Brexit

A Inglaterra sempre foi um dos países preferidos dos cientistas sociais. Fala-se na “elasticidade do seu Estado”, ou seja, na capacidade das suas classes proprietárias conseguirem manter-se unidas – o que é um feito que justifica, entre outras coisas, que o país com o movimento operário mais consciente do mundo nunca tenha estado perto de uma revolução social – mesmo na greve geral de 1926 estiveram longe. A Inglaterra foi o país que mais cedo fez a sua revolução burguesa, cortaram a cabeça ao rei antes dos franceses, mas mantiveram com a monarquia uma “relação cordial de forças”, com a fleuma que se conhece, algum tipo de equilíbrio entre aristocracia e burguesia se impunha para manter o Estado intacto. Havia – sabia a burguesia – demasiadas cabeças para cortar, espelhadas e espalhadas nos magníficos castelos e casas senhoriais que as séries da BBC mostram como património histórico. Não é só património, nem história – é propriedade. Até há poucos anos a casa real, em que nenhum dos membros trabalha ou trabalhou, era a que mais recebia da Política Agrícola Comum, cálculo feito através do tamanho das propriedades. Este rentismo parasitário foi o preço a pagar pela indústria e pela finanças – a burguesia, para manter quietos e calados tantos reis, princesas, barões e duques, distribuem por rendas fixas à aristocracia um valor, que não é pequeno. A rainha esteve à altura do pacto histórico, e devolveu os serviços que lhe prestaram desde o século XVII esta semana, suspendendo o Parlamento, obstaculizando o debate sobre o Brexit, conduzido pela direita dura que chegou ao poder. Sim, os ingleses – já sem império, dependentes dos EUA, e com a mesma comida insuportável – continuam a surpreender-nos pela “elasticidade do Estado”. A rainha fica com o ónus da decisão formal, dizendo que o seu papel é apenas decorativo e diplomático, a burguesia suspende a democracia mas diz que quem toma a decisão é a rainha. E ambos explicam tudo isto ao povo como um “procedimento regular, que desta vez é um pouco mais longo”. É óbvio que os Monty Python só podiam ter nascido num país assim.

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