O fígado de Pardal Henriques

Já conheço o tamanho do fígado de Pardal Henriques, as suas entranhas com detalhe forense, a consistência dos rins. Jamais votaria nele, mas o que assistimos contra ele envergonha-nos a todos. O papel do jornalismo nesta greve um dia será alvo de uma longa tese, explicando como o jornalismo abdicou de ser um contrapoder, e por isso abdicou de ser democrático. E se tornou dependente do Estado, a “voz” do Estado – já ouvimos mais vezes Marcelo e Costa sobre a greve dos que os próprios camionistas ou a Antram – a rigor só são ultrapassados pelo povo comum que nada tem a dizer nas filas da gasolina a não ser que querem pôr gasolina… Foram já recolhidos cerca de 1500 testemunhos destes, “eu estou aqui à espera para meter gasóleo”. É ridículo. E isto quando a larga maioria dos comentadores dos media não conhece as origens da greve, confundem valores, e desconhecem os CCT em negociação, é confrangedor ler a ignorância sobre a greve e as relações laborais que têm sido publicada em artigos. Confunde-se inclusive valor real com valor nominal do salário e apela-se a ilegalidades dignas de um país sul americano na década de 50.

Não voto em Pardal Henriques, se for candidato, porque não acredito em salvação individual da pátria. É pela mesma razão que, pese embora os sorrisos e abraços, nunca apoiaria Marcelo. Aliás, vendo o papelão do BE e do PCP neste Governo de “racha sindicalistas” creio que resta aos trabalhadores portugueses uma solução a la Reino Unido – os sindicatos se juntarem e fazerem uma lista eleitoral, com um programa definido democraticamente pelas suas bases, fora dos partidos existentes. A Geringonça tornou-se um Governo semi-autoritário contra os trabalhadores, com um carácter onde os traços bonapartistas do regime se acentuam. Só por cegueira clubistica não se vê isto. Mas voltemos a Pardal Henriques e ao assassinato de caráter de quem tem sido alvo.

Primeiro foi o carro, como a coisa era demasiado patética, mudou-se o disco. Foram então perscrutar a vida dele desde que nasceu, e descobriam que levou uma empresa à falência. Como?! Nós não vivemos no país em que os Governos e a Banca levaram 10 milhões de portugueses à falência?! Mas há ainda mais. Agora anuncia-se, com escândalo, que será candidato. Quase morri a rir. O BE e o PCP tiveram vários deputados porta vozes de lutas laborais. E este é o Portugal onde metade dos deputados do PS e do PSD são advogados de grandes empresas e lutam todos os dias para manter na Assembleia da República esse estatuto misto. Ou promíscuo, como preferirem. Em que de dia falam do povo, e dos serviços públicos, e à noite servem os patrões do povo, e os serviços privados. Pior, colocam o Estado, pago por quem trabalha, ao serviço destes interesses e chamam-lhe “interesse nacional”. Suspendem a lei da greve confundindo emergência médica com remuneração dos accionistas, alargando os serviços mínimos ao lucro máximo do “regular funcionamento da economia”.

Eu não teria escolhido Pardal Henriques para porta voz. Acho que os motoristas deviam falar por si, com a gramática que conhecem, dizendo de coração o que pensam. Deviam sim sempre ter ajuda de advogados e outros especialistas, como têm todos os bons sindicatos. Acredito que haja inexperiência, num sindicato novo, e não tenho razão para ser contra ou a favor de um advogado, que não conheço. Se tivessem falado por si próprios, os motoristas tinham evitado alguns equívocos, creio.
Mas esse não é o debate central. O grande debate sobre o porta-voz desta greve não é um advogado que se tornou porta-voz de um sindicato. É um Governo que se tornou porta voz de uma Associação Empresarial Privada chamada Antram e das Petrolíferas. Empresas que vieram explicar que só têm lucro mantendo salários e horários miseráveis. A isto o Governo chamou o “interesse nacional”. Como se todos nós, e os motoristas, não fossemos também portugueses com outros interesses que não os da Antram e da Galp. E não pagássemos muito mais impostos do que a Antram ou a Galp para manter o Governo e o Estado a funcionar.

