Tornar a Esperança Possível

Há quem considere que eu gosto de greves. Eu, como a larga maioria dos trabalhadores, e dos que estão em greve também, não gosto de greves. Se os trabalhadores aturam por medo 20 anos de pagamentos por baixo da mesa, em geral aturam décadas maus tratos vários. Só perdem a paciência em situações limite, infelizmente. Se há uma greve é porque antes houve milhares de tentativas para resolver a vida de outra forma. Se conhecessem as minhas rotinas pessoais saberiam que dificilmente saio de casa para me juntar a qualquer multidão, e tenho vidro triplo no meu escritório, gosto de silêncio e passo o dia a ler, estudar e escrever. Gosto de namorar, vinho biológico, alheira grelhada e amigos, nas noites quentes do Alentejo, e sestas no jardim, gosto de piqueniques gourmet e de aventuras de desportos radicais com a família, em montanha, onde não faço ideia do que se passa no resto do mundo. Não sou anti social, pelo contrário, mas andar atrás de debates conjunturais aborrece-me. Gosto de ter tempo para as grandes questões e detesto as do dia a dia, da “pequena política”. Interessa-me debater qual é o projecto de país que queremos e não ter que explicar que 900 euros é um mau salário. Os livros e cursos têm-me permitido isso porque o debate público em Portugal está reduzido à superficialidade – afinal cumpriram aqui ou ali os serviços, há ou não gasolina, o parecer do PGR diz isto ou aquilo? Tudo, convenhamos, debates sem interesse algum que fogem à essência da questão. A questão é qual é o projecto de país? Exportações, apoiadas em baixos salários, trabalhadores adoecidos, outsourcing e dívida pública e especulação imobiliária, tudo isto apoiado num regime musculado que o PS e a Geringonça abriram portas porque a Direita estava tão queimada que não conseguia gerir mais o país em matéria laboral?

Gosto porém, confesso que com isto tenho-me divertido muito, de ver cada previsão que fiz ser ainda suplantada pela realidade. Previ este sindicalismo novo, os sectores onde ele ia emergir, a crise do neocorporativismo sindical das centrais sindicais, as novas formas de organização de base, a escassez de força de trabalho, a queda da produtividade, o aumento do absentismo, o colapso de empresas estruturais. Publiquei neste anos creio que pelo menos 10 livros e 3 dezenas de artigos científicos com este quadro. Até previ algo simples, que ontem o país viu em 1 minuto, estando assim dispensado de ler os meus livros pela força da realidade – para parar o país não é preciso fazer greve, basta apenas que os trabalhadores de todos os sectores trabalhem apenas 8 horas por dia. As minhas previsões deixam-me orgulhosa do meu trabalho, porque significa que acertei na teoria, na metodologia, nas áreas de estudo empírico, embora, como é óbvio esse trabalho resulte em primeiro lugar de um enorme esforço colectivo, de redes e grupos onde estudo. Orgulhosa e divertida não é, porém, alegre. Alegre ficaria eu se visse os trabalhadores portugueses conseguirem realmente mudar este estado a que chegámos. Quero voltar a estudar a capacidade de transformação social quando os movimentos sociais se colocam em marcha, a criatividade do mundo do trabalho, a grandeza da resistência, e deixar de lado o sector deprimente (e pouco desafiante, na verdade) das previsões negras. Precisamos, como disse Raymond Williams, não de tornar o desespero convincente, mas a esperança possível. O papel dos intelectuais devia ser este, abrir caminhos, tornar a esperança possível. E não ter que fazer 10 artigos a explicar o óbvio, que este Governo é um perigo autoritário, que abre portas à direita dura com estas medidas.

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