Uma Greve Justa

Publicado originalmente no Expresso

Há um limite de bem-estar social que todas as sociedades têm que assegurar. Esse limite foi convencionado – depois de muitas greves que o conquistaram – há mais de 100 anos em 8 horas limite diárias de trabalho. O qual aliás devia ter sido, entretanto, reduzido com o desenvolvimento tecnológico. O outro limite é a existência de um salário mínimo, que permita viver com dignidade elementar (pagar casa, alimentação, etc) e que está calculado para Portugal em 1000 euros. Não se apoiam greves escolhendo as direções sindicais – apoiam-se greves porque elas são justas, fazem exigências que correspondem a um sentido de justiça social. É justo que um trabalhador que tem a enorme responsabilidade de um trabalho desgastante, penoso e arriscado ganhe cerca de 1200 euros, juntando salário base e subsídios de risco? Parece-me óbvio que é. É justo que ele trabalhe, como propõe a Antram no acordo assinado com a Fectrans em 2018, até 15 horas por dia por 900 horas? Não, é inaceitável.
Na circunstância de adoecerem e só com o salário base, ficam a receber pela Segurança Social um valor muito baixo que não lhes permite a sua sobrevivência nem dos que dependem deles. Com estes salários atuais terão uma reforma mínima – não conseguirão viver de forma independente, pese embora terem trabalhado a vida toda, e tantas vezes de forma desumana.

Esta greve é justa porque os lucros que as petrolíferas têm justificam os aumentos pedidos. O silêncio da Galp neste conflito é inexplicável, deixando o país arder numa greve contra as suas subcontratadas.

Os serviços mínimos devem contemplar, sem falhas, doentes, serviços de urgência, medicamentos urgentes, etc. Tudo aquilo que ponha em causa a vida. Para além disto a utilização de serviços mínimos corresponde a uma violação do direito constitucional à greve, um direito fundamental. Um Estado autoritário é uma porta aberta ao populismo de extrema direita. A greve existe para parar a produção e são as consequências da paragem de produção que obrigam os patrões a negociar e impedem a degradação das condições laborais dos trabalhadores. O Estado não a pode impedir.
As greves afetam naturalmente a população, mas a população é muito mais afectada pelos baixos salários. A existência de trabalhadores – a maioria em Portugal – a auferir menos de 900 euros por mês tem consequências para todos nós: menos sustentabilidade da segurança social, menos impostos, mais assistência social para os trabalhadores pobres (é humilhante viver da assistência e não do trabalho), mais custos para o SNS, mais taxa de absentismo, menos mercado interno. E, claro, a vida pessoal e familiar degradada. E aqui reside toda a questão da justiça – para que serve um Estado senão é para garantir uma sociedade de bem-estar?

1 thought on “Uma Greve Justa

  1. «E aqui reside toda a questão da justiça – para que serve um Estado senão é para garantir uma sociedade de bem-estar?»

    O que ainda temos, serve claramente – tal como no caso dos regimes assumidamente fascistas – para que o Grande Capital possa, através desse mesmo Estado, melhor controlar as pessoas.

    Mas, no regime neofeudalista que está planeado (pelo Clube Bilderberg e afins: https://twitter.com/EstulinDaniel/status/1096448713419964416) com as multinacionais a serem os novos senhores feudais, irá o Estado ser praticamente extinto, para que fiquem as pessoas quase totalmente à mercê dos seus novos senhores feudais – o que está a ser já conseguido através da falência propositada dos Estados, causada pela contracção de dívidas que toda a gente bem informada sabe serem impagáveis.

    E, quando tal acontecer efectivamente, não irá haver leis do Estado ao quais os trabalhadores explorados possam mais recorrer para se defender.

    Disto (e doutras coisas) anda a avisar um conhecido investigador, cujo documentário até já passou na RTP: https://www.rtp.pt/programa/tv/p34917

    Mas, como este tipo de sindicalistas ocupam os seus tempos livres a ver futebol, em vez de a informarem-se sobre o que é importante – ou a pensar em alternativas políticas…

    (E, que tal nacionalizar a indústria petrolífera, para acabar de vez com estes problemas?)

    …Boa sorte, a estes, para tentar impedir tal de acontecer.

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