindo o caos na operação e levando por exemplo “a chamar de emergência tripulantes”, não porque haja a menos mas porque outros excederam tempos de trabalho/períodos de trabalho nocturnos etc. em dias anteriores e estarão legalmente impedidos de voar nesse voo. Infelizmente, o aeroporto de Lisboa não vai mudar nos próximos anos (e nem falo da não-solução Montijo). Portanto ou a TAP deixa de ter hub em Lisboa, ou a situação tenderá a piorar. Não por culpa da TAP. A menos que me consigam demonstrar o contrário, mas pessoas que saibam do que falam, apenas.

    Melhores cumprimentos.

  5. Boa noite,
    Constato do resumo do currículo que dominará história. Não vejo referências a aviação. No entanto, como muita gente, aparenta dominar a temática. Esqueceu-se de referir que a TAP atrasa essencialmente por 2 factores: o principal, a vergonha que é o aeroporto de Lisboa, com a sua ineficiência goraz, desde a demora no SEF e consequente penalização nas ligações de passageiros, o controlo de tráfego aéreo que comparado por exemplo ao Londrino é a estrada da beira versus a beira da estrada, etc.; o segundo, que se faz essencialmente sentir nos voos europeus, é a mencionada condição periférica, fazendo com que os aviões da TAP sejam condicionados permanentemente por restrições de tráfego aéreo, chamados slots de descolagem/aterragem (acontece, curiosamente, menos nas operadoras da Europa Central, por exemplo). A TAP é alheia a estes factores, parece-me. Quando toda a sua frota tem de passar por Lisboa (mesmo os aviões que realizam voos no Porto é raro não passarem em Lisboa pelo menos uma vez por dia), os atrasos acumulam-se, induzindo o caos na operação e levando por exemplo “a chamar de emergência tripulantes”, não porque haja a menos mas porque excederam tempos de trabalho/períodos de trabalho nocturnos etc. em dias anteriores, estando legalmente impedidos de fazer determinado voo subsequente. Infelizmente, o aeroporto de Lisboa não vai mudar nos próximos anos (e nem falo da não-solução Montijo). Portanto ou a TAP deixa de ter hub em Lisboa, ou a situação tenderá a piorar. Não por culpa da TAP. A menos que me consigam demonstrar o contrário, mas pessoas que saibam do que falam, apenas.
    Melhores cumprimentos. 

  6. Algumas notas…

    Que solução propõe?

    Que o estado tome conta da empresa novamente e injecte novamente dinheiro?

    Relembro que a TAP perde dinheiro a décadas, o problema não é de agora, e que a empresa tem gestão privada e não faz serviço público operando apenas as rotas que servem o seu modelo de negócio.

    O estado tem mais onde gastar o seu dinheiro digo eu…

  7. Lamento informar que a TAP é das poucas companhias em Lisboa em que os passageiros vêm em ligação de um vôo para outro. E com isto quero dizer, que o aeroporto tem culpa em muitas das situações de perdas de ligações. Não tem em todas.. tem na maior parte delas. E explico o porquê.. Filas do SEF enormes, o SEF por vezes não dá prioridades a quem tem o vôo quase a sair, aviões prontos com os passageiros lá dentro que não têm autorização para sair do stand (lugar de parqueamento do avião) devido a restrições de tráfego aéreo e por restrições do aeroporto por vezes, outra das razões é a falta de condições referindo-me a um aeroporto de emergência como o de Lisboa só ter uma pista (quando houver uma emergência na pista, a pista vai encerrar e nenhum outro vôo irá descolar ou aterrar). Recentemente aconteceu a pista estar fechada por uma dessas razões, o que aconteceu foi os vôos começarem a divergir para Faro e para o Porto! Sabe o que isso significa? Atrasos e mais atrasos! O efeito bola de neve é devastador neste aeroporto de Lisboa.. Mas se acha/acham que a culpa é só da TAP garanto que não é. Mais de 70% dos atrasos garanto que a culpa não é da TAP. Com isto quero dizer, reflita um pouco sobre aquilo que lhe estou a transmitir e primeiro informe-se antes de dizer alguns disparates (sim, nem tudo são disparates).

      • O meu objectivo é tentar que “opinion makers” deixem de atacar a TAP por motivos que lhe são alheios. Sei que não terei sucesso, mas faço a minha parte. A TAP move sentimentos muito portugueses, ódios e invejas, dizer mal só porque sim, muitas vezes sem sequer se saber do que se fala e o que se passa. Não basta andarmos à deriva política sobre a aviação em geral (sem uma solução válida e de futuro para o sector que mais turistas transporta, e bem ou mal é o turismo que tem alimentado o país), como em tantos outros sectores críticos para a nação, fica sempre bem dizer que a TAP atrasa, que a TAP já não é o que era, etc. Nada é o que era, tudo muda, tudo se adapta. A entrada das low costs no mercado, a massificação do transporte aéreo, implicou adaptações, alterações de paradigma, redução de preços e consequente redução de mordomias. No entanto, qualquer trabalhador do grupo, como eu, que defende a TAP diariamente com o seu melhor esforço, sabe quão injusto é ter de ver e ouvir ataques constantes a uma empresa que ainda é referência no sector (por muita estranheza que possa provocar a quem só sabe dizer mal). Faz parte. Como qualquer empresa, a TAP tem defeitos, tem lacunas de gestão, tem oportunidades de melhoria, tem prémios estranhos, etc. Mas, como já foi dito, a esmagadora responsabilidade pelos atrasos, de facto um problema crucial para a operação da TAP, irá manter-se a menos que o tráfego reduza substancialmente em Lisboa ou se construa um aeroporto de raiz, com 2 pistas paralelas (basta “copiar” Munique, Barcelona, Heathrow, Frankfurt, e tantos outros exemplos, à escala possível e de forma modular, e não inventar Montijos à pressão – basta ler com atenção o parecer da Ordem dos Engenheiros), e adicionalmente sejam revistos os procedimentos de sequenciação de tráfego aéreo para acabar com a surpresa diária sobre quanto tempo terá um avião de esperar para descolar ou aterrar (basta também “copiar” metodologias britânicas, por exemplo).
        Aproveito para lamentar a repetição dos meus comentários anteriores, por lapso tecnológico.
        Melhores cumprimentos.

    • Obrigada, André 🙏
      Alguém que finalmente esclareça o que de facto se passa nos bastidores, quando se culpabiliza a TAP por tantos atrasos.
      Um bem-haja

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