Irracionalismo e pequena Política

O “fim do mundo” que não chegará e a campanha eleitoral onde não se debateu Política – entrevista que dei ao JN:

Jornal de Notícias: Viu algum debate? Achou-o(s) esclarecedor(es)?

Raquel Varela: Vi a maioria. Não, de todo. Está ausente o debate politico, as grandes opções sociais, de Estado, de regime, de classes, de lugar do país no sistema internacional de Estados, da UE e da nossa relação com a Europa. Os debates são em geral de merceeiros, contabilistas, mais 1,2% para ali, menos 1,4% para aqui. É o domínio da pequena política. A grande política está ausente.

JN: Quem mais se destacou? Se não, o que faltou?

RV: O que mais me impressionou foi o imenso esforço que os media fizeram para tornar interessante o que é desinteressante. A política é desinteressante – a maioria dos portugueses não se interessa por ela mas ela não é interessante. Resolve-se isto com recurso à mudança de forma? Dar o mesmo debate em vários canais ao mesmo tempo? Fazer programas que “humanizam” os candidatos, perguntando o livro que gosta de ler ou o jardim onde passeia? Foram bons programas, bem produzidos. Mas não evitam o desinteresse geral pela política, que decorre de uma base muito real – a sensação que a maioria dos portugueses demonstra de que a política é algo afastado de si, que a democracia é mais formal do que substantiva, e que a política se profissionalizou, distante do seu quotidiano. Aliás, é tanto assim que a palavra”político” passou a significar insulto; e os novos partidos que se criam procuram tirar a palavra político do nome. É uma tragédia esta despolitização, mas os responsáveis principais são os próprios políticos. O povo está afastado porque o afastaram. É um caldo perigoso para o populismo.

JN: Considera que os debates podem ter sido decisivos?

RV: Não. Mas conheço pouco do comportamento eleitoral, não é a minha área. Há uma parte que é mais ou menos estável de votos e outra que é de “modas”, agarra “o ar do tempo”.

JN: O que gostava de ter visto ser debatido?

RV: A dívida privada que foi transformada em dívida pública; os baixos salários que obrigam os trabalhadores a trabalharem horas extra; a dependência exterior crescente; os horários de trabalho que tornam regular trabalho à noite, de madrugada e ao fim de semana; o novo sindicalismo; o desinteresse geral de professores e alunos pela escola, lugar onde deviam ser felizes e não são; a desagregação do SNS sem capacidade de fixar profissionais, formar novas gerações e fazer investigação – o SNS está cada vez mais, apesar da imensa capacidade instalada de excelência, a servir como trampolim para formar para o sector privado; a doença e sofrimento mental generalizadas; a solidão; o envelhecimento e as demências; as migrações de portugueses para fora; as relações liquidas e superficiais afectivas, decorrentes de um mercado trabalho flexível e just in time…Outro assunto essencial é que o debate foi dominado pelo messianismo climático do apocalipse mas não debatemos a economia destrutiva em que importamos roupa da china, com uma gigante pegada social e ecológica, e exportamos papel em massa destruindo a vida rural no Eucaliptal em que vivemos, com medo, todos os verões. A “emergência” climática está a transformar-se num irracionalismo messiânico – deixamos assim de debater, racionalmente e com bom senso, os problemas gravíssimos de relação do Homem com a natureza, o equilíbrio cidade-campo, a abandono rural, o mundo do trabalho (porque há fábricas a laborar 24 horas por dia para produzir automóveis?), etc. Enfim, falamos em transição enérgica e a ferrovia foi destruída…Não há debate racional mas apenas medo do fim do mundo, o que posso garantir não vai acontecer (risos).

Entrevista de João Sousa.

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