No legado da resistência ao trabalho forçado

Há alguns anos a historiadora Dalila Cabrita Mateus ligou-me para almoçarmos. Com grande dificuldade andava, fui ter com ela perto de casa, ali no Fonte Nova. Disse-me que estava a morrer, com um cancro. E que me deixava a mim o seu arquivo de mais de 20 anos recolhido na Torre do Tombo, entre outros lugares, e que continha tudo o que reuniu sobre o trabalho forçado nas colónias até 1974 e o papel da PIDE-DGS e do Exército português a gerir essa força de trabalho. Não tinha medo da morte, era uma marxista crente, se bem me recordo agora das suas palavras, riu-se, mas tinha medo que o arquivo caísse nas mãos erradas. Tremi, guardei as lágrimas, por ela. E pela responsabilidade que nos legava, sabia bem que eu podia e queria mergulhar no arquivo mas com o trabalho que tinha em mãos era quase impossível. Ela acreditava, reiterou, que no Grupo de Estudos do Trabalho da Nova/FCSH iríamos dar continuidade a esse trabalho de uma vida, que ficou por escrever, mas cuja pesquisa extensa ela tinha feito. Desde então eu e o João Carlos Louçã temos tentado mergulhar no arquivo, apenas iniciando o trabalho de pesquisa, interrompido por tantos outros projectos em curso. Uma parte desse trabalho será publicado na Áustria este ano, mas corresponde a uma pequena parte. A Dalila não queria o arquivo na mão de qualquer pessoa, era uma historiadora clássica, com trabalho empírico, e marxista, mas era fortemente anti identitária ou culturalista, e ao mesmo tempo recusava o revisionismo que esquecia no império os seus crimes.

A Dalila caminhou como investigadora – daí o nosso encontro intelectual -, para uma visão que ligava intensamente o Estado Novo à acumulação primitiva, baseada no trabalho forçado – essa foi a razão de ser do Império até 1974, pese embora a maquilhagem legal. Mas essa foi também a razão de ser da força dos movimentos de libertação que se apoiaram nessa resistência de camponeses ao trabalho forçado. Não queríamos estudar vítimas, queríamos compreender as formas de resistência. A Dalila não encobria crimes, mas jamais foi complacente com as lideranças negras locais ou mentiu ou omitiu em nome das vítimas. Ela tinha, como todos os grandes historiadores, um compromisso com a verdade. Palavra que hoje, em tempos relativistas, está fora de moda. Portanto o seu legado não era e não é fácil de preencher. E por muito anos não vimos que outras pessoas pudessem assegurar o que eu, na hora da morte – morreu dois meses depois – lhe tinha prometido. Soube esta semana que um aluno meu, em quem creio que a Dalila confiaria, conseguiu bolsa de doutoramento para o estudar. Não publico aqui o seu nome porque não sei se é sua vontade. Começamos agora, com ele, uma longa caminhada. É apenas o início, mas honramos assim a memória da Dalila, o compromisso com a investigação séria, e a memória de todos aqueles que resistiram ao trabalho forçado no império português.

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