Economia Política do Clima e o Nuclear

Afinal a economia “verde” depende do aumento de centrais nucleares clássicas…?

Hoje assisti a uma palestra na Universidade de Jena, de um defensor da economia verde, Prof Baccaro, director no Max Planck Institute. Fez uma bela palestra, da qual discordei. Defendeu o NewDeal Verde, sem anunciar o fim do mundo – isso fica para os políticos pouco sérios. Perante 400 pessoas, num dos centros de excelência da tecnologia alemã, explicou que a economia alemã está em queda tendencial da taxa de lucro no sector de produção de máquinas, apresentou gráficos da taxa de lucro, explicou que o modelo binário “exportar máquinas do centro e endividamento do sul” está em crise irreversível, a única forma de salvar hoje o capitalismo alemão é a economia verde, reestruturar as máquinas na cadeia produtiva. Sim, colocou – no power point – como única hipótese, única, de evitar o colapso da economia alemã a nova economia-verde. Fez isto num dos centros de excelência mundial de ótica e ciência tecnológica alemã, a Universidade de Jena. Acrescentou que a Alemanha está na vanguarda mundial do domínio tecnológico das energias renováveis e os EUA não, embora haja sectores em desenvolvimento. Pelo que o mercado alemão pode competir com o americano melhor. Infelizmente tive que sair quando se abriu o debate, e não pude colocar as questões, que aqui deixo:

1) Isto é obsolescência programada da capacidade instalada industrial actual? Ou seja, vai para o lixo toda a maquinaria hoje ligada à produção que recorre a energias fósseis?

2) Quem vai pagar tudo isto? É possível manter o Estado Social europeu e pagar esta reconversão?

3) Nós portugueses vamos endividarmos mais para comprar todas as máquinas e carros novos à Alemanha e deitar os nossos fora? Vem mais uma directiva contra os carros a diesel na cidade?

4) Como a energia nuclear de fusão – se alguma vez estiver apta – será daqui a muitas décadas – em 2025 começam experiências, ou nem isso, segundo percebi – a única forma de produzir energia eléctrica para tanta bateria é manter e alargar as atuais centrais nucleares de fissão da França, Suécia, Alemanha?

5) Quer isto dizer que os mais destacados defensores das energias renováveis são dependentes de centrais nucleares tradicionais – isto é, “bombas atómicas”, para funcionar? Ou há um plano B? Significa isto que o movimento ecologista nasceu nos anos 70 contra o nuclear e agora é um seu inconsciente defensor?

6) Não vos passa pela cabeça expropriar e nacionalizar estes monopólios alemães em crise, fazer ferrovias, reduzir a circulação de mercadorias e exportações dia e noite, reduzir os horários de trabalho nas fábricas 24 non stop, fomentar a agricultura sustentável, em vez deste plano mirabolante?

Tive oportunidade de fazer algumas destas perguntas a um dos responsáveis pela campanha de Bernie Sanders. Como não foi pública não posso citar o nome. Respondeu-me assim: “emissões zero são um mito, só a construção do capital fixo para produzir a capacidade instalada para as energias renováveis recorre massivamente a energias fosseis. Riu-se, como aquele ar poderoso e intenso como só os americanos conseguem, “é obvio que para fazer moinhos de vento se usa energia fóssil!” Disse-me que, por essas contas, poderão ser rentáveis daqui a muitas décadas mas ninguém sabe – confessou. E até lá tudo vai funcionar a fósseis ou nuclear. Sou um defensor porém do New Deal verde, reiterou, “temos que ser pragmáticos! – há uma crise do capitalismo para resolver.” Respondi-lhe – no meio de um bom vinho, que eu gosto de gente sincera e convívio cordial com quem pensa diferente de mim: “Essa política”, disse-lhe, “vai ser um desastre para as classes trabalhadores e para os países periféricos, vão ser obrigados a pagar mais impostos, endividar-nos mais na periferia, tornar-nos mais dependentes. Agora – ri-me eu – o que acho curioso é ver a esquerda social democrata criar um esquema que terá como consequência a dependência da energia nuclear mais perigosa, a mesma que os trouxe para a rua há 40 anos. As voltas que uma ideia dá” Ele riu-se, também gosta de Marx, tem simpatia pelas minhas ideias, mas o que “precisamos mesmo é de pragmatismo, pragmatismo!”.

3 thoughts on “Economia Política do Clima e o Nuclear

  1. Dra. Varela,

    Se pensa que as actuais centrais de fissão nuclear são autênticas “bombas atómicas”, sugiro que interrogue sobre este assunto um qualquer engenheiro que trabalhe nas mesmas – e não uns quaisquer políticos ou directores nomeados pelos partidos do sistema ocidental.

    As centrais nucleares *não explodem*, devido a avarias ou negligências. (O pior que pode acontecer é derreterem os seus núcleos.) E, o desastre de Chernobyl foi o resultado de um *bomba* colocada por um sabotador estadunidense: h*tp://www.forumdefesa.com/forum/index.php?topic=67.msg316313#msg316313

  2. Nada de novo , sempre me questionei porque motivo nunca se falou nisto. Por alguma razão os lobbys ligados aos combustíveis fosseis nunca se preocuparam com todo este movimento das energias limpas…………..

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