O identitarismo dos pobrezinhos

O idenditarismo pós-moderno consegue um número de actos ridículos superiores a qualquer outra moda. Fui convidada para uma conferência mundial, que está a decorrer na Alemanha, mais de 1000 cientistas sociais, a maioria alemães, está aqui reunida em Jena para debater o mundo do trabalho, clima, crise global. Fui convidada para uma mesa com o Presidente da Associação Internacional de Sociologia para falarmos de Diálogo Global – vejam, global. Isto porque eu sou uma historiadora da história global do trabalho, vejam – volto a sublinhar – global. Sou mulher e portuguesa, mas estudo a totalidade, no caso operários na Europa das revoluções e trabalho na restruturação produtiva e tudo o que está com isso relacionado. Mais, eu não sou eu, mas um grupo de pesquisa de homens e mulheres que estudam o mesmo, permitindo um conjunto de trabalhos que abarca tantos temas na perspectiva de entender a “totalidade” – das greves à saúde mental, do Estado Social à cultura nada nos é estranho, desde que tenha o trabalho como central. Sim, como a mais importante variável. Por essa razão, por essa equipa, e pela nossa visão da totalidade do mundo do trabalho, recebi este convite tão importante.

Mesmo assim não me safei totalmente da caixinha das visões limitadas e limitantes: alguém me apanhou no hall perguntando se eu queria juntar-se a um jantar de “intelectuais mexicanos, portugueses, gentes do sul”. Eu queria mesmo era comida tradicional da Turingia e saber as últimas da classe trabalhadora alemã, que também é turca e portuguesa como saberão. Logo a seguir no bar perguntei a colegas alemães da área da segurança social qual era a taxa dependência da assistência hoje, face a 2016, quando a analisei, nos mini jobs, e um respondeu-me – simpático – dizendo a taxa de dependência feminina, já que eu “sendo mulher era isso que eu certamente queria saber”. Ainda me oferecem bacalhau assado, e me recomendam o Algarve para passar férias…Vou fugir daqui.

Fui salva por um par de velhos colegas que me convidaram para jantar. Têm responsabilidades directas nas campanhas de Bernie Sanders e Varoufakis, e na política alemã, todos do norte da Europa e dos EUA, e onde estivemos a conversar – sem a mesma opinião – , sobre o mundo global, e sobre as classes trabalhadoras e relações políticas dentro dos partidos e dentro dos países – no caso EUA, Alemanha e Grécia. Não deixei de pensar que naquela mesa estão quadros que dirigem os destinos, no caso da esquerda mundial. São conhecidos do grande público, por isso não os cito. Desenharam parte do programa destes partidos nos países centrais. Eu estava, para eles, entre iguais. Quiseram ouvir-me – com atenção. E eu a eles. Passando nas mesas de conferência de “feminismo” estão dezenas e centenas de mulheres, a escutar-se entre elas. Naquela mesa eu era a única mulher – havia outro do sul, mas a trabalhar na Universidade francesa há 30 anos. De Universidades periféricas, eu era a única. Não estava ali por isso, para os meus colegas de jantar as questões que me fizeram foram outras: a revolução do 25 de abril, esse tema é inevitável – tinham todos estado em Portugal em 75; a ausência de extrema direita em Portugal; o salário real e migração para o norte dos portugueses; a segurança social europeia, o que eu achava dessa nova ideia para a “mobilidade”, etc. Tive oportunidade de explicar o drama que é para os trabalhadores portugueses a mobilidade mas também para os alemães que vão sofrer essa concorrência. E que, o que parte deles discordaram, não precisamos de segurança social móvel, mas internacionalismo político pela elevação do salário geral – se os alemães lutarem pelo aumento do salário dos portugueses estão a lutar pelo seu próprio salário.

A ratoeira onde as mulheres se deixaram enfiar, e os trabalhadores do sul, é incrível – caíram, como se diz, que nem patinhos no conto da identidade, que na verdade é apenas o resultado do enfraquecimento dos partidos dos trabalhadores. O lugar que ocupam hoje mulheres e trabalhadores do sul é atribuído por quotas, ainda que quotas não escritas. É um auto-lugar onde se colocam na marginalidade – uma espécie de lugar dos coitadinhos. As grandes questões ficam nas mesas restritas de quem procura dominar a compreensão da totalidade do capitalismo.

Confesso que o Bratwurst da Turíngia, salsicha caseira com couve fermentada e batata com molho de mostrada, e o Riesling, a minha casta favorita, estavam imperdíveis.

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