Sim, o acintoso porta-voz desta greve não se chama Pardal, chama-se Governo, e Marcelo Rebelo de Sousa. Que se ofereceram para fazer um papel de agência de comunicação da Antram. Os media ficaram passivos a ser porta-vozes das instituições do Estado, ao ponto de ontem terem cortado a palavra no telejornal quando os motoristas anunciavam a solidariedade de vários sindicatos, entre eles dos portos e aeroportos onde foram decretados os 100% de serviços mínimos. É sobre tudo isto que temos que reflectir com urgência. E sobre isto porque queremos uma comunicação social séria, contra poder, contraditória, informativa e, por isso, ao serviço da democracia.

14 thoughts on “O fígado de Pardal Henriques

  1. Já sabemos Profª Raquel, as greves, para si, sejam elas quais sejam, estão sempre acima de tudo, até das pessoas e do país! Talvez porque tem um lugar seguro na vida e no trabalho! Para defender quem trabalha não é só estar ao lado das greves seja elas quais forem!

    • o interesse do país e das pessoas está em as pessoas conseguirem conjugar uma vida pessoal com uma vida profissional, e que sejam retribuidas pelo trabalho que fazem. o teu comentário é simplesmente desinformado, e tu és um deles, os que não se informam e falam sem saberem.

  2. Outro advogado da ANTRAM. Já em 1972 o Tino Flores cantava assim: “Os patrões são inimigos do povo trabalhador”. O resto é demagogia.

  3. Caramba Raquel eu sou da mesma opinião. E tudo me parece tão claro que não percebo como as pessoas se deixam enganar quando confundem o porta voz com as verdadeiras razões da greve. Estamos transformados num pais de cobardes

  4. Há anos que temos transportadoras a trabalhar abaixo do preço de custo. Será que não há empresas transportadoras a mais? Não serão os baixos salários o reflexo de uma concorrência desenfreada entre as transportadoras?…
    Se o mercado é livre, porque é que é solicitada a intervenção do Estado para a criação de carreiras?

  5. A infame posição do governo só tem paralelo, de facto, com a fidelidade canina da generalidade dos órgãos de informação. Contudo, no meio desta louca escalada de autoritarismo e de manipulação, parece estar a surgir uma consciência cívica coletiva: já ouvi representantes de associações da PSP e GNR declararem estar contra a utilização dos seus agentes “para furarem greves” e outros cidadãos, de diversos setores, a afirmarem que “a greve dos motoristas é a greve de todos os trabalhadores”. Será que as pessoas se estão a agitar? Oxalá que sim!

  6. Mas será alguma vez,um governo ser o governo do país? Claro que não, se eles estão ligados as grupos económicos, tanto o PS como o PSD, e os deputados eleitos por esses “partidos” já há muito se sabe que estão ligados a grandes empresas, que mais se esperaria deste governo com esta greve? Claro que esta greve dos motorista vai mexer com a “economia” dessa gente e logo fazem tudo para que ela não avance. E depois vêm, presidente e governo, dizer que é um atentado ao “portugueses”. Não os vi tão atarefados a quando uma greve de professores, médicos, enfermeiros ou outros que para a economia deles não os afectava, como era com o povo pouco se importaram, só um”desabafo” temos que averiguar, palavras do “nosso presidente”

  7. Muito bem, muito bom, muito certo, Raquel Varela. Assim pessoas conscientes e não individualistas pensam. Bem-haja!

  8. Se já admirava a Raquel pela sua lucidez, valores e sentido de justiça, esta análise só reforçou a minha opinião! Excelente! Parabéns!

  9. A Raquel é que devia estar a escrever as reportagens desta “crise energética”, como dramaticamente o Governo lhe chama. Porque falta na imprensa este bom senso e, claro, objectividade na análise dos factos. Gostei especialmente de ler o que escreveu!

